terça-feira, 25 de março de 2008

O modelo optimista socrático?

«Em face deste pessimismo prático, Sócrates é o arquétipo do optimismo teórico, aquele que, possuido por esta crença na inteligibilidade da natureza das coisas, atribui ao saber e ao conhecimento a força de um remédio universal e vê na ignorância o mal em si. Penetrar nas profundidades e separar o verdadeiro conhecimento da ilusão e do erro era, para o homem socrático, a missão mais nobre, a única missão verdadeiramente humana: de tal modo que, desde Sócrates, este mecanismo dos conceitos, dos juízos e dos raciocínios passou a ser considerado, acima de todas as outras faculdades como a actividade suprema e o dom mais admirável da natureza.Até mesmo as acções morais mais sublimes, os movimentos da piedade, do sacrifício, do heroísmo e essa calma profunda que os Gregos designavam de sofrosine foram deduzidos da dialéctica do saber e considerados como passíveis de ensinamento por Sócrates e por todos os seus herdeiros de pensamento até aos nossos dias. Quem experimentou o prazer do conhecimento socrático e sentiu como este procura abarcar em círculos cada vez mais amplos todo o mundo dos fenómenos, jamais será possuido por um aguilhão tão forte capaz de o incitar a viver, como é este desejo de levar até ao fim esse processo lógico de conquista e de o tecer numa rede intrasponível de malhas muito apertadas. Quem se conservar nesta predisposição não poderá deixar de ver no Sócrates de Platão o mestre que ensina uma forma absolutamente nova da «serenidade grega» e da felicidade da existência que procura revelar-se em actos e que, na maioria das vezes, o consegue, através da acção educativa e da maiêutica que exerce[ com o fim último de produzir o génio] sobre uma elite de jovens e nobres espíritos». Nietzsche, A Origem da Tragédia.

A lógica e a visão trágica?

«É então que a ciência estimulada pelo vigor da sua poderosa ilusão se precipita irresistivelmente para os seus próprios limites, contra os quais se quebra o optmismo que se esconde na essência da lógica. É que o círculo da ciência acarreta para a sua circunferência uma infinidade de pontos e ainda que seja completamente impossível prever como é que todo o círculo poderia ser medido, o homem nobre e dotado intelectualmente, antes de chegar a meio da sua vida, encontra fatalmente estes pontos limites da circunferência onde fica abismado perante o inexplicável. Quando chegado a este ponto limite vê cheio de espanto, que a lógica se enrola nos seus próprios limites, tal como a serpente ao morder a sua própria cauda abre-se então a visão de uma nova forma de conhecimento, o conhecimento trágico, que não pode sequer suportar sem a protecção e o remédio da arte» Nietzsche, A Origem da Tragédia.

domingo, 23 de março de 2008

A plataforma liberal: quarto princípio.

O último grande prinípio constitutivo da plataforma liberal que merece ser mencionado aqui, nomeadamente por constituir um ponto de importante colisão com a discussão republicana, corresponde ao tema actualmente formulado por Rawls da neutralidade do Estado relativamente às convicções e opiniões em matéria de religião e de moral: não recordaremos aqui a análise histórica que propõe Rawls, insistindo na adopção deste princípio na sequência das guerras de religião inglesas, mas poderíamos combinar uma abordagem histórica deste tipo com uma abordagem mais conceptual, relacionando este quarto princípio com as exigências já incluídas no primeiro[ A autonomia da sociedade exclui, por exemplo, uma religião do Estado] e no terceiro[ A valorização das liberdades individuais implica o reconhecimento da liberdade de opinião e de consciência]. Este quarto princípio possui, como é óbvio, uma importância crucial por tudo o que induz, nomeadamente a respeito daquilo que em França se chama a laicidade, sobre a qual nos limitaremos a referir que , conquanto no plano histórico tenha emergido progressiva e tardiamente, a sua perspectiva já estava virtualmente constituída na própria concepção do liberalismo político[ como o testemunha , nomeadamente o famoso escrito de Locke acerca da tolerância, 1689].Outras consequências deste princípio de neutralidade do Estado serão melhor discutidas na releitura republicana, A começar pela separação entre o direito e a moral, sob a forma de convicção liberal segundo a qual não é necessário ser-se moral para se ser um bom cidadão, isto é, para obedecer às leis, mas que o interesse pode contanto que seja bem compreendido, constituir a única mola do Estado de direito: trata-se de um tema muito saliente na tradição liberal, sob a forma de neutralidade axiológica do Estado[ ou nas palavras de Rawls, da sua neutralidade em relação às concepções do Bem, ] da qual se destaca, além disso, muito facilmente, a perspectiva segundo a qual a educação, na óptica liberal, deveria ser, antes de tudo, uma educação da inteligência e não uma educação para a virtude. É justamente por ser neutral que o Estado liberal não pode pedir aos cidadãos que sejam virtuosos ou que dêem provas de uma ou outra qualidade moral associada a uma certa ideia do Bem, mas apenas que obedeçam às leis-o que, como afirmava Kant, até um povo de demónios é capaz de fazer desde que possua alguma inteligência,» História da Filosofia Política, VOl 4, Direcção de Alain Renault

sábado, 22 de março de 2008

A plataforma Liberal: 2º e 3º princípios.

2. O segundo princípio da plataforma liberal pode ser identificado como o da soberania do povo, exercido por intermédio de representantes: O liberalismo político é, nesse sentido, uma figura ou uma versão da democracia, sendo a concepção «democrático-liberal» aquela que R. Aron definia pela ideia de um regime «constitucional-pluralista» no qual a dimensão constitucional remete para a limitação do Estado[pois a constituição agrega a definição dos seus poderes e, portanto, a sua delimitação também] e no qual a dimensão do pluralismo[ A referência á pluralidade dos partidos políticos] corresponde à ideia de democracia representativa[ pois os partidos representam supostamente a diversidade dos grupos sociais e dos interesses]»

3.Um terceiro princípio do ideal-tipo liberal é o da valorização do individuo e das suas liberdades. Trata-se de um princípio que se deduz evidentemente do primeiro, pois a sociedade cuja autonomia em relação ao Estado o liberalismo reconhece define-se como o conjunto dos individuos e dos grupos de individuos e, nesse sentido, reconhecer a limitação do Estado é também reconhecer o indivíduo como princípio e como valor. Portanto, este terceiro princípio foi aquele que fez do liberalismo político um individualismo, e do governo civil ou Estado Liberal um instrumento ao serviço da protecção das liberdades individuais concebidas em termos de independência relativamente a qualquer outra instância à excepção da propria vontade individual: Por outras palavras, o liberalismo priveligia as liberdades individuais entendidas como aquilo que hoje se designa, desde o célebre artigo de Isaiah Berlin e da adopção da sua terminologia pelo republicanismo contemporâneo, por «liberdades negativas»- e, por conseguinte, é lógico que possamos classicamente apresentar a lista dessas liberdades negativas[ por exemplo, nas Declarações dos Direitos do Homem de finais do século XVIII] como constituindo o chamado «credo liberal»[ A propósito disto, convém recordar que os direitos do homem começaram por ser uma peça central da herança e da tradição liberais, antes de, com base numa reeinterpretação, se tornarem, no séx.XIX, um ingrediente da tradição socialista]. História da Filosofia Política, vol 4, Direcção de Alain Renault.

A plataforma liberal:1º princípio

«Ao procurar reunir os elementos que seriam, para os defensores da opção republicana, as peças constitutivas do liberalismo moderno, afigura-se possível conservar, antes de tudo, de uma maneira, por assim dizer ideal-típica, quatro princípios essenciais, correspondendo aos próprios princípios da modernidade, tal com são expressos e defendidos em toda a tradição do liberalismo político, de Locke até Rawls.
1.O princípio de uma limitação do Estado: com efeito, é por surgir como uma teoria dos limites do Estado ou da sua acção[ para retomar o título do grande Ensaio de Wilhelm von Humboldt, publicado em 1792, Ensaio para Definir os limites da Acção do Estado], que o liberalismo político é colocado numa relação de antítese com o absolutismo político. Foi o que aconteceu historicamente, aquando do nascimento inglês do liberalismo, no século XVII, mas também conceptualmente, o que foi compreendido e realçado por um republicano tão convicto como Fichte, no seu Fundamento do Direito Natural[1796], onde reconstituia toda a problemática jurídico-política a partir da antinomia do liberalismo e do absolutismo, sugerindo a sua identificação com os termos do conflito entre Locke e Hobbes[ver vol III, « Rousseau, Kant e Fichte»por Alain Renault e P. Savidan]. É certo que podemos, hoje em dia, discutir esta apresentação, nomeadamente quanto a Hobbes, mas não deixa de ser verdade que foi na sua oposição à teoria do absolutismo que Locke defendeu esse primeiro princípio da plataforma liberal, que consiste em reconhecer o Estado[ o governo civil] como necessário e, portanto ,em limitar a sociedade pelo reconhecimento do Estado[ contra, antecipadamente, qualquer forma de anarquismo, que tendia, pelo contrário, a dissolver o Estado na sociedade], mas, ao mesmo tempo, em limitar o Estado pelo reconhecimento de uma autonomia da sociedade[ em oposição ao absolutismo ou, antecipadamente, ao socialismo de Estado, que diluem ambos a sociedade no Estado»
História da Filosofia Política, vol 4-Direcção de Alain Renault.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A viagem dos signos e dos simulacros.

É a viagem dos signos e dos simulacros

onde os povos e as civilizações se fortalecem

para ultrapassar na vida a resignação dos fracos;

...

a fragrância do mito e a girândola do tempo

onde todo o enredo é berço e dança e mistério

e a vida se engrossa num precioso e inesgotável minério;

...

a força dos gestos e o sonho à imortalidade

onde nas brumas do futuro se consultam os oráculos

e nas raízes se escutam as vozes da ancestralidade;

...

Luís Lourenço, Poética do instante Filosófico.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O poder das associações

Com efeito, a maioria exerce a sua tirania quando impede a localização do poder social. Não há pior opressão do que a opinião difusa e é realmente assim a ditadura da opinião. Vemos por conseguinte, o motivo que acabou por levar Tocqueville a valorizar as associações, pois a ciência política nova a que Tocqueville aspira é, ao fim e ao cabo, a «ciência da associação»: «Nos países democráticos, a ciência da associação é a ciência-mãe; o progresso de todas as outras depende do seu progresso.»

A chave da liberdade política depende, na sua óptica, do espírito de associação e essa convicção possui uma grande coerência na obra de Tocqueville.

À primeira vista, acreditaríamos que decorria apenas do exemplo americano: é verdade que Tocqueville avaliou a saúde da democracia americana pela bitola do apreço pelas associações. Se « os americanos combateram, pela liberdade, o individualismo a que que a igualdade dá origem e venceram afirma ele, é porque souberam alimentar entre eles uma vida política intensa, multiplicando «as ocasiões de actuar em conjunto» e trabalhar desse modo pela prosperidade, ao mesmo tempo que com isso celebravam a sua independência.

Mas fundamentalmente, Tocqueville faz o elogio das associações porque vê nelas o eco contemporâneo da liberdade que existia no Antigo Regime, quando a nobreza, que ainda não tinha sido dizimada pelos reis niveladores exercia um poder autêntico-poder que se interpunha eficazmente entre o súbdito e o soberano[ entre o individuo e o Estado]

A Montequieu causava espanto que a Constituição inglesa tivesse conseguido salvaguardar os nobres como um poder moderador. Em O Antigo Regime e A Revolução Tocqueville lamenta que a França não tenha tido a sabedoria da Inglaterra: «Será de lamentar sempre que essa nobreza, em vez de ter sido submetida ao domínio das leis, tenha sido abatida e desenraizada. Ao agir assim, privou-se a nação da sua substância e infligiu-se à liberdade uma ferida que nunca sarará»

Em Da Democracia na América, Tocqueville não admite um tal saudosimo pois que declara encontrar o equivalente da liberdade aristocrática na lberdade expressa em democracia pelas associações civis ou políticas São as associações que, nos povos democráticos, devem fazer as vezes dos particulares poderosos que a igualdade das condições fez desaparecer»

Verdadeiros poderes intermédios na acepção que Montesquieu atribuia à expressão, as associações resumem o combate de Tocqueville pela liberdade política: constituem o antídoto contra o individualismo, ao corrigirem a fraqueza e ao abalarem a apatia do cidadão atomizado, educam para a vida pública e proporcionarem oportunidades de articular o interesse público e o interesse privado, como Tocqueville sublinha. História da Filosofia Política, vol 4-Direcção de Alain Renault.

terça-feira, 18 de março de 2008

Tocqueville e a democracia na América.

Embora defenda a auto-responsabilização da sociedade, já vimos como desconfia do poder da maioria. Aplicada absolutamente, a liberdade política produz efeitos perversos que Tocqueville agrupa sob a expressão «tirania da maioria». Por esta razão, a actualidade de Tocqueville é inegável. Em 1835, os Estados Unidos já lhe mostraram «O espectáculo dessa tirania» e sugeriram as soluções susceptíveis de salvar a própria liberdade política: ele viu, como na América, que não soube imitar a Constituição inglesa [causava admiração a Montesquieu que ela tivesse sido concebida para garantir as liberdades políticas], a maioria inverteu o poder legislativo ao ponto de sufocar o poder executivo. Tocqueville compreendeu como essa maioria impõe a sua lei aos deputados ao ponto de destruir todas as garantias do governo representativo e de exercer o equivalente de uma democracia directa. Compreendeu também o risco que constituia o preconceito segundo o qual, como todas as inteliências são iguais, existe forçosamente mais sabedoria em muitas que numa só. A América que percorre em 1830 devolve-lhe a imagem de um regime onde a maioria pode, com toda a legitimidade, forçar a minoria e impor um conformismo, uma demagogia ruinosa para a independência de espírito e a discussão pública,

É nesta perspectiva que enuncia o risco mais importante que a América corre: ao forçar as minorias oprimidas[pensa evidentemente nos Negros] a recorrerem à violência deseperada, a maioria expõe a democracia à anarquia.

Contudo, não deixa de ser verdade que os Estados Unidos souberam erguer protecções contra esta tirania da maioria, e essa protecções constituem aos olhos de Tocqueville, os ingredientes necessários de um bom uso da liberdade política. Trata-se por um lado, de disposições que impedem a centralização administrativa: se a maioria governa a nível central, é incapaz de aplicar no pormenor as suas instruções de governo, pelo que permanecem espaços de liberdade onde podem desenvolver-se iniciativas locais. Trata-se, por outro lado, do espírito de jurista muito desenvolvido entre os americanos, espírito esse que é acompanhado por um gosto pelas formas e procedimentos que se opõem aos excessos revolucionários ou à arbitrariedade das maiorias. História da filosofia Política, 4-Direcção de Alain Renault.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A liberdade dos Antigos e a liberdade dos Modernos?

O trajecto da perfectibilidade humana pode interpretar-se, então, como o do progresso da igualdade, embora se caracterize também pela oposição de duas concepções de liberdade. Na célebre conferência Da liberdade dos Antigos comparada com a dos Modernos, Constant esforça-se mais por comparar os dois ideais-tipo sucessivos do que por descrever pormenorizadamente a evolução.
A liberdade dos Antigos caracteriza-se simultaneamente pela participação dos cidadãos nos assuntos públicos e por uma total sujeição do individuo à totalidade social[holismo]. Promoção da individualidade política, nega, em contrapartia, qualquer existência à individualidade privada: O individuo só existe enquanto cidadão.
Pelo contrário, a liberdade dos Modernos baseia-se num individualismo de princípios, ou seja, na ideia de que o individuo vale mais do que a totalidade. Dado que o indivíduo preexiste[ontologicamente] à sociedade, é forçoso reconhecer que a sua vida não poderia reduzir-se à vida comum; é forçoso, então reconhecer uma inevitável separação entre a esfera da vida política e a da vida social[individual]. Esta separação não pode ser absoluta, sem o que se correria o risco de condenar a própria vida social; torna-se então indispensável uma representação[sob qualquer forma], isto é, a manuenção de um elo entre o privado e o público. Por conseguinte, é por não ser apenas um cidadão que o individuo moderno tem necessidade de ser representado.
Assim, a liberdade dos Modernos « é, Para cada um, o direito de estar submetido apenas às leis, de não poder ser preso nem detido, nem morto, nem maltratado de alguma maneira pela vontade arbitrária de um ou de vários indivíduos. É, para cada um, o direito de expressar a sua opinião, de escolher a sua ocupação e de a exercer; de dispor da sua propriedade, e até de a usar mal, de ir e vir sem ter que obter permissão para isso e sem dar conta dos seus motivos ou diligências. É, para cada um, o direito de se associar a outros indivíduos, quer para conferenciar sobre os seus interesses, quer para professar o culto que ele e os seus associados preferem, quer simplesmente para preencher os dias e as horas de maneira mais conforme com as suas inclinações e fantasias. Finalmente, é, para cada um, o direito de influir na administração do governo, quer por meio da nomeação de todos ou de certos funcionários, quer por representações, petições, pedidos que a autoridade está mais ou menos obrigada a ter em consideração.
Qualquer destes dois modelos de liberdade[holista-participativo e individualista-representativo] comporta um risco: para os Antigos, o risco de assistir à aniquiliação da independência privada por via do exercicio do poder e, para os Modernos, «o perigo de renúncia ao direito de partilha do poder político» devido à preocupação exclusiva com os assuntos e interesses privados. Em resumo, o que os Modernos ganham em individualização correm o risco de perder em participação » H. Filosofia Política, volume 4 , Direcção de A .Renault.

domingo, 16 de março de 2008

Utilitarismo:mérito e limites?

O mérito da visão clássica, na formulação de Edgeworth, Benthham e sigdwick, está em reconhecer claramente o que está em jogo, isto é, a prioridade relativa dos princípios da justiça e dos direitos deles derivados. O problema está em se saber se as desvantagens impostas a alguns podem ser compensadas pela maior soma de felicidade gozada por outros ou se a justiça exige igual liberdade para todos e admite apenas as desigualdades económicas e sociais que são do interesse de cada um. Implícita na contraposição entre o utilitarismo clássico e a teoria da justiça como equidade está uma diferença na concepção subjacente de sociedade. Num caso, concebemos a sociedade bem ordenada como uma estrutura de cooperação que visa obter vantagens recíprocas, regulada por princípios que são escolhidos por sujeitos colocados numa siuação inicial que obedece às regras da equidade; no outro, A sociedade é vista como a administração eficiente de recursos sociais, que se destina a maximizar a satisfação do sistema de desejos construído por um espectador imparcial a partir de múltiplos sistemas individuais, aceites como dados. A comparação com o utlitarismo clássico, na sua derivação mais natural, põe em relevo esta contraposição» John Rawls, Uma Teoria da Justiça.

sábado, 15 de março de 2008

O drama do Mundo na essência da música.

É o drama do Mundo na essência da música
onde o coração humano se irriga no coração do Mundo
com o sublime véu que mais protege no abismo profundo;
...
a alegria e os picos da felicidade
que voam na arte como uma inspiração divina
e banham a vida numa das suas fontes mais querida;
...
a força universal da dor e da alegria
que na vida e na arte aspiram à sintonia
e invertem o ingénuo saber em cósmica sabedoria;
...
o voo da vida na substância da arte
onde o amor à liberdade e à eterna justiça
sopram ao homem o seu mais nobre combate;
....
Luís Lourenço, Poética do instante filosófico.

A teoria da Justiça como equidade.

«Por seu lado, na teoria da justiça como equidade, as partes aceitam antecipadamente um princípio de igual liberdade, e fazem-no sem ter conhecimento dos seus objectivos particulares. Concordam implicitamente, portanto, em conformar a sua concepção sobre o seu próprio bem às exigências dos princípios da justiça ou, pelo menos, a não fazerem exigências que os violem directamente. Aquele que descobre que gosta de ver os outros em situação de menor liberdade compreende que não pode ter qualquer pretensão à realização do seu prazer. O prazer que retira das privações alheias é, em si mesmo, errado: a sua satisfação viola um princípio ao qual daria o seu acordo na situação original. Os princípios do justo e, portanto, também os da justiça, limitam os desejos cuja satisfação pode ter valor; impõem restrições quanto ao que possam ser as concepções razoáveis do bem de cada um. Ao traçar os seus planos de vida, e ao decidir sobre as suas aspirações, os sujeitos levam em conta estas limitações. Deste modo, na teoria da justiça como equidade não se tomam as propensões e inclinações dos homens, sejam elas quais forem, como um dado, para depois buscar a melhor forma de as satisfazer. Pelo contrário, os seus desejos e aspirações são limitados desde o início pelos princípios da justiça, os quais especificam os limites a respeitar pelos sistemas de objectivos de cada um. Podemos expressar este facto afirmando que na teoria da justiça como equidade o conceito de justo é anterior ao conceito de bem. Um sistema social justo define os limites dentro dos quais os sujeitos devem desenvolver os seus objectivos e fornece uma estrutura de direitos e oportunidades, bem como o conjunto dos meios de satisfação pelo uso dos quais tais objectivos podem ser equitativamente prosseguidos. A prioridade da justiça é reconhecida, em parte, através da afirmação de que os interesses que obrigam à violação da justiça são destituidos de valor.Não possuindo qualquer mérito, as exigências respectivas não podem ser impostas.» John Rawls, Uma Teoria da Justiça.

sexta-feira, 14 de março de 2008

As éticas teleológicas, para J.Rawls.

«É essencial não esquecer que, numa teoria teleológica, O conceito de bem é determinado independentemente do conceito de justo. Isto tem duas consequências. Em primeiro lugar, estas teorias consideram que os nossos juízos sobre aquilo que consideramos bem[os nossos juizos de valor] são uma classe especial de juízos que o senso comum pode intuitivamente distinguir e, em consequência, propõem a hipótese de que o justo consiste em maximizar bem anteriormente determinado. Em segundo lugar, a teoria permite apreciar do bem de algo sem referência ao conceito de justo. Por exemplo, se se considera que o prazer é o único bem, podemos presumir que os diversos prazeres podem ser reconhecidos e hierarquizados mediante critérios que não pressupõem qualquer padrão de justo, ou daquilo que normalmente pensamos ser justo. Mas se por outro lado, a distribuição de bens for considerada como um bem, por hipótese de nível superior, e a teoria nos orientar para a aobtenção do maior bem possível[onde se inclui, entre outros o bem que consiste na distribuição] deixamos de ter uma teoria teleológica no sentido clássico. O problema da distribuição está abrangido no conceito intuitivo de justo pelo que a esta teoria faltaria uma definição independente de bem. A claridade e a simplicidade das teorias teleológicas tradicionais deriva em boa medida do facto de elas dividirem os nossos juízos morais em duas classes, uma das quais é caracterizada em separado, sendo depois a outra ligada à primeira mediante um princípio de maximização.
As doutrinas teleológicas diferem claramente de acordo com a forma como a concepção do bem é especificada. Se ela for vista como a realização daquilo que no homem é excelente através das várias formas de cultura, teremos o que se pode chamar perfecionismo. Esta noção encontra-se em Aristóteles e em Nietzsche entre outros. Se o bem for definido como prazer temos o hedonismo; se for como felicidade temos o eudaimonismo, e assim sucessivamente. Na minha interpretação o princípio da utilidade na sua forma clássica define o bem como satisfação do desejo , ou talvez melhor como a satisfação do desejo racional. Isto está de acordo com os pontos essenciais da teoria fornece dela, creio, uma interpretação correcta. Os termos adequados para a cooperação fixados por aquilo que, nas circunstâncias concretas, permita obter a maior soma de satisfações dos desejos racionais dos sujeitos. É impossível negar o carácter imediatamente plausível e atraente desta concepção.» John Rawls, Uma Teoria da Justiça.

quinta-feira, 13 de março de 2008

O dever em abstracto: para quê?

«A virtude, o dever, o bem em si, o bem com carácter de impessoalidade e de validade universal,
são quimeras em que se expressa a decadência, o último esgotamento da vida, a charlatanice de
nisberg. As mais profundas leis da conservação e do crescimento ordenam o contrário: isto é
que cada um encontre o seu imperativo categórico. Um povo perece quando confunde os seus
deveres com o conceito de dever em geral. Nada arruina mais profunda e intimamnte que aquele
dever impessoal, aquele sacrifício perante o Maloch da abstracçãNietzsche, Anticristo.

A ética de John Rawls como deontologia.

A última distinção reside no facto de o utilitarismo ser uma teoria teleológica, enquanto a justiça como equidade não o é. Por definição, portanto, esta é uma teoria deontológica, o que significa que ou não especifica o conceito de bem independentemente do de justo ou que não interpreta o conceito de justo como maximização do de bem.[Deve notar-se que as teorias deontológicas são definidas por exclusão face às teleológicas, e não como visões que caracterizam a justeza das instituições e dos actos independentemente das suas consequências. Todas as doutrinas éticas dignas de atenção tomam as consequências dos actos e instituições em linha de conta na avaliação do que é justo. Uma teoria que o não fizesse seria simplesmente irracional e disparatada ]. A teoria da justiça como equidade é uma teoria deontológica do segundo tipo. Do facto de se partir da ideia de que as partes na posição original devem escolher um princípio de igual liberdade e de que as desigualdades económicas e sociais são limitadas às que sejam no interesse de todos não decorre que as instituições maximizem o bem.[Aqui admito, juntamente com os utilitaristas que o bem é definido como a satisfação de um desejo racional.] É evidente que não é impossível que a resultante seja o maior bem possível, mas tal será uma coincidência. O problema da obtenção do melhor resultado líquido de satisfação nunca ocorre na teoria da justiça como equidade; O princípio da maximização não é utilizado. John Rawls, Uma Teoria da Justiça.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A justiça como equidade

«É razoável pensar que as partes na posição original são iguais. Isto é, todos gozam dos mesmos direitos no processo para a escolha dos princípios; todos podem apresentar propostas, submeter argumentos em seu favor, e assim por diante. É óbvio que o objectivo destas condições é representar a igualdade entre os seres humanos enquanto sujeitos morais, enquanto criaturas com uma concepção do seu próprio bem e capazes do sentido da justiça. A base da igualdade é constituída pela similitude entre a situação dos sujeitos quanto a este duplo aspecto. Os sistemas de objectivos não são ordenados segundo o seu valor e presume-se que todos os sujeitos têm a capacidade para agir de acordo com os princípios adoptados, quaisquer que eles sejam. Juntamente com o véu da ignorância, estas condições definem os princípios da justiça como aqueles aos quais sujeitos racionais, interessados em melhorar a sua situação e decidindo em posição de igualdade, sabendo que nenhum deles está benificiado ou prejudicado por contingências sociais ou naturais, dariam o seu consentimento» John Rawls, Uma Teoria da Justiça.

terça-feira, 11 de março de 2008

O efémero como presença criadora!

A virtude que transborda, isto é, não o desejo sempre insatisfeito e carente, incapaz de gozar e conservar nada do que conquista, com os olhos sempre cravados no prato do vizinho, incapaz de fazer frutificar, de saborear: esta é forma total de possuir algo sem conta nem medida; não isto, mas o poder do artista, do criador, do aventureiro, do amante, o poder que tudo transborda sem nada perder, o poder que está coeso consigo próprio, e que portanto desconhece o medo de se gastar e da insuficiência, a ambição e o cálculo: o poder é o que faz germinar, o que cria, o que conquista e que dá sem cessar e sem se diminuir..»Nietzsche, Vontade de Poder.

segunda-feira, 10 de março de 2008

O binómio:estado/sociedade.

  • A ideia moderna de democracia, por mais evidente que nos possa parecer hoje em dia, permanece complexa, atravessada como está por profundos equívocos, que determinam o alcance propriamente político de uma referência a esta ideia.
  • No entanto, nada nos força a ver nesses equívocos, necessariamente, uma fraqueza da ideia democrática:pelo contrário, se se souber captá-los, talvez a reflexão possa transformar essa tensão numa oportunidade suplementar para os ideais democráticos.--no sentido em que a noção moderna de democracia, por conter intrinsecamente em si a possibilidade de vários modelos políticos, pode e deve permanecer um polo de debates fecundos e, portanto, uma ideia viva.
  • A fim de dar uma real consistência a esta perspectiva e mostrar como pode ela alimentar a filosofia política contemporânea, não é inútil regressar ao episódio que desempenhou, sem dúvida, o papel de charneira nas transformações da razão política moderna, isto é, a origem e a evolução do par Estado/sociedade.
  • Não é difícil perceber até que ponto este par de conceitos é intimamente solidário da definição do ideal democrático.Com efeito, é claro que--supondo-se que este par tenha sido produzido sob a forma de uma distinção entre a sociedade, como conjunto de interesses particulares, e o Estado como instrumento ou garante da sua coesão--a maneira como serão concebidas as relações entre os dois termos determinará dispositivos políticos completamente diferentes: num dos extremos, a redução da sociedade ao Estado fundará filosoficamente o projecto de um socialismo de Estado, ou mesmo totalitário, no interior do qual o Estado se tornaria a instância que pretenderia organizar, controlar e, em definitivo absorver a sociedade; no outro extremo, a redução do Estado à sociedade funda , sempre ao nível dos princípios filosóficos, o projecto anarquista de uma supressão total do Estado em proveito de uma socidade supostamente harmoniosa por si mesma।
  • De certa maneira a ideia democrática descobre a sua consistência, se é que descobre, na determinação de um meio-termo entre estes extremos e, portanto, na concepção de uma irredutibildade recíproca dos dois termos: nem a dissolução anarquista do Estado na sociedade, nem a absorção totalitária do Estado na sociedade, mas a fórmula de uma autonomia da sociedade em relação ao Estado, que corresponde no próprio princípio, ao reconhecimento de semelhante irredutibilidade. H. da filosofia Política, 4, Direcção de A. Renault

sexta-feira, 7 de março de 2008

Percursos da liberdade

Esta definição de liberdade política como potencial libertação face à política não nos foi incutida só pelas experiências porque aparentemente passamos; ela desempenhou também um grande papel na história da teoria política. Sem ir mais atrás, basta-nos pensar nos pensadores políticos dos séculos XVII e XVIII que, frequentes vezes, identificaram simplesmente a liberdade política com a segurança. Para estes, o mais alto propósito da política « a finalidade do governo» era garantir a segurança; e a segurança, por sua vez, tornava possível a liberdade, e a palavra «liberdade» designava a quintessência de um leque de actividades que ocorriam fora da esfera política. Mesmo Montesquieu, embora tivesse uma concepção da política, não apenas diferente, mas mais elevada do que a de Hobbes ou de Espinosa, chegava, por vezes, a identificar a lberdade política com a segurança. A ascensão das ciências políticas e sociais nos séculos XIX e XX alargou ainda mais o fosso entre a liberdade e a política: pois o governo, que desde o início da Idade Moderna havia sido identificado com o domínio total do político, era agora considerado como o protector não propriamente da liberdade mas do processo vital, dos interesses da sociedade e dos seus sindivíduos. A segurança continuava a ser o critério decisivo, não a segurança do indivíduo contra a «morte violenta» como em Hobbes [para quem a condição de toda a liberdade consistia em estar livre do medo], mas uma segurança que devia assegurar que o processo vital da sociedade como um todo se desenvolvesse sem perturbaçõs. Este processo vital não é limitado pela liberdade, seguindo ao invés uma necessidade que lhe é imanente; e só se pode chamar livre no sentido em que dizemos de um rio que ele flui livremente. Aqui a liberdade não representa sequer o objectivo não-político da política, mas um fenómeno marginal-que de certo modo marca o limite que o governo não pode ultrapassar a menos que estejam em causa a própria vida e os seus interesses e necessidades imediatas.

Assim, para além de nós, que temos motivos próprios para desconfiar da política no que respeita à liberdade, também toda a Idade Moderna divorciou a política da liberdade. Eu podia até recuar mais ainda no passado e evocar velhas memórias e tradições. O secular conceito de liberdade anterior à Idade Moderna insistia em separar a liberdade dos súbditos de qualquer participação directa na governação; « a liberdade e a libertação» do povo «consiste em ser governado por leis», pelas quais a sua vida e os seus bens possam melhor pertencer-lhe; e não em participar do governo, que é coisa fora da sua competência-como Carlos I resumiu no discurso que pronunciou no patíbulo Não foi por um desejo de liberdade que o povo exigiu ter parte na governação ou ser admitido na esfera política, mas por desconfiança em relação a esses que tinham poder sobre a sua vida e os seus bens. De resto a concepção cristã de liberdade política nasceu da suspeita e da hostilidade dos primeiros cristãos em relação à esfera política enquanto tal e de cujas preocupações desejavam ser isentados a fim de serem livres. E esta libertação cristã em prol da salvação, foi precedida, como já sabemos, da abstenção da política defendida pelos filósofos como pré-requisito de um modo de vida mais livre e mais alto--a vida contemplativa. Hannah Arendt, Entre O Passado e O Futuro.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Relações entre liberdade e política?

É claro que a liberdade não caracteriza todas as formas de relacionamento humano nem todos os tipos de comunidade. Onde os homens vivem em conjunto sem formarem um corpo político-como acontece por exemplo nas sociedades tribais ou na privacidade do lar-os factores que regem a sua acção e a sua conduta são, não a liberdade, mas as necessidades da vida e as preocupações relacionadas com a sua preservação. Além disso, onde o mundo-feito-pelo- homem não se converte em cenário para o discurso e para a acção-como nas comunidades governadas de modo despótico, que expulsam os seus súbditos Para a estreiteza do lar e assim impedem a formação de uma esfera pública politicamente garantida, a liberdade fica sem espaço onde emergir. Claro que pode sempre habitar no coração dos homens como desejo ou vontade ou esperança ou anseio; mas o coração humano, como todos sabemos, é um local bastante escuro, e o que quer que aconteça na sua obscuridade dificilmente pode ser considerado um facto demonstrável. A liberdade enquanto facto demonstrável coincide com a política e as duas estão intimamente relacionadas.

Contudo, e à luz da nossa experiência actual, é precisamente esta coincidência entre política e liberdade que não podemos tomar como garantida.A ascensão do totalitarismo, a sua reivindicação de ter subordinado todas as esferas da vida às exigências da política e a sua permanente insistência em não reconhecer direitos civis, principalmente o direito ao privado e ao alheamento da política leva-nos a pôr em dúvida não só essa coincidência entre política e liberdade, mas até à própria compatibilidade de ambas. Tendo visto como a liberdade desapareceu sempre que as chamadas considerações políticas se impuseram a tudo o resto, nós hoje tendemos a crer que a liberdade começa onde a política acaba. No fim de contas não estará certo aquele credo liberal que afirma«Quanto menos política, mais liberdade?» Não é verdade que quanto menor for o espaço ocupado pela política maior é o campo deixado à liberdade? Pois não teremos nós razão em medir a extensão da liberdade em cada comunidade pelo espaço que esta concede a actividades aparentemente não-políticas, como o livre empreendimento económico, a liberdade religiosa, de ensino, ou no âmbito da actividade intelectual ou cultural? Não será verdade, como todos de algum modo acreditamos, que a política só é compativel com a liberdade porque, e na medida em que, garante a possibilidade de nos libertarmos da política? Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

terça-feira, 4 de março de 2008

Filosofia utilitarista?

O utilitarismo possui duas dimensões essenciais. Em primeiro lugar, O seu critério do bem e do mal, à semelhança do epicurismo, é definido por um valor único, a felicidade ou o bem-estar[welfare] de todos os seres capazes de sentir prazer ou dor. O termo «utilidade» deve, pois, ser consideravelmente alargado a tudo o que proporciona satisfação sem ser necessariamente«utilitário» e perde qualquer conotação de instrumentalidade ou de neutralidade relativamente ao fim visado. O imperativo moral visa a utilidade total, calculada como um saldo líquido das satisfações relativamente às desvantagens, valendo todos o mesmo e sendo tratados de maneira imparcial.

O utilitarismo é, por outro lado, e esse é um aspecto essencial, um consequencialismo que se opõe à intervenção de critérios a priori para julgar a acção. Critica uma moral de tipo deontológico[ a de Kant em particular] na qual princípios morais independentes e a priori, intuitivamente conhecidos, outorgam ao acto o seu carácter moral, sem que entrem em linha de conta as consequências observáveis do acto e a avaliação destas. Mais precisamente é o acto e não a pessoa do agente ou o seu «carácter que é objecto de avaliação moral. Como recorda muito claramente Mill, no capítulo II do Utilitarismo, a própria doutrina de Kant só pode ter sentido, se se examinar não apenas a vontade, «boa» ou não do agente, mas também as consequências da sua acção para a felicidade geral. «Para que O princípio de Kant», escreve Mill, «tenha algum significado, é necessário interpretá-lo como se enunciasse que devemos conformar a nossa conduta com uma regra que todos os seres racionais poderiam adoptar com benefício para o seu interesse colectivo».- H. da Filosofia Política 4- Direcção de A.Renault

segunda-feira, 3 de março de 2008

A voz do coro trágico!

Ó Gentes de Tebas, meus concidadãos, olhai para Édipo,

Ele que com seu génio resolveu os famosos enigmas,

E que ascendeu ao poder, um homem todo-poderoso,

Quem podia contemplar sem invejar sua grandeza?

Vede, agora, em quão negra vaga de horrores ele se afundou.

Pois enquanto aguardamos, vigilantes, o derradeiro dia,

Ninguém é feliz, até que a morte nos salve, dos males da vida.

Sófocles, Rei Édipo

domingo, 2 de março de 2008

Saír da mediocridade?

Tudo o que é grande foge à praça pública e ao renome; é longe da praça pública e do renome que sempre viverarm os inventores de valores novos.
Foge, meu amigo, refugia-te na tua solidão. Refugia-te onde sopre um vento rude e forte!
Refugia-te na tua solidão! Viveste demasiado perto dos pequenos e dos desprezíveis. Foge à sua invisível vingança! Para ti apenas têm um sentimento, o rancor.
Não ergas a mão contra eles. São inúmeros: o teu destino não é tornares-te enxota-moscas. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sábado, 1 de março de 2008

A arte de compreender e partilhar?

...
É a alegria de compreender e de ser correspondida
onde correm pelo Mundo os eflúvios da sua fertilidade
até beber águas puras e frescas nos recantos da verdade;
...
a riqueza da partilha no auge onde é correspondida
e a viagem volta a ser uma senda iluminada
como a utopia que se converte em plantação realizada;
...
Luís Lourenço, Poética do instante filosófico.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A vida como vontade de poder?

"Escutai agora as minhas palavras sábios ilustres. Vêde se examinei bem a vida até ao fundo, até às últimas pregas do seu coração. Em todo o lado onde encontrei vida, encontrei a vontade de dominar, e mesmo na vontade do servidor, encontrei a vontade de ser senhor.

Se o fraco serve o forte, a isso é levado pela sua vontade que, por sua vez, se quer tornar senhora de outros mais fracos do que ela; é esse o único prazer a que não pode renunciar.

E, tal como o inferior cede ao superior, a fim de ter por sua vez o prazer de dominar o que está abaixo, também o maior entre todos se devota por sua vez e arrisca no jogo a sua própria vida.

Quando o maior de todos entra por sua vez na liça, toma sobre si o risco e o perigo, e trava com a morte uma partida de dados.

E sacrifícios, serviços prestados, amorosos olhares, são ainda manifestações da vontade de poder. Por ínvios caminhos, o mais fraco insinua-se na praça forte e avança até ao coração do poderoso; e aí lhe toma o seu poder,

Eis o segredo que a vida me confiou: «Vê, disse-me ela, sou o que é obrigado a ultrapassar-se a si própria até ao infinito» Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

Transbordância?

Mas Zaratustra não veio para dizer a esses mentirosos e a esses loucos: «Que sabeis da virtude? Que poderíeis saber da virtude?»
Ele veio para que vós, meus amigos, vos desviásseis das velhas fórmulas, aprendidas com os mentirosos e os loucos.
Para que vos saturásseis das palavras: «recompensa», e «retribuição», «castigo» e «justa vingança». Para que vos fatigásseis de dizer:« Uma acção é boa quando é desinteressada».
Ah! meus amigos, quando estiverdes completos, dentro do vosso acto, tal como a mãe está completa, dentro do seu filho, direi ser essa a vossa definição de virtude...Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O preço da liberdade!

...

É a semente fértil e a terra cultivada

como a fusão amorosa entre ambas

até a vida se extasiar plasmada;
...

a actividade e o impulso do renascer

como ascensão no movimento das coisas

ao triunfo do que ainda não é mas pode ser;
...
Luís Lourenço; Poética do instante filosófico

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A vida como fenómeno estético?

Nietzsche escreveu que vida podia justificar-se apenas como um fenómeno estético.Isto significa desistir da exigência de ser inteligível. A estética é exactamente aquilo que não tem significado.Aqui a música serviu-lhe como um exemplo constante. Qualquer tentativa de discernir o significado de uma peça musical será mais enganadora do que falsa.A música torna palpável o que a grande arte revela: falar do seu significado é mais do que um equívoco. O significado pode expressar-se de forma independente, mas o significado da tragédia nem sequer é impossível de afirmar . O mesmo no diz respeito ao significado da vida. Tal como numa obra de arte, estará presente em cada nota e em cada linha, em cada momento e em cada medida-ou jamais estará presente. Insistir que a vida se justifica da mesma maneira que a arte o é encontrar uma nova forma de dar significado à vida, mas de tentar que paremos de o procurar.
Assim, Nietzsche afirmou que desejar um momento é desejar todos os momentos. Desejar um momento é desejá-lo em si mesmo, e não uma coisa para a qual ele aponta, ou da qual se segue. Susan Neiman, O Mal no Pensamento Moderno.

O poder da Interrogação

PROFUNDIDADE.M.C.ESCHER

***

É o voo da especulação e um espelho ao Universo

onde toda a aparência é mais do que isso

e todo o saber se torna controverso;

...

a claridade e o fogo da mudança

que renascem no ser quando é urgente

e o inflamam numa auréola de esperança;

...

a contradição e a identidade

que se espicaçam uma à outra

como o instante à eternidade;

...

Luís Lourenço, Poética do instante filosófico.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Verdade ou desencanto?

"Em todas as épocas e em todos os países as coisas foram miseráveis. Os homens sempre estiveram atemorizados e com problemas, magoaram-se e torturaram-se uns aos outros; que pequenas vidas levaram, azedaram-se uns aos outros. Nao foram capazes de estimar ou apreciar a beleza do mundo e a doçura da existência que a beleza do mundo lhes deu; Apenas para alguns a vida se tornou confortável e aprazível. A maioria das pessoas depois de ter jogado o jogo da vida durante algum tempo prefere partir do que começar de novo. Aquilo que talvez lhes tenha dado ou dê algum grau de apego à vida era e é o medo da morte. Assim é a vida; sempre assim foi; assim continuará a ser sempre. É esse o destino do homem"Goethe

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O lado cruel da existência?

O que foi dito pelo pai da História[Heródoto] não foi desde então refutado, nomeadamente, que ninguém existitiu sem ter desejado mais de uma vez não viver o dia seguinte.Consequentemente a brevidade da vida, tantas vezes lamentada, pode ser talvez a sua melhor característica .Se, finalmente, trouxéssemos à vista de todos o terrível sofrimento e as aflições a que a vida é constantemente exposta, seríamos dominados pelo horror. Se guiássemos o mais duro e empedernido optimista pelos hospitais, enfermarias, salas de operações, e pelas prisões, câmaras de tortura e cabanas de escravos, ou pelos campos de batalha e lugares de execução; Se lhe abríssemos escuras casas da pobreza, que fogem à contemplação da fria curiosidade, e finalmente olhasse para as masmorras do Ugolino, onde os prisioneiros morriam de fome, também podia certamente ver, no fim, que tipo de mundo é este meilleur des mondes possibles. Ora a que lugar foi Dante buscar o material do seu inferno se não ao nosso mundo actual? Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Representação.

liberdade encantada!

Transformei-te num corpo e vi-te num sonho.

Deste-me na lua os raios brilhantes de uma fantasia,

Que quando esquecer volta a ser poesia!

Ergui-te com força na sombra da mente.

Voltei a erguer-te com paixão ardente!

Só sonhei contigo mas encontrei toda a gente!...

Luís Lourenço

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Violações do direito à justiça?

"Assim, os casos de injustiça mais flagrantes e que provocam mais intensamente a marca de repugnância característica do sentimento de injustiça, são os actos de agressão injustificada ou os de abuso de poder sobre outros; e, a seguir, os actos que consistem na recusa arbitrária de reconhecer a cada um o que lhe é devido" John Stuart Mill, Utilitarismo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

liberais e conservadores?

O liberalismo, como vimos, preocupa-se com um processo de recuo da liberdade, enquanto que o conservadorismo se preocupa com um processo de recuo da autoridade; ambos denominam o previsível resultado final como totalitarismo e vislumbram tendências totalitárias onde quer que o outro se manifeste. Não há dúvida que ambos são capazes de produzir excelentes justificações para as suas conclusões. Quem pode negar as graves ameaças à liberdade vindas de todos lados desde o início do século, e o aparecimento de todo o tipo de tiranias pelos menos desde o fim da Primeira Guerra Mundial? Quem pode, por outro lado, negar que o desaparecimento de praticamente de todas as autoridades tradicionalmente estabelecidas tem sido uma das mais notáveis características do mundo moderno? É como se precisássemos apenas de fixar o olhar em qualquer um desses fenómenos para justificar uma teoria do progresso ou da catástrofe , dependendo do nosso gosto ou , como se costuma dizer, da nossa própria«escala de valores».Se observarmos de modo imparcial as conflituantes afirmações de liberais e conservadores, facilmente podemos perceber que a verdade é partilhada por ambas as facções, e que no mundo moderno estamos de facto confrontados com uma simultânea regressão da liberdade e da autoridade.Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Símbolos da alegoria da caverna!

...Vimos que, na alegoria da caverna, o filósofo deixa a caverna em busca da verdadeira essência do Ser sem pensar na aplicabilidade prática do que vai encontrar. Só depois, quando se encontra de novo confinado à escuridão e incerteza dos assuntos humanos e se depara com a hostilidade dos seus semelhantes, é que ele começa a pensar na sua «verdade» em termos de normas aplicáveis ao comportamento dos outros. Esta discrepância entre as ideias como essências verdadeiras que devem ser objecto de contemplação, por um lado, e como medidas a aplicar, por outro, manifesta-se nas duas ideias completamente diferentes que representam a ideia suprema, aquela a que todas as demais devem a sua própria existência. Platão diz-nos ou que essa ideia suprema é a ideia de Belo-No Banquete, por exemplo, onde constitui o degrau mais alto da escada que conduz à verdade, ou no Fedro, onde Platão fala do «amante do saber ou da beleza», como se estas duas fossem de facto idênticas, pois a beleza é aquilo que mais brilha e por isso ilumina tudo o resto-ou que é a ideia de Bem, como podemos conferir na República, mas num contexto que é estritamente político. Hannah Arendt, Entre O Passado e O Futuro.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

libertas-vitalis.blogspot.com: decadência?

libertas-vitalis.blogspot.com: decadência?

Decadência?

Tanta mediocridade que existe no mundo!

E é assim que a Humanidade vai indo ao fundo.

Da mais mesquinha, nunca se purifica a História,

e na mais gananciosa, se vai destruindo à mesma,

sem glória... Mas assim desperdiçada,

como chegará Ela à vitória

antes de ser tarde demais

e sonhar ainda acordada!..

Luís Lourenço

O sim absoluto à vida.

A vida quer edificar-se no alto, quer olhar horizontes cada vez mais longínquos e belezas cada vez mais inéditas. Por isso necessita de altura .A vida quer subir e ao fazê-lo superar-se. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

o eterno retorno

Guardemo-nos de acreditar que o Universo tenha uma tendência para alcançar certas formas, que aspire a ser mais belo, mais perfeito, mais complicado, isto é puro antropomorfismo...Se o devir é um vasto círculo, tudo é igualmente precioso, eterno, necessário, e, portanto, o eterno retorno aplica-se eternamente a uma mesma e idêntica vida, não a uma vida melhor ou parecida, mas a uma mesma e idêntica vida, tanto no grande como no pequeno. Nietzsche; Vontade de Poder

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

liberdade e livre arbítrio.

Para a história do problema da liberdade, a tradição cristã tornou-se o factor decisivo. Nós equiparamos quase automáticamente a liberdade ao livre arbítrio, ou seja, a uma faculdade virtualmente desconhecida para a Antiguidade Clássica[...] A razão para este facto perturbador está em que na Grécia como na Roma antigas, o conceito de liberdade era exclusivamente político, era a quinta-essência da cidade-estado e da cidadania. De tal modo assim era que a nossa tradição de pensamento político, iniciada com Paménides e Platão, foi fundada explicitamente contra essa polis e a sua cidadania. O modo de vida do filósofo era entendida como a antítese da bios politikos, o modo de vida político . A liberdade, o verdadeiro centro da política tal como os gregos a entendiam, era portanto uma ideia que, quase por definição, não entrava no quadro da filosofia grega. Só quando os primeiros cristãos, e S. Paulo em particular, descobriram uma espécie de liberdade que não tinha qualquer relação com a política, é que o conceito de liberdade pôde entrar na história da filosofia. A liberdade tornou-se um dos principais problemas filosóficos quando passou a ser vivida como algo que acontece na relação entre eu e eu-mesmo , fora das relações entre os homens. Liberdade e livre arbítrio tornaram-se conceitos sinónimos e a presença da liberdade era vivida em completa solidão. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A liberdade como princípio do agir.

Os homens são livres-o que é diferente de apenas possuirem a aptidão para a liberdade-enquanto agem, não antes nem depois; pois ser livre e agir são uma e a mesma coisa.
A liberdade como inerente à acção é talvez mais bem ilustrada pelo conceito de virtù de Maquiavel, a excelência com a qual o homem responde às oportunidades que o mundo abre perante ele sob a forma de fortuna. O significado que melhor a traduz é o de "virtuosismo" ou seja, uma excelência normalmente atribuída no terreno das artes interpretativas[diferentes das artes do fazer, que são criativas], onde o mérito está na própria execução, e não num produto final capaz de sobreviver à acção que o trouxe à existência e tornar-se independente dela. a virtuosidade da virtù em Maquiavel recorda-nos de certo modo o facto[muito provavelmente desconhecido de Maquiavel] de os gregos sempre terem usado metáforas como as de tocar flauta, dançar, curar e navegar para distinguir a política das outras actividades, significando isto que os gregos retiravam as suas analogias de artes em que o virtuosismo da execução é fundamental. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Da persuasão à autoridade.

Foi após a morte de Sócrates que Platão começou a encarar a persuasão como insuficiente para a condução dos homens e a procurar algo capaz de os compelir sem o recurso a meios externos de violência.Logo no princípio da sua investigação terá ele percebido que a verdade, sobretudo, a que chamamos de auto-evidente, compele o espírito e que esta coerção, embora não necessite de violência para ser eficaz, é mais forte do que a persuasão e a argumentação. No entanto o problema com a coerção através da razão está em que apenas uma minoria está sujeita a ela, pelo que fica ainda por resolver o problema de como garantir que a multidão, as pessoas que pela sua própria pluralidade constituem o corpo político, possa ser submetida à mesma verdade. Aqui é evidente que outros meios de coacção devem ser encontrados, e também aqui a coacção pela violência deve ser evitada, para que a política tal como os gregos a entendiam, não fosse destruída. Esta é a dificuldade central da filosofia política de Platão, e que como tal permaneceu ao longo de todas as tentativas para estabelecer uma tirania da razão. Na República o problema é resolvido pelo mito final das recompensas e castigos no além, mito esse no qual o próprio Platão obviamente não acreditava nem desejava que os filósofos acreditassem. Aquilo que a alegoria da caverna, a meio d`A República representa para elite ou para os filósofos, é o mesmo que o mito do inferno, no final do livro, representa para a multidão dos que não são capazes de aceder à verdade filosófica. Nas Leis, Platão debate-se com esta mesma dificuldade, mas na forma inversa: aqui, sugere como substituto para a persuasão, uma introdução às Leis na qual a intenção e o fim destas sejam explicados aos cidadãos. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A vida como energia primordial!

A vida enquanto forma de ser que nos é mais especificamente acessível, é uma vontade de acumulação de energia: todos os processos da vida encontram aqui o seu eixo giratório: nada quer simplemente conservar-se, tudo aspira a ser totalizado e acumulado...A vontade de poder não é um ser nem um devir é um "pathos", Nietzsche, Vontade de Poder

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Estética do trágico!

A alegria metafísica que nasce, pois, do trágico é a tradução, na linguagem da imagem, da instintiva e inconsciente sabedoria dionisíaca. O herói por ser a manifestação suprema da Vontade, fica aniquilado para nosso prazer, já que, apesar de tudo, não é mais que uma aparência e o seu aniquilamento não atinge, na sua essência, a vida eterna da Vontade. "Creio na vida eterna", proclama a tragédia, mas é a música que é a ideia imediata desta vida...Nietzsche, A Origem da Tragédia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A natureza da autoridade.

Uma vez que a autoridade exige sempre obediência, é, muitas vezes, confundida com alguma forma de poder ou violência. Mas o facto é que a autoridade exclui o uso dos meios exteriores de coacção; quando se usa a força, isso significa que a autoridade falhou. Por outro lado, a autoridade é incompatível com a persuasão, já que esta pressupõe uma paridade e funciona através de um processo de argumentação. Quando se utilizam argumentos a autoridade é deixada em suspenso. Contra a ordem paritária da persuasão temos a ordem autoritária que é sempre hierárquica. Assim, se temos de definir autoridade, esta é algo que se opõe tanto à coacção pela força como à persuasão mediante argumentos. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Crise de autoridade?

O mais significativo sintoma da crise, indício da sua amplitude e gravidade, é ela ter-se espalhado para áreas pré-políticas como a puericultura e a educação onde a autoridade, no seu sentido mais lato, sempre fora aceite como uma necessidade natural exigida obviamente, tanto por razões naturais[a dependência das crianças],como por razões políticas[a continuidade de uma civilização estabelecida que só pode ser garantida se os os recém-chegados forem guiados através de um mundo pré-estabelecido onde, ao nascer, são como estranhos. Pelo seu carácter mais simples e elementar, esta forma de autoridade serviu de modelo ao longo da história do pensamento político, a uma enorme variedade de formas autoritárias de governo; pelo que, se até esta autoridade pré-política que rege as relações entre adultos e crianças, entre professores e alunos, já deixou de ser segura, isto significa que todos os outrora venerados modelos e metáforas de relações autoritárias perderam a sua plausibilidade. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O que é a autoridade?

Para evitar malentendidos, talvez fosse mais sensato intitular este ensaio: o que foi, e não o que é a autoridade; pois sou da opinião de que aquilo que nos permite e incita a formular esta pergunta é o facto de a autoridade, no mundo moderno, ter desaparecido. Não podendo nós apoiar-nos já em experiências verdadeiras e indubitáveis, comuns a todos, o significado do próprio termo acabou por se perder em controvérsia e confusões. Não há muita coisa na natureza da autoridade que seja evidente, ou sequer passível de ser compreendida por todos; pese embora o facto do cientista político ser ainda capaz de recordar que este conceito foi, em tempos, fundamental para a teoria política, e que a maioria das pessoas estará de acordo em que uma crise de autoridade, constante e cada vez mais ampla e profunda, tem acompanhado o desenvolvimento do mundo moderno no nosso século. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

liberdade interior!

Assim os argumentos mais convincentes a favor da superioridade absoluta da liberdade interior podem ainda ser encontrados num ensaio de Epicteto, onde este começa por afirmar que o homem livre é aquele que vive conforme deseja, definição esta que ecoa estranhamente uma frase da Política de Aristóteteles, onde a afirmação«liberdade» significa fazer-se aquilo de que se gosta» é posta na boca daqueles que não sabem o que é a liberdade. Epictecto prossegue então a sua argumentação mostrando que um homem é livre se se restringe àquilo que está em seu poder, se não avançar para domínios onde pode ser travado. A « ciência de viver» consiste em saber distinguir entre o mundo exterior, sobre o qual o homem não tem poder, e o domínio do eu, do qual pode dispor como bem lhe aprouver.Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

liberdade e política.

O terreno onde a liberdade sempre foi conhecida, não como um problema, certamente, mas como um facto da vida de todos os dias, foi o espaço político.E mesmo hoje, saibamo-lo ou não, a questão política e o facto de o homem ser dotado com a capacidade de agir deve estar sempre presente no nosso espírito, quando abordamos o problema da liberdade: pois a acção e a política entre todas as capacidades e potencialidades da vida humana, são as únicas coisas que não conseguimos sequer conceber sem pelo menos assumir que a liberdade existe, e dificilmente podemos tocar em qualquer questão política, sem implicita ou explicitamente abordarmos a questão da liberdade humana... Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

A liberdade do eu é derivativa?

Esta liberdade que tomamos como garantida em toda a teoria política e que mesmo aqueles que elogiam a tirania devem levar em conta, é a exacta antítese da «liberdade interior» esse espaço íntimo onde os homens se refugiam para escapar à coerção exterior e se sentirem livres. Uma tal sensação interior não se manifesta exteriormente e, por isso, é irrelevante do ponto de vista político. Por muito legítima que seja, e por mais eloquentemente que haja sido descrita na Baixa Antiguidade, a liberdade é historicamente um fenómeno tardio e foi inicialmente o resultado de um afastamento em relação a um mundo no qual as experiências mundanas foram convertidas em experiências internas do próprio eu. As experiências de liberdade interior são derivadas, no sentido em que pressupõem sempre uma fuga ao mundo, onde a liberdade era negada, para uma interioridade a que ninguém tinha acesso... Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Faces da liberdade.

Nós começamos a tomar consciência da liberdade ou do seu oposto na nossa relação com os outros, não na nossa relação com nós próprios. Antes de se ter tornado um atributo do pensamento ou uma característica da vontade, a liberdade era entendida como a situação do homem livre, que lhe permitia mover-se, sair de casa, dirigir-se para o mundo e reunir-se com outras pessoas, falar com elas. Esta situação de liberdade era claramente precedida por uma libertação: para ser livre o homem tinha primeiro de se libertar das necessidades da vida. Mas a situação de liberdade não decorria automáticamente desse acto de libertação.A liberdade requeria, para além da mera libertação, a companhia de outros homens que estivessem no mesmo estado, e requeria também um espaço público comum onde estes pudessem ser encontrados-ou seja, um mundo políticamente organizado, no qual os homens livres se pudessem integrar através da palavra e da acção" Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.

Silêncio?

Hoje fica o silêncio!Imaginem por que será?

sábado, 26 de janeiro de 2008

Absoluta lucidez!

...
É a aspiração e as vagas do absoluto
onde desponta a vida e emerge a morte
quando perdida a bússola se vagueia sem norte;
...
a reflexão e a violência do pensar
que se libertam para entender o mal
na impossibilidade de sobre ele triunfar;
...
Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico.

O homem fora de si próprio!

Se há algo de novo no mal contemporâneo, não é simplesmente uma questão de quantidade relativa, nem de relativa crueldade. As câmaras de gás foram inventadas para poupar as vítimas a formas mais dolorosas de morte-e para poupar os assassinos a uma visão que poderia perturbar as suas consciências. Para muitos, é esta mistura perversa de industrialização com uma pretensa humanidade que torna os campos de morte tão horripilantes. As discussões sobre que tipos de morte são piores levam a formas macabras de competição. Um momento de refllexão sobre a história da tortura deixa claro que, antes e depois de Auschwitz, os seres humanos mostraram possuir competências para a crueldade que as palavras não conseguem captar"Susan Neiman, O Mal no Pensamento Contemporâneo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Jogos entre o conceito e a metáfora.!

"Tal como o artista, também o teórico é capaz de pressentir em tudo o que o rodeia uma satisfação infinita e de se preservar, através dessa grande alegria, das consequências éticas e práticas do pessimismo, cujo olho de lince brilha apenas nas trevas.Mas é necessário precisar que, enquanto o artista a cada desvelação da verdade se mantém sempre em suspenso, com olhares deleitados, daquilo que mesmo agora, depois do desvelamento, pemanece véu, o homem teórico encontra a sua fruição no véu deitado fora" Nietzsche, A Origem da Tragédia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Frágil- mas preciosa- é a vida!

"Hoje só o mais espectacular dos terramotos causa tantos estragos como um modesto bombardeamento. Mas, em nenhum dos casos, vemos o mal como uma questão de número. A maioria das perspectivas éticas e religiosas nega que a vida humana seja quantificável. Matar sem justificação mais uma ou menos uma alma pode não ser o que é moralmente decisivo. O Talmude comparou salvar uma vida com salvar o Mundo. Dostoievski afirmou que matar uma criança podia ser o suficiente para o condenar.Pensamentos como estes pertencem tanto à poesia como à razão. Mas o raciocínio que tenta hierarquizar os males de acordo com um número relativo de mortes ignora o que é crucial no significado de cada vida em particular"
Susan Neiman, O Mal no Pensamento Moderno.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Imperativo do eterno retorno!

Queiras o que quiseres, quere-o de tal modo que sejas capaz de o querer uma infinidade de vezes" Nietzsche, Vontade de Poder

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O choque entre a verdade e o poder!

TORRE DE BABEL_ESCHER
A verdade, embora menos poderosa e, portanto, perdedora no choque frontal com o poder, conserva uma força que é o seu apanágio: seja o que for que possam engendrar os que detêm o poder, são incapazes de descobrir ou inventar um substituto viável para ela. A persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não podem substituí-la; e isto aplica-se tanto às verdades racionais e religiosas como às verdades de facto. Hannah Arendt, Verdade e Política

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Riqueza da partilha.

...
É a arte de compreender onde não é correspondida
e a alegria da partilha onde se renova enriquecida
como a liberdade já não no Mundo perdida;
Coragem contra os véus da representação
dos que não se arriscam aos cumes da reflexão
por ficarem perdidos na vertigem da solução;
Viagens frágeis entre o ser e o pensar,
exaltantes como os navios no mar
e a filosofia o instante eterno a desbravar!...

Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico

domingo, 20 de janeiro de 2008

Despertar!

O mundo gira ao redor dos inventores de novos valores;
gira em invisível movimento. Mas à volta dos comediantes,
é a multidão que gravita, e também a glória;
e diz-se que assim vai o mundo
. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra

sábado, 19 de janeiro de 2008

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

A partir do cume!

Ergueis os olhos para as alturas porque
aspirais a subir.
mas eu baixo os meus porque estou sobre
o cume.
Qual de vós será capaz de rir depois
de ter atingido o cume?
Aquele que escala os mais altos cumes,
ri dos jogos trágicos da cena como da
gravidade trágica da vida.
Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A afirmação criadora!

" Alguma vez dissésteis sim a uma alegria? Ó meus amigos, então dissesteis sim, ao mesmo tempo, a toda a dor.Todas as coisas estão encadeadas, unidas entre si, amorosamente ligadas" Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Alta disciplina!

" Superai, eu vo-lo peço, ó Homens superiores, essas pequenas virtudes, essas pequenas astúcias, esses escrúpulos do tamanho de um grão de areia, esse fervilhar de formigas, essa miserável satisfação de si próprio, essa felicidade do maior número.
E preferi desesperar a render-vos. Pois, em verdade , amo-vos por não saberdes viver neste presente, ó Homens superiores. Por isso sois aqueles que melhor viveis
" Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

A alegria trágica da vida!

" Quando chegado a este ponto limite vê, cheio de espanto, que a lógica se enrola nos seus próprios limites, tal como a serpente ao morder a sua própria cauda, desperta para a visão de uma nova forma de conhecimento, o saber trágico, que nem sequer pode suportar sem a protecção e o remédio da arte"Nietzsche, A Origem da Tragédia.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

vitalis: poética do instante filosófico

vitalis: poética do instante filosófico

vitalis: O amor da viagem e o navio.

vitalis: O amor da viagem e o navio.

A fortaleza humana!

"A grandeza do Homem está em ser ele uma ponte e não um final: o que podemos amar no Homem, é ser ele transição e naufrágio.
Amo aqueles que apenas são capazes de viver na condição de perecer, porque perecendo se superam.
Amo aqueles a quem cumula um grande dsprezo, pois em si trazem o respeito supremo, são flechas do desejo que se estende para a outra margem"
Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

vitalis: Vitalidade!

vitalis: Vitalidade!

Vitalidade!

" Qual é o homem que a mulher, acima de tudo, odeia?
Um dia disse o ferro ao íman: É a ti que, acima de tudo odeio, pois me atrais, mas não és suficientemente forte para me reteres"
Nietzsche-Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Grandeza de carácter

"Não há uma necessidade absoluta na natureza das coisas que obrigue o homem a permanecer egoísta e fechado em si próprio sem qualquer preocupação ou sentimento a não ser os que estão centrados na sua miserável individualidade" John Stuart Mill, Utilitarismo

Sabedoria trágica!

" é o nó do objecto e a rotação do sujeito
como o enigma da esfinge no trágico herói
cuja sagacidade liberta mas enfeitiça e doi
"
Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico

Saber teórico e sabedoria trágica?

" Enquanto que, em todos os homens produtivos, o instinto é a força afirmativa e criadora e a consciência uma força crítica e dissuasiva, em Sócrates, o instinto torna-se crítico e a consciência criadora-uma verdadeira monstruosidade per defectum! Nietzsche, A Origem da Tragédia

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Criatura e Criador!

" No homem criatura e criador estão unidos: no homem, há a parte relativa à matéria, ao fragmento, excesso, corpo, sugidade, disparate, caos; mas no homem também há o criador, o criador de formas, a resistência do martelo, o observador do divino, e o sétimo dia. Percebeis o contraste?" Nietzsche

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

Margem Esquerda: Mem�ria dos afectos num momento po�tico

Decadência=não à vida

Em vez de afirmar simplesmente«já não valho nada», a mentira moral, na boca do decadente diz:«Nada vale nada- a vida não vale de nada» Nietzsche

O sim pleno à vida

" em todas as épocas a maioria dos sábios proferiu um julgamento idêntico sobre a vida: é inútil [...] Sempre e em toda a parte as suas bocas pronunciaram o mesmo som- um som carregado de dúvida, cheio de melancolias; cheio de cansaço da vida, cheio de antagonismo à vida" Nietzsche

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

POÉTICA DO INSTANTE FILOSÓFICO.


DECLAMADO PELO POETA



Música de fundo-Schubert. Formatação-vídeo e imagens-Helô Spitali

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POEMA DECLAMADO PELO AUTOR

Aos que lerem a minha "poética do instante filosófico" quero apelar para que não hesitem em enviar-me o feedbacK que considerarem necessário।Adquirir em http://www.livrosnet.com/