sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O PODER DAS PALAVRAS

PLANTA EXÓTICA DA TAILÂNDIA

***

As palavras sempre ficam. Se me disseres que me amas, acreditarei.

Mas se me escreveres que me amas acreditarei ainda mais.

Se me falares da tua saudade entenderei.

Mas se me escreveres sobre ela, eu a sentirei junto contigo.

Se a tristeza vier até consumir e me contares eu saberei.
Mas se a descreveres no papel, o seu peso será menor.

Lembra-te sempre do poder das palavras.

Quem escreve constrói um castelo, e quem lê passa a habitá-lo.


Silvana Duboc

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O SABOR DAS LÁGRIMAS

O SABOR DAS LÁGRIMAS_RENÉ MAGRITTE
*
Já que me comoves, Universo!
Com a tua imensidão sagrada
e abres para mim uma janela inocente
para olhar na tua realidade velada;

*
E me prenches também, Generoso!
Com os sonhos que em ti deslumbro
nos abismos trágicos do teu mistério
deixando-me escutar a voz dos oráculos
e aprofundar as suas chaves sublimes
no segredo do teu enigma profundo;

*
E me sopras ainda, Guerreiro!
Os acordes sublimes do teu poder
no auge das clareiras e dos gritos
orquestra a espalhar a tua música
sibilina, reconfortante e telúrica
pela noite sombria e sonâmbula
dos naufragos bloqueados e aflitos

*
Ousa conduzir-me então, Palavra!
Ao teu altar sagrado e cifrado
abraça na tua força a leveza dos ousados
e proclama por mim aos destinos elevados
que se o Reino tão nobre e poderoso
continuar cifrado neste silêncio calado
a vida nunca deixará de ser um fardo gelado
e o Mundo um palco sombrio e desgovernado!...


Luís Lourenço

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

QUADRAS POPULARES

JOVEM A EMPOAR-SE_GEORGES SEURAT
[Dedicado à minha mãezinha]

*
Dá-me um beijo moreninha
Darei-te a paga dobrada
Quem pede um beijo dá dois
Não lhe fica a dever nada

Não lhe fica a dever nada
Nada lhe fica a dever
Dá-me um beijo moreninha
Serás minha até morrer

*
Maria da Graça é uma
Cachopa de olhos em brasa
Vive sozinha e não fuma
Mas tem cinzeiros em casa
*
Quem tem janelas de vidro
Não pode atirar pedradas
Eu fui atirar às vossas
E achei as minhas quebradas
Tradição Popular



domingo, 26 de outubro de 2008

VARIAÇÔES EM SOL MAIOR

RAPARIGA COM GUITARRA_TAMARA DE LEMPICKA

* *
És o rio que corre
e eu o barco que navega
És o vento que sopra
e eu o vulcão à espera;

* *
És o sol que me aquece
e eu o luar na madrugada
És a estrela que brilha
e eu os teus gozos acordada;

* *
És os raios de Sol
e eu a tua aventura
Eu a leveza do ar
e tu a gaivota que procura;

* *
És o riso nos meus olhos
e eu a paixão que estremece
Eu a canção que enternece
e tu a explosão que perdura...

* *
És as cerejas nos meus lábios
e eu o rio nos teus desejos
Eu o sabor a morangos
e tu a volúpia dos meus tangos.

Luís Lourenço



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A GRANDE FAMÍLIA

A GRANDE FAMILIA_RENÉ MAGRITTE
*
É a dor e a alegria
que se inquietam
nas vagas da sabedoria;

*
é o sonho e a realidade
que se guerreiam nos vôos
da humanidade;
*
é o amor e a paixão
que se lançam em jogos de sedução
às voltas no coração;

*
é a sorte e o azar
que se aventuram nos labirintos
da vida, do jogo e do altar;

*
é o mar e as espumas
que se atiram fortes ao rochedos
até quebrar;

*
é a acção e a roda do ser
que inventam o futuro e o não-ser
para o forçarem a ser;

*
é a imaginação e as névoas
que se abismam no enigma da inspiração
para o manterem vivo e secreto,
por desvendar;

*
É tudo: vida, paixão, amor e verdade,
dança imortal e mistério,
fonte onde o homem
pode voltar a criar
a festa da sua vida,
e nela voltar a jorrar
livre e feliz a nascente
orgulhosa da sua própria verdade!...


Luís Lourenço

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

RIOS DA ILUSÂO

PRAZER_RENÉ MAGRITTE
[a uma amiga que está muito triste]
*
No teu corpo que não toquei
distante por não poder tocar
correm os rios de espuma
que ainda não se desfizeram no mar;

*
E na tua alma onde não entrei
pela beleza de não querer entrar
bailam jactos de prazeres e risos
que só o tempo vai libertar;

*
Mas na névoa em que os encobres
deixas os nós das estrelas
e os elos enigmáticos de desejos
sob o véu de delícias em noites insones

*

E no rio da ilusão que te devora
como sublime ardente e trágico,
em noite de abruptas desmedidas,
caiem as folhas amarelecidas
e a nostalgia, véu do frenesim solitário,
nas brumas da uma ninfa de Outono,
errante mas sonata na Primavera!...


luís lourenço





domingo, 19 de outubro de 2008

AS FASES DA VIDA

AS FASES DA VIDA_G. DAVID FRIEDRICH
*
É o amor da viagem e o navio
que se desafiam um ao outro
com igual coragem e sangue frio
*
o mar profundo e a longa travessia
onde navegam arrojados timoneiros
faróis na noite e raios de sol no dia;
*
o porto de partida e o porto de chegada
onde cada saída é uma nova partida
e cada partida é uma nova chegada;
*
a expectativa e a ambição
que no navio são o ar e a respiração
e nos criadores o destino da missão;
*
a aventura e a descoberta
que se jogam belas e seguras
mesmo nos portos da hora incerta;
*
a fruição e as formas belas
que sopram durante o percurso
e se renovam em criações serenas;
*
a felicidade do mar e a presença do navio
que mesmo quando se retiram ausentes
voltam a fazer-se sentir presentes;
*
É mar e travessia, viagem e navio,
aventura, descoberta e fruição,
tempo, densidade e desafio;
Ar e respiração, leveza e invenção,
sopro de toda a criação,
vida e refloração;
Nascentes virginais da poesia,
e vôos inocentes da liberdade
na órbita da própria felicidade!...

Luís Lourenço

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

AMAZONA NO BOSQUE

CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
*
É a manhã e a alvorada
que arrancam o ser à inércia
até nascer nele uma nova morada;
*
A noite e as portas do labirinto
que rasgam clareiras ao caos
até brilhar nele o infinito;

*
O meio-dia e o zenite solar
que derramam energia sobre as taças
dos amantes da vida e do criar
*
a meia-noite e os pressentimentos
que festejam a vida aos sons da guitarra
até tudo se afinar em explosão de sentimentos;

*
a chaga infeliz e os desmazelos
em que a vida e a cultura se afundam
até o homem quebrar os medos;

*
a festa e a nascente primordial
onde tudo se canta na músca da vida
como num barco ondulante em alto mar;

*
o instante e a luz do pensamento
onde o ser celebra sem arrependimento
o nascer e o morrer do próprio tempo;

*
É expansão e Universo, verso e reverso
o ser escrito no perfume de um só verso;
O símbolo da vida abundante,
mesmo a perdida e a errante;
Os amantes do ser e do pensar
orgulhosos de ser um para o outro
toda a alegria da incerteza
no jogo do seu próprio caminhar!...


Luís Lourenço

terça-feira, 14 de outubro de 2008

INTERLÚDIO AMOROSO

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA

És o vento que sopra
e eu o barco que navega
És o rio que corre
e eu o pomar à espera;

**
És a estrela que brilha
e eu o luar na madrugada
És o Sol que me aquece
com teus mimos acordada

**
És a leveza do ar
e eu a gaivota que procura
Tu és os raios do Sol
e eu a tua aventura
**
És a festa que perdura
e eu a canção que enternece
Tu o meu riso nos olhos
e eu a ilusão que estremece.

Luís Lourenço



domingo, 12 de outubro de 2008

MISTÉRIO E MAGIA

NO TERRAÇO_PIERRE-AUGUSTE RENOIR
É o mistério e a magia
que a palavra arranca à escuridão
até os trazer à luz do dia;
*
o nascimento e o amor da criança
que trazem ao ventre da mãe a grande dor
e o grito cósmico da esperança;

*
o desejo e a rebeldia
que enchem a vida dos sonhadores
com noites claras e frescos de ousadia;

*
a liberdade e o combate
que deleitam os homens nas colinas do olhar
e nos entregam aos impulsos do amor e da arte;

*
a aventura do ser e o jogo das miragens
que trazem a festa à terra e as ilusões à vida
como às árvores o festejo das folhagens;

*
a eternidade e o êxtase do momento
onde sonham as moradas do mundo
como obras felizes e pérolas do pensamento;

*
É amor, paixão, desafio, alegria, dor e verdade,
névoa e claridade;
O fogo imortal da poesia
onde renasce contraditória e incerta
a vida, essa orgulhosa raínha
Que é o sentido do ser
por amor à sua própria verdade!...


Luís Lourenço

terça-feira, 7 de outubro de 2008

VÉNUS E CUPIDOS

VÉNUS E CUPIDOS_SALVADOR DALÍ
É o ser na aspiração de ser outro
onde afirma o horizonte a fronteira
de querer ser tudo sendo pouco;
*
o ser e a pergunta que o transcende
em busca do que é mas não se surpreende
apesar da chama que nele se acende;
*
o ser e angústia que nele se enquista
como o amor da mulher a quem se ama
mas jamais se conquista;
*
o ser e o cerco do não-ser
onde a violência exercida ao pensar
gera o poderoso impulso de se renovar;
*
o Universo e o jogo do devir
que inocentam o destino trágico dos seres
no fado do voltar a chegar e a partir;
*
o ser e a pergunta pelo sentido
que se abismam no trágico herói
na procura mais valiosa mas que mais dói;
*
É inquietação e sentido
pergunta e aspiração
chama que se acende no ser
que se ama mas não se transcende;
ser na fronteira do não-ser,
limite-expansão e horizonte,
cerco-abertura e ponte;
tragédia valiosa de herói
que cura e liberta
mas vai retornando e dói!...

Luís Lourenço

domingo, 5 de outubro de 2008

INOCÊNCIA E POESIA

CRIANÇA NA PRAIA_P. AUGUSTE RENOIR *

Olhaste musa para as estrelas

com olhinhos de criança a brilhar

e jogaste às entrelinhas com elas

nos seus carrosséis a girar;

*

jogaste toda a ternura

nos seus cantos de embalar

que agora vives no mar alto

sem medo de naufragar;

*

brincaste sol com as crianças

na praia às conchinhas do mar

que agora essas conchinhas

são mil sorrisos a brilhar;

*

Hoje és poesia dessas ilusões ternas

aspergidas no voo das borboletas

e baloiças na felicidade delas

perfumes num cesto de violetas!...


Luís Lourenço

sábado, 4 de outubro de 2008

O REGRESSO DA CHAMA

O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE

É o sopro e a distância

que estão para a chama do ser

como o acto está para a transbordância;

*

a força do ser e a amizade

que na textura do mundo são tão antigas

como a própria eternidade;

*

o cárcer da dor e da tristeza

que se espalham pelo mundo

quando nos seres vagueia a fraqueza;

*

o poder da alegria e da felicidade

cujos eflúvios no mundo jamais se esgotam

mesmo quando deles só resta a saudade;

*

o desejo do mais e a bela espontaneidade

que aspiram em pleno ao triunfo no ser

como as fontes da própria liberdade;

*

o medo e as pressões glaciares

que fecham de súbito a existência

no escuro dos pesadelos polares;

*

o movimento e a expansão

que erram caóticos na cósmica energia

e em cuja órbita vagueia a dor e a alegria;

*

É sopro e distância, ser e transbordância

desejo de querer mais até à última distância;

energia e expansão,

vontade e libertação

saudade, nostalgia e realização;

Movimento e espontaneidade

ponte para a eternidade

e no caminho que é a aventura

a poesia como canto à imortalidade!...


Luís Lourenço

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

INTERLÚDIO ERÓTICO

O MODELO_TAMARA DE LEMPICKA
[dedicado à mulher: eternaapaixonada]

*

a tua paixão é volúpia

e na minha vida é prazer

adoro misturar os frutos

até a sua polpa expremer;


*

os véus do teu erotismo

são rouxinóis sensuais

adoro brincar com os véus

e brindar aos acordes finais...

*

Luís Lourenço