sábado, 12 de abril de 2008

A Critica de Nietzsche à Modernidade?

«Com o ingresso de Nietzsche no discurso da modernidade, a argumentação altera-se pela base.Inicialmente a razão fora concebida como autoconhecimento conciliador, depois como apropriação libertadora e, finalmente, como recordação compensatória, para que pudesse aparecer como equivalente do poder unificador da religião e superar as bipartições da modernidade a partir das suas próprias forças motrizes. Fracassou por três vezes esta tentativa de talhar o conceito de razão à medida do programa de um iluminismo em si mesmo dialéctico. Nesta constelação, Nietzsche só tem uma alternativa: ou submete mais uma vez a razão centrada no sujeito a uma crítica imanente-ou abandona o programa na sua globalidade. Nietzsche opta pela segunda via-renuncia a uma nova revisão do conceito de razão e destitui a dialéctica do iluminismo. A deformação historicista da consciência moderna, a inundação com conteúdos de toda a espécie e o esvaziamento de tudo quanto é essencial são os principais factores que o levam a duvidar que a modernidade possa ainda criar os seus padrões a partir de si própria-« porque nós, os modernos, nada temos que venha de nós mesmos, absolutamente nada» . É certo que Nietzsche aplica mais uma vez a figura de pensamento da dialéctica do iluminismo ao iluminismo historicista, só que agora com o objectivo de fazer rebentar o envólucro da razão da modernidade enquanto tal.

Nietzsche serve-se do escadote da razão histórica para no fim o deitar fora e assentar no mito, enquanto outro da razão: « pois a origem da formação [cultural] histórica-e a contradição, no íntimo totalmente radical, em que ela se encontra com o espírito da época moderna, de uma consciência moderna-esta origem tem, ela própria, de voltar a ser reconhecida historicamente; é a história que tem de resolver o problema da própria história: o saber tem de voltar um aguilhão contra si próprio-este triplo tem é imperativo do espírito da nossa época, caso haja nela verdadeiramente algo que seja novo, potente, original e promessa de vida.» Nietzsche está aqui evidentemente a pensar na sua Origem da Tragédia, um estudo realizado com meios histórico-filosóficos que o reconduz para aquém do mundo alexandrino e para aquém do mundo romano-cristãos, aos primórdios, ao mundo primevo da Grécia antiga onde tudo era grande, natural e humano. Nesta caminhada, os «filhos tardios» da modernidade, com o seu pensamento de antiquário, deverão transformar-se em «filhos precoces» de uma época pós-moderna-um programa que Heidegger retomará no seu Ser e Tempo. Para Nietzsche a situação de partida é clara. Por um lado, o iluminismo hisórico apenas reforça as bipartições que se tornaram palpáveis nas conquistas da modernidade; a razão emergente na forma de uma religião cultural já não ostenta força sintética capaz de renovar o poder unificador da religião tradicional. Por outro lado, a modernidade encontra barrado o caminho de regresso à restauraçãos. As mundividências religioso-metafísicas das civilizações antigas são elas próprias já produto do iluminismo, demasiado racionais, portanto, para conseguir ainda contrapor o que quer que seja ao radicalizado iluminismo da Modernidade.» Habermas, Discurso Filosófico da Modernidade.

2 comentários:

sinhã, a. disse...

É: a modernidade é revivalista.:-)

luis lourenço disse...

Daí fazer falta a força da filosofia vitalista.

bjinho