sábado, 1 de novembro de 2008

O LEITO DA MORTE

O LEITO DA MORTE_EDVARD MUNCH
[na barra de vídeo ao lado escutar Requiem de Mozart]
*
É o voo misterioso ao sonho da morte
onde flutua na incerteza de saber qual será a sua sorte
e se do nada poderá ainda renascer igualmente forte;
*
a certeza absoluta de que essa palavra fatal
marca na vida dos indivíduos um insondável ponto final
mas é na espécie o retorno da vida ao seu vigor seminal;
*
o respeito pelo véu e pela dignidade dos mortos
onde florimos e choramos a triste despedida
dos que viveram como nós a dor e a alegria da vida;
*
a viagem para além da vida
onde se efabulam recompensas e castigos
e os crentes intercedem a Deus nos seus abrigos;
*
a dissipação da morte em poeira e nada
onde o descrente só imagina a fétida matéria
cuja energia chegou ao fim no fim da estrada;
*
o receio de morrer antes de ter vivido
porque na órbita precária do naufrágio e do navio
o mortal se afundou num calafrio insondável e sombrio;
*
o espelho da morte no sonho da vida
onde toda a acção tem por horizonte tal medida
e a vida paira frágil mas preciosa de ser vivida;
*
É o voo misterioso ao sonho da morte
e a bela incerteza flutuando na vertigem
de poder renascer igualmente forte;
Respeito pelo véu e pela dignidade dos mortos
flores e choros na triste despedida
dos que viveram como nós uma humana medida;
Efabulação sobre recompensas e castigos
ou dissipação da energia em poeira e nada
é o enigma da vida perante a última morada!...

Luís Lourenço

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O PODER DAS PALAVRAS

PLANTA EXÓTICA DA TAILÂNDIA

***

As palavras sempre ficam. Se me disseres que me amas, acreditarei.

Mas se me escreveres que me amas acreditarei ainda mais.

Se me falares da tua saudade entenderei.

Mas se me escreveres sobre ela, eu a sentirei junto contigo.

Se a tristeza vier até consumir e me contares eu saberei.
Mas se a descreveres no papel, o seu peso será menor.

Lembra-te sempre do poder das palavras.

Quem escreve constrói um castelo, e quem lê passa a habitá-lo.


Silvana Duboc

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O SABOR DAS LÁGRIMAS

O SABOR DAS LÁGRIMAS_RENÉ MAGRITTE
*
Já que me comoves, Universo!
Com a tua imensidão sagrada
e abres para mim uma janela inocente
para olhar na tua realidade velada;

*
E me prenches também, Generoso!
Com os sonhos que em ti deslumbro
nos abismos trágicos do teu mistério
deixando-me escutar a voz dos oráculos
e aprofundar as suas chaves sublimes
no segredo do teu enigma profundo;

*
E me sopras ainda, Guerreiro!
Os acordes sublimes do teu poder
no auge das clareiras e dos gritos
orquestra a espalhar a tua música
sibilina, reconfortante e telúrica
pela noite sombria e sonâmbula
dos naufragos bloqueados e aflitos

*
Ousa conduzir-me então, Palavra!
Ao teu altar sagrado e cifrado
abraça na tua força a leveza dos ousados
e proclama por mim aos destinos elevados
que se o Reino tão nobre e poderoso
continuar cifrado neste silêncio calado
a vida nunca deixará de ser um fardo gelado
e o Mundo um palco sombrio e desgovernado!...


Luís Lourenço

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

QUADRAS POPULARES

JOVEM A EMPOAR-SE_GEORGES SEURAT
[Dedicado à minha mãezinha]

*
Dá-me um beijo moreninha
Darei-te a paga dobrada
Quem pede um beijo dá dois
Não lhe fica a dever nada

Não lhe fica a dever nada
Nada lhe fica a dever
Dá-me um beijo moreninha
Serás minha até morrer

*
Maria da Graça é uma
Cachopa de olhos em brasa
Vive sozinha e não fuma
Mas tem cinzeiros em casa
*
Quem tem janelas de vidro
Não pode atirar pedradas
Eu fui atirar às vossas
E achei as minhas quebradas
Tradição Popular



domingo, 26 de outubro de 2008

VARIAÇÔES EM SOL MAIOR

RAPARIGA COM GUITARRA_TAMARA DE LEMPICKA

* *
És o rio que corre
e eu o barco que navega
És o vento que sopra
e eu o vulcão à espera;

* *
És o sol que me aquece
e eu o luar na madrugada
És a estrela que brilha
e eu os teus gozos acordada;

* *
És os raios de Sol
e eu a tua aventura
Eu a leveza do ar
e tu a gaivota que procura;

* *
És o riso nos meus olhos
e eu a paixão que estremece
Eu a canção que enternece
e tu a explosão que perdura...

* *
És as cerejas nos meus lábios
e eu o rio nos teus desejos
Eu o sabor a morangos
e tu a volúpia dos meus tangos.

Luís Lourenço



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A GRANDE FAMÍLIA

A GRANDE FAMILIA_RENÉ MAGRITTE
*
É a dor e a alegria
que se inquietam
nas vagas da sabedoria;

*
é o sonho e a realidade
que se guerreiam nos vôos
da humanidade;
*
é o amor e a paixão
que se lançam em jogos de sedução
às voltas no coração;

*
é a sorte e o azar
que se aventuram nos labirintos
da vida, do jogo e do altar;

*
é o mar e as espumas
que se atiram fortes ao rochedos
até quebrar;

*
é a acção e a roda do ser
que inventam o futuro e o não-ser
para o forçarem a ser;

*
é a imaginação e as névoas
que se abismam no enigma da inspiração
para o manterem vivo e secreto,
por desvendar;

*
É tudo: vida, paixão, amor e verdade,
dança imortal e mistério,
fonte onde o homem
pode voltar a criar
a festa da sua vida,
e nela voltar a jorrar
livre e feliz a nascente
orgulhosa da sua própria verdade!...


Luís Lourenço

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

RIOS DA ILUSÂO

PRAZER_RENÉ MAGRITTE
[a uma amiga que está muito triste]
*
No teu corpo que não toquei
distante por não poder tocar
correm os rios de espuma
que ainda não se desfizeram no mar;

*
E na tua alma onde não entrei
pela beleza de não querer entrar
bailam jactos de prazeres e risos
que só o tempo vai libertar;

*
Mas na névoa em que os encobres
deixas os nós das estrelas
e os elos enigmáticos de desejos
sob o véu de delícias em noites insones

*

E no rio da ilusão que te devora
como sublime ardente e trágico,
em noite de abruptas desmedidas,
caiem as folhas amarelecidas
e a nostalgia, véu do frenesim solitário,
nas brumas da uma ninfa de Outono,
errante mas sonata na Primavera!...


luís lourenço





domingo, 19 de outubro de 2008

AS FASES DA VIDA

AS FASES DA VIDA_G. DAVID FRIEDRICH
*
É o amor da viagem e o navio
que se desafiam um ao outro
com igual coragem e sangue frio
*
o mar profundo e a longa travessia
onde navegam arrojados timoneiros
faróis na noite e raios de sol no dia;
*
o porto de partida e o porto de chegada
onde cada saída é uma nova partida
e cada partida é uma nova chegada;
*
a expectativa e a ambição
que no navio são o ar e a respiração
e nos criadores o destino da missão;
*
a aventura e a descoberta
que se jogam belas e seguras
mesmo nos portos da hora incerta;
*
a fruição e as formas belas
que sopram durante o percurso
e se renovam em criações serenas;
*
a felicidade do mar e a presença do navio
que mesmo quando se retiram ausentes
voltam a fazer-se sentir presentes;
*
É mar e travessia, viagem e navio,
aventura, descoberta e fruição,
tempo, densidade e desafio;
Ar e respiração, leveza e invenção,
sopro de toda a criação,
vida e refloração;
Nascentes virginais da poesia,
e vôos inocentes da liberdade
na órbita da própria felicidade!...

Luís Lourenço

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

AMAZONA NO BOSQUE

CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
*
É a manhã e a alvorada
que arrancam o ser à inércia
até nascer nele uma nova morada;
*
A noite e as portas do labirinto
que rasgam clareiras ao caos
até brilhar nele o infinito;

*
O meio-dia e o zenite solar
que derramam energia sobre as taças
dos amantes da vida e do criar
*
a meia-noite e os pressentimentos
que festejam a vida aos sons da guitarra
até tudo se afinar em explosão de sentimentos;

*
a chaga infeliz e os desmazelos
em que a vida e a cultura se afundam
até o homem quebrar os medos;

*
a festa e a nascente primordial
onde tudo se canta na músca da vida
como num barco ondulante em alto mar;

*
o instante e a luz do pensamento
onde o ser celebra sem arrependimento
o nascer e o morrer do próprio tempo;

*
É expansão e Universo, verso e reverso
o ser escrito no perfume de um só verso;
O símbolo da vida abundante,
mesmo a perdida e a errante;
Os amantes do ser e do pensar
orgulhosos de ser um para o outro
toda a alegria da incerteza
no jogo do seu próprio caminhar!...


Luís Lourenço

terça-feira, 14 de outubro de 2008

INTERLÚDIO AMOROSO

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA

És o vento que sopra
e eu o barco que navega
És o rio que corre
e eu o pomar à espera;

**
És a estrela que brilha
e eu o luar na madrugada
És o Sol que me aquece
com teus mimos acordada

**
És a leveza do ar
e eu a gaivota que procura
Tu és os raios do Sol
e eu a tua aventura
**
És a festa que perdura
e eu a canção que enternece
Tu o meu riso nos olhos
e eu a ilusão que estremece.

Luís Lourenço



domingo, 12 de outubro de 2008

MISTÉRIO E MAGIA

NO TERRAÇO_PIERRE-AUGUSTE RENOIR
É o mistério e a magia
que a palavra arranca à escuridão
até os trazer à luz do dia;
*
o nascimento e o amor da criança
que trazem ao ventre da mãe a grande dor
e o grito cósmico da esperança;

*
o desejo e a rebeldia
que enchem a vida dos sonhadores
com noites claras e frescos de ousadia;

*
a liberdade e o combate
que deleitam os homens nas colinas do olhar
e nos entregam aos impulsos do amor e da arte;

*
a aventura do ser e o jogo das miragens
que trazem a festa à terra e as ilusões à vida
como às árvores o festejo das folhagens;

*
a eternidade e o êxtase do momento
onde sonham as moradas do mundo
como obras felizes e pérolas do pensamento;

*
É amor, paixão, desafio, alegria, dor e verdade,
névoa e claridade;
O fogo imortal da poesia
onde renasce contraditória e incerta
a vida, essa orgulhosa raínha
Que é o sentido do ser
por amor à sua própria verdade!...


Luís Lourenço

terça-feira, 7 de outubro de 2008

VÉNUS E CUPIDOS

VÉNUS E CUPIDOS_SALVADOR DALÍ
É o ser na aspiração de ser outro
onde afirma o horizonte a fronteira
de querer ser tudo sendo pouco;
*
o ser e a pergunta que o transcende
em busca do que é mas não se surpreende
apesar da chama que nele se acende;
*
o ser e angústia que nele se enquista
como o amor da mulher a quem se ama
mas jamais se conquista;
*
o ser e o cerco do não-ser
onde a violência exercida ao pensar
gera o poderoso impulso de se renovar;
*
o Universo e o jogo do devir
que inocentam o destino trágico dos seres
no fado do voltar a chegar e a partir;
*
o ser e a pergunta pelo sentido
que se abismam no trágico herói
na procura mais valiosa mas que mais dói;
*
É inquietação e sentido
pergunta e aspiração
chama que se acende no ser
que se ama mas não se transcende;
ser na fronteira do não-ser,
limite-expansão e horizonte,
cerco-abertura e ponte;
tragédia valiosa de herói
que cura e liberta
mas vai retornando e dói!...

Luís Lourenço

domingo, 5 de outubro de 2008

INOCÊNCIA E POESIA

CRIANÇA NA PRAIA_P. AUGUSTE RENOIR *

Olhaste musa para as estrelas

com olhinhos de criança a brilhar

e jogaste às entrelinhas com elas

nos seus carrosséis a girar;

*

jogaste toda a ternura

nos seus cantos de embalar

que agora vives no mar alto

sem medo de naufragar;

*

brincaste sol com as crianças

na praia às conchinhas do mar

que agora essas conchinhas

são mil sorrisos a brilhar;

*

Hoje és poesia dessas ilusões ternas

aspergidas no voo das borboletas

e baloiças na felicidade delas

perfumes num cesto de violetas!...


Luís Lourenço

sábado, 4 de outubro de 2008

O REGRESSO DA CHAMA

O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE

É o sopro e a distância

que estão para a chama do ser

como o acto está para a transbordância;

*

a força do ser e a amizade

que na textura do mundo são tão antigas

como a própria eternidade;

*

o cárcer da dor e da tristeza

que se espalham pelo mundo

quando nos seres vagueia a fraqueza;

*

o poder da alegria e da felicidade

cujos eflúvios no mundo jamais se esgotam

mesmo quando deles só resta a saudade;

*

o desejo do mais e a bela espontaneidade

que aspiram em pleno ao triunfo no ser

como as fontes da própria liberdade;

*

o medo e as pressões glaciares

que fecham de súbito a existência

no escuro dos pesadelos polares;

*

o movimento e a expansão

que erram caóticos na cósmica energia

e em cuja órbita vagueia a dor e a alegria;

*

É sopro e distância, ser e transbordância

desejo de querer mais até à última distância;

energia e expansão,

vontade e libertação

saudade, nostalgia e realização;

Movimento e espontaneidade

ponte para a eternidade

e no caminho que é a aventura

a poesia como canto à imortalidade!...


Luís Lourenço

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

INTERLÚDIO ERÓTICO

O MODELO_TAMARA DE LEMPICKA
[dedicado à mulher: eternaapaixonada]

*

a tua paixão é volúpia

e na minha vida é prazer

adoro misturar os frutos

até a sua polpa expremer;


*

os véus do teu erotismo

são rouxinóis sensuais

adoro brincar com os véus

e brindar aos acordes finais...

*

Luís Lourenço

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O HOMEM INVISÍVEL

O HOMEM INVISÍVEL_SALVADOR DALÍ
Somos o mar e a corrente,
A plantação e a semente,
O ar e a liberdade premente
o fogo do amor puro, inocente;
*
Somos o labirinto trágico,
E a medida do conflito,
onde balança no Universo,
Tudo o que é belo e perverso!
*
Somos o navio e os faróis,
As vagas e a aventura,
A lentidão dos caracóis,
E a leveza das gaivotas!
*
Somos os acordes e os ouvidos,
A música e os gemidos,
O eco dos mundos perdidos
Na noite abissal dos conflitos!
*
Somos a liberdade incarnada,
A vida nos riscos do nada,
a aventura que é vertigem
na colina e na mirada!
*
Somos o tudo e o nada,
A vida no sim celebrada
E a afirmação renegada
da liberdade sagrada;
Somos o silêncio profundo
E a palavra metáfora sibilina,
O paraíso dos sons,
E esta música abismada,
Na mais perfeita surdina!...

Luís Lourenço

sábado, 27 de setembro de 2008

O JOGO LÚGUBRE

O JOGO LÚGUBRE_SALVADOR DALÍ

Marionetas inquietas e até invisíveis

no caos do Universo estranho e secreto.

Baile trágico de máscaras sublimes

e comediantes que dançam à cabra cega!

*

Queremos ser a liberdade no Mundo,

E em cada encosta terrestre

o sonho de uma morada afirmada,

*

Mas sobra ainda quanta escravidão?

Que congela na aranha que nos aperta

e no deserto que avança e que nos cerca!

*

Dados inocentes jogados

sobre o cenário da vida

procuram plantações férteis,

Mas rolam farsantes

nesta aventura incerta! ...

Luís Lourenço

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA_SALVADOR DALÍ

É a reflexão e o preço do conhecimento

que quebram na estupidez a ignorância

e a ausência do pensamento;

*

a acção e a luta contra a doença

que as luzes da razão proporcionam à ciência

para elevar a saúde à sua plena existência;

*

o desejo sem fim e o sonho da perfeição

que irradiam do núcleo do mito para o fazer

florescer e brilhar até à grande ilusão;

*

a visão sensível e o cósmico radar

que se libertam entre o pensamento e a realidade

até chegar ao cume de uma incontornável verdade;

*

o olhar inquieto e o impulso da criação

que imperam como pássaros longínquos

no cume do ser e da veneração;

*

a nobre causa e a terrível missão

que quebram na vontade as máscaras da ilusão

até bater nela ardente e feliz o coração;

*

a chama do fogo e a roda da invenção

que gravam na cultura da memória

os tesouros e os desvarios da civilização;

*

É vida e instinto, celebração e vontade,

poderes telúricos nos cumes da verdade,

e só fantasias dos caprichos da liberdade

às voltas no carrocel da vaidade

e para o Mundo mais dor do que felicidade;

É a pergunta subtil e certeira: ser ou não ser,

a vertigem do homem face à realidade

que o engloba e interpela

sem jamais poder sair dela!...

Luís Lourenço



terça-feira, 23 de setembro de 2008

AS FLORES DO MAL

AS FLORES DO MAL_RENÉ MAGRITTE
É o apelo da vida à cultura
onde o fluxo criador tanto pode murchar
como renascer e brilhar;
*
o fluido e a seiva criadora
onde se celebram no auge
tempos intensos e uma nova aurora;
*
o declínio e a decadência
onde a vida e a cultura
se esgotam numa pobre doença;
*
o grito e o sono da morte
de Deus do homem e da sorte
quando a vida erra sem arte e sem norte;
*
a luta e o vazio no ser
onde a vida tanto se pode perder
como em novas paixões se acender;
*
o fogo e a chama do viver
onde é impossível deixar de ser
e se prefere o nada ao nada querer;
*
o sonho colectivo e a imaginação
onde a vida e a cultura se fundem
no triunfo de uma fresca inspiração;
*
É vida e cultura, impulso e seiva criadora,
saúde e doença, declínio e aurora,
morte de Deus, da sorte, e do eu;
Vitória sobre si e um novo horizonte,
luta e vazio, paixões novas e os riscos
do nada e até de se perder;
chama colectiva no fogo do viver,
união frágil da vida e da sabedoria
na eterna aspiração da filosofia!...
Luís Lourenço

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O AMOR

RETRATO DA SENHORA M_TAMARA DE LEMPICKA
A sensualidade feminina ornamenta-se com vários disfarces: o idealismo platónico, tão caro à juventude, que gera a miragem da bem-amada como sendo um caso à parte; uma incrustação, uma elevação, uma transfiguração aureolada de infinito; a religião do amor em que participam "um belo moço e uma bela rapariga"-é, de certo modo, divinizada num noivado da alma; a arte--com todo o prazer ornamental com que presenteia a mulher; o que leva o homem a ver nela todas as perfeições, e a sensibilidade do artista concentra no objecto amado tudo quanto idealiza.
Consciente desses sentimentos do homem, a mulher esforça-se por ir ao encontro da idealização que a cerca; enfeita-se, cuida da aparência, do modo como dança, do modo como há-de exprimir o que pensa em termos delicados; é ainda em função disso que mantém o pudor, o recato, a distância, porquanto sabe, instintivamente, que assim estimula a faculdade de idealização do homem.
A causa da extraordinária acuidade dos instintos femininos, como o pudor, não provém, de modo algum, de uma hipocrisia consciente: a mulher adivinha que é precisamente o pudor real e ingénuo aquilo que mais seduz o homem e o leva a sobrestimá-la. Por isso, é ingénua: por astúcia instintiva, a qual lhe sugere a utilidade da inocência. Ela fecha voluntariamente os olhos, de tal modo que, nos casos em que a dissimulação aumenta inconscientemente, esta acaba por tornar-se mesmo inconsciente

"Nietzsche, Vontade de Poder II

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PERSONALIDADE E AUTO-ESTIMA

A MEMÓRIA _RENÉ MAGRITTE
MODOS DE CONSTRUIR UMA PERSONALIDADE, ou os oito problemas principais:
Queremos simplificar-nos , ou diversificar-nos?
Queremos ser mais felizes, ou mais indiferentes à infelicidade e à desgraça?
Queremos ficar mais satisfeitos connosco, ou mais exigentes e mais impiedosos?
Queremos tornar-nos mais amigáveis, mais indulgentes, mais humanos, ou mais desumanos?
Queremos ser mais prudentes ou mais impulsivos?
Queremos atingir um fim, ou evitar todos os fins-como, por exemplo, faz o filósofo para o qual toda a espécie de fins tresanda, despropositadamente, a limites impostos, mesquinhez, prisão, toleima?
Queremos ser mais respeitados e mais importantes, ou mais desconsiderados?
Queremos tornar-nos tiranos ou impostores? Pastores ou carneiros?

Nietzsche, Vontade de Poder II

domingo, 14 de setembro de 2008

PSICOLOGIA DA NATUREZA HUMANA?

O JOGADOR SECRETO_RENÉ MAGRITTE

Nós só sentimos agrado para com os semelhantes-ou seja, pelas imagens de nós próprios-quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.

Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.

Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.

Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então recebemos uma grande alegria: afinal estamos na mesma situação.

E tal como nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.

Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.

Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efecivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que "no fundo, são uns pobres homens"

Nietzsche, Vontade de Poder II

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

NATUREZA HUMANA

O JÓQUEI PERDIDO_RENÉ MAGRITTE, 1926Este quadro é considerado a primeira obra "surrealista" do pintor

OBEDECER AOS PRÓPRIOS SENTIMENTOS? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso, ou a um impulso de momento, isso não caracteriza um homem; todos são capazes de fazê-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corsário, superam um homem honesto.
O grau de superioridade é vencer em si tal elã e realizar o acto heróico, não por impulso, mas friamente, ponderadamente, sem a expansão do prazer que o acompanha; outro tanto acontece com a piedade: ela há-de ser habitualmente filtrada pela razão, caso contrário, é tão perigosa como qualquer outra emoção. A docilidade cega perante uma emoção-tanto importa que seja generosa ou perigosa como odiosa-é causa dos piores males.
A grandeza de carácter não consiste em não experimentar emoções; pelo contrário, estas são para experimentar no mais elevado grau; a questão é controlá-las, e ainda assim, havendo prazer em modelá-las, em função de algo mais.

Nietzsche, Vontade de Poder vol. II-Res- Editora

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

AFORISMOS DE NIETZSCHE

O LIBERTADOR_RENÉ MAGRITTE, 1947
*

"Escala métrica para todos os dias.-Raramente nos enganaremos se reportarmos as nossas acções extremas à vaidade, as medíocres ao hábito e as mesquinhas ao medo" ;
*
"Subtileza da vergonha.-Os homens têm vergonha não por terem pensamentos vis, mas por imaginarem que os julgam capazes destes pensamentos reles";

*
"Sinal de incompatibilidade.-O índice mais forte de incompatibilidade entre duas pessoas é quando ambas falam reciprocamente com um grãozinho de ironia mas nem uma nem outra sentem esta ironia.";
*
"Ofender e ser ofendido-É mais agradável ofender e pedir perdão em seguida do que ser ser ofendido e ter de perdoar depois. O primeiro deixa uma marca de poder e a seguir de bondade de carácter; o segundo que não quer passar por inumano sente-se obrigado a perdoar; o gozo [reles] de humilhar o outro não tem contrapartida nesta obrigação";


Nietzsche, Humano Demasiado Humano

terça-feira, 9 de setembro de 2008

OLHAR DE LINCE?

O IMPÉRIO DAS LUZES_RENÉ MAGRITTE
***
O narrador -Quem conta uma história deixa facilmente transparecer se a conta porque a acha mesmo interessante ou porque quer ser interessante. No último caso, tende a exagerar, a usar superlativos e outros expedientes similares. Assim sendo, conta-a mal porque sonha menos com a história do que com ele próprio";
***

"O declamador.-O que declama em voz alta poemas dramáticos faz descobertas curiosas sobre o seu carácter: encontra em certas cenas e situações a sua voz mais natural do que noutras, por exemplo, no que é patético e cómico, enquanto na vida comum não teria essa ocasião para a paixão e para a comédia" ;

***
Os Complacentes.-As naturezas complacentes, prontas a todo o instante para socorrer o infortúnio alheio, raramente são fertilizantes : pois perante a felicidade do outro já não têm que fazer, sentem-se supérfluas, deixam de sentir superioridade e facilmente ostentam despeito"

Nietzsche, Humano, Demasiado Humano

domingo, 7 de setembro de 2008

NÃO ME PEÇA DEFINIÇÂO

PLANTA TAILANDESA ...oferecida por Mariz ://www.soupoeluz.blogspot.com


Não me peça definição
se branco ou preto
que eu fico com o arco-iris
se quero ou não
que eu venho com um talvez
*
Minha única certeza
é que tenho dúvidas às dúzias
dos tempos prefiro o indefinido
e dos pontos o de interrogação.
*
Você dirá que sou do contra
e faço tudo de pirraça...
Posso até concordar
de tanto que detesto
discussão e bate-boca
*
Nosso caminho está cheio de escolhas, é certo
e quem for esperto logo acha a saída do labirinto
mas como em outra encarnação
devo ter sido um monge tibetano
não acredito muito em livre-arbítrio
e na capacidade de mudar o mundo
*
Quantas vezes não desviaram o curso dos rios
e veja só o desastre ecológico que deu...
*
No auge da confusão
fico esperando que os rolos mais cabeludos
se resolvam por si
*
obedecendo a não sei que lei
-provavelmente à do acaso, do caos
ou então à anti-lei de Murphy
Em matéria de esperar
como mulher nasci esperando
e se o sinónimo de paciência é Jó
aposto que houve alguma Jóana
que ganhava dele de longe mas
nem a Bíblia nem os historiadores registaram
Que lapso!
*
Estou vendo o dia
em que acabarei como vovó
na cadeira de balanço
enrolada num xale
olhando tranquila a bagunça em volta
como quem nada quer
esperando mais uns séculos
pelo dia em que um homem
-enfim-entenda uma mulher!

POEMA DE RENATA P.M. CORDEIRO

sábado, 6 de setembro de 2008

MULHER

VÉNUS VENCE MARTE_SANDRO BOTTICELLI

Mulher, és lírio do campo;

és ave linda, no céu!

Deus te criou, inspirado,

para o mais lindo papel:

teus perfumes, tantas cores

tu`alma doce, teu véu

de amores tantos, tamanhos,

das paixões, um carrocel;

*

És, mulher, tanta beleza,


és quem traz as novas vidas;


tu és, mulher, natureza,


em emocões coloridas.


És ombro amigo e sincero,


és, do meu leito, o dossel


o fruto que eu amo e quero


és minh`agua, meu farnel

*

Mas és, mulher, muito mais:

espírito sublimado,

coração que se desdobra,

a mãe que ama e não cobra,


a irmã que está do meu lado;


do porto seguro, és cais


alfama da marujada,


a lua, na madrugada.

*

És o bem que Deus criou:


o ventre da natureza ,


a sintaxe da beleza,


a semântica da dor.


Porém, O Pai te outorgou


maturidade e ternura:


és a dádiva mais pura


que Deus ao mundo legou.


POEMA DE JOÃO DA SILVA

em http://wwwrenatacordeiro.blogspot.com/





quinta-feira, 4 de setembro de 2008

É BEM POSSÍVEL

O ESPELHO FALSO_RENÉ MAGRITTE

É bem possível que só eu exista
Na redoma deste mundo
E o resto seja aparição já vista
Ou má pintura de cenário sem fundo

Assim se explicaria não ter eco
A parede sonora que inventei
Nem me reconhecer no rastro seco
Dos gestos e palavras que amei

Duvido
que me seja evidente o ser que sou
Porém pensar em ti é ter seguro
Outro Universo inteiro onde não estou

POEMA DE JOÃO MARTIM





terça-feira, 2 de setembro de 2008

O MEU RIO

O MEU RIO Foto de Ana Rita Seirôco


No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
A lua mergulhada no silêncio
Na paz desta margem junto ao rio...
O tempo está mais além, além de mim
Perdido nas planícies do Oceano profundo...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar supenso no teu Sorriso...
Na luz que brilha do teu rosto
Deixo-o para que também ele possa sorrir...
Deixo-o porque através do seu Sorriso
Ele consegue ver o mundo inteiro
Encontrar um rumo mesmo tendo perdido o Norte...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
Suspenso na imensidão do meu luar
Suspenso na Eternidade!...

POEMA DE ANA RITA SEIRÔCO