domingo, 26 de outubro de 2008

VARIAÇÔES EM SOL MAIOR

RAPARIGA COM GUITARRA_TAMARA DE LEMPICKA

* *
És o rio que corre
e eu o barco que navega
És o vento que sopra
e eu o vulcão à espera;

* *
És o sol que me aquece
e eu o luar na madrugada
És a estrela que brilha
e eu os teus gozos acordada;

* *
És os raios de Sol
e eu a tua aventura
Eu a leveza do ar
e tu a gaivota que procura;

* *
És o riso nos meus olhos
e eu a paixão que estremece
Eu a canção que enternece
e tu a explosão que perdura...

* *
És as cerejas nos meus lábios
e eu o rio nos teus desejos
Eu o sabor a morangos
e tu a volúpia dos meus tangos.

Luís Lourenço



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A GRANDE FAMÍLIA

A GRANDE FAMILIA_RENÉ MAGRITTE
*
É a dor e a alegria
que se inquietam
nas vagas da sabedoria;

*
é o sonho e a realidade
que se guerreiam nos vôos
da humanidade;
*
é o amor e a paixão
que se lançam em jogos de sedução
às voltas no coração;

*
é a sorte e o azar
que se aventuram nos labirintos
da vida, do jogo e do altar;

*
é o mar e as espumas
que se atiram fortes ao rochedos
até quebrar;

*
é a acção e a roda do ser
que inventam o futuro e o não-ser
para o forçarem a ser;

*
é a imaginação e as névoas
que se abismam no enigma da inspiração
para o manterem vivo e secreto,
por desvendar;

*
É tudo: vida, paixão, amor e verdade,
dança imortal e mistério,
fonte onde o homem
pode voltar a criar
a festa da sua vida,
e nela voltar a jorrar
livre e feliz a nascente
orgulhosa da sua própria verdade!...


Luís Lourenço

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

RIOS DA ILUSÂO

PRAZER_RENÉ MAGRITTE
[a uma amiga que está muito triste]
*
No teu corpo que não toquei
distante por não poder tocar
correm os rios de espuma
que ainda não se desfizeram no mar;

*
E na tua alma onde não entrei
pela beleza de não querer entrar
bailam jactos de prazeres e risos
que só o tempo vai libertar;

*
Mas na névoa em que os encobres
deixas os nós das estrelas
e os elos enigmáticos de desejos
sob o véu de delícias em noites insones

*

E no rio da ilusão que te devora
como sublime ardente e trágico,
em noite de abruptas desmedidas,
caiem as folhas amarelecidas
e a nostalgia, véu do frenesim solitário,
nas brumas da uma ninfa de Outono,
errante mas sonata na Primavera!...


luís lourenço





domingo, 19 de outubro de 2008

AS FASES DA VIDA

AS FASES DA VIDA_G. DAVID FRIEDRICH
*
É o amor da viagem e o navio
que se desafiam um ao outro
com igual coragem e sangue frio
*
o mar profundo e a longa travessia
onde navegam arrojados timoneiros
faróis na noite e raios de sol no dia;
*
o porto de partida e o porto de chegada
onde cada saída é uma nova partida
e cada partida é uma nova chegada;
*
a expectativa e a ambição
que no navio são o ar e a respiração
e nos criadores o destino da missão;
*
a aventura e a descoberta
que se jogam belas e seguras
mesmo nos portos da hora incerta;
*
a fruição e as formas belas
que sopram durante o percurso
e se renovam em criações serenas;
*
a felicidade do mar e a presença do navio
que mesmo quando se retiram ausentes
voltam a fazer-se sentir presentes;
*
É mar e travessia, viagem e navio,
aventura, descoberta e fruição,
tempo, densidade e desafio;
Ar e respiração, leveza e invenção,
sopro de toda a criação,
vida e refloração;
Nascentes virginais da poesia,
e vôos inocentes da liberdade
na órbita da própria felicidade!...

Luís Lourenço

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

AMAZONA NO BOSQUE

CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
*
É a manhã e a alvorada
que arrancam o ser à inércia
até nascer nele uma nova morada;
*
A noite e as portas do labirinto
que rasgam clareiras ao caos
até brilhar nele o infinito;

*
O meio-dia e o zenite solar
que derramam energia sobre as taças
dos amantes da vida e do criar
*
a meia-noite e os pressentimentos
que festejam a vida aos sons da guitarra
até tudo se afinar em explosão de sentimentos;

*
a chaga infeliz e os desmazelos
em que a vida e a cultura se afundam
até o homem quebrar os medos;

*
a festa e a nascente primordial
onde tudo se canta na músca da vida
como num barco ondulante em alto mar;

*
o instante e a luz do pensamento
onde o ser celebra sem arrependimento
o nascer e o morrer do próprio tempo;

*
É expansão e Universo, verso e reverso
o ser escrito no perfume de um só verso;
O símbolo da vida abundante,
mesmo a perdida e a errante;
Os amantes do ser e do pensar
orgulhosos de ser um para o outro
toda a alegria da incerteza
no jogo do seu próprio caminhar!...


Luís Lourenço

terça-feira, 14 de outubro de 2008

INTERLÚDIO AMOROSO

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA

És o vento que sopra
e eu o barco que navega
És o rio que corre
e eu o pomar à espera;

**
És a estrela que brilha
e eu o luar na madrugada
És o Sol que me aquece
com teus mimos acordada

**
És a leveza do ar
e eu a gaivota que procura
Tu és os raios do Sol
e eu a tua aventura
**
És a festa que perdura
e eu a canção que enternece
Tu o meu riso nos olhos
e eu a ilusão que estremece.

Luís Lourenço



domingo, 12 de outubro de 2008

MISTÉRIO E MAGIA

NO TERRAÇO_PIERRE-AUGUSTE RENOIR
É o mistério e a magia
que a palavra arranca à escuridão
até os trazer à luz do dia;
*
o nascimento e o amor da criança
que trazem ao ventre da mãe a grande dor
e o grito cósmico da esperança;

*
o desejo e a rebeldia
que enchem a vida dos sonhadores
com noites claras e frescos de ousadia;

*
a liberdade e o combate
que deleitam os homens nas colinas do olhar
e nos entregam aos impulsos do amor e da arte;

*
a aventura do ser e o jogo das miragens
que trazem a festa à terra e as ilusões à vida
como às árvores o festejo das folhagens;

*
a eternidade e o êxtase do momento
onde sonham as moradas do mundo
como obras felizes e pérolas do pensamento;

*
É amor, paixão, desafio, alegria, dor e verdade,
névoa e claridade;
O fogo imortal da poesia
onde renasce contraditória e incerta
a vida, essa orgulhosa raínha
Que é o sentido do ser
por amor à sua própria verdade!...


Luís Lourenço

terça-feira, 7 de outubro de 2008

VÉNUS E CUPIDOS

VÉNUS E CUPIDOS_SALVADOR DALÍ
É o ser na aspiração de ser outro
onde afirma o horizonte a fronteira
de querer ser tudo sendo pouco;
*
o ser e a pergunta que o transcende
em busca do que é mas não se surpreende
apesar da chama que nele se acende;
*
o ser e angústia que nele se enquista
como o amor da mulher a quem se ama
mas jamais se conquista;
*
o ser e o cerco do não-ser
onde a violência exercida ao pensar
gera o poderoso impulso de se renovar;
*
o Universo e o jogo do devir
que inocentam o destino trágico dos seres
no fado do voltar a chegar e a partir;
*
o ser e a pergunta pelo sentido
que se abismam no trágico herói
na procura mais valiosa mas que mais dói;
*
É inquietação e sentido
pergunta e aspiração
chama que se acende no ser
que se ama mas não se transcende;
ser na fronteira do não-ser,
limite-expansão e horizonte,
cerco-abertura e ponte;
tragédia valiosa de herói
que cura e liberta
mas vai retornando e dói!...

Luís Lourenço

domingo, 5 de outubro de 2008

INOCÊNCIA E POESIA

CRIANÇA NA PRAIA_P. AUGUSTE RENOIR *

Olhaste musa para as estrelas

com olhinhos de criança a brilhar

e jogaste às entrelinhas com elas

nos seus carrosséis a girar;

*

jogaste toda a ternura

nos seus cantos de embalar

que agora vives no mar alto

sem medo de naufragar;

*

brincaste sol com as crianças

na praia às conchinhas do mar

que agora essas conchinhas

são mil sorrisos a brilhar;

*

Hoje és poesia dessas ilusões ternas

aspergidas no voo das borboletas

e baloiças na felicidade delas

perfumes num cesto de violetas!...


Luís Lourenço

sábado, 4 de outubro de 2008

O REGRESSO DA CHAMA

O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE

É o sopro e a distância

que estão para a chama do ser

como o acto está para a transbordância;

*

a força do ser e a amizade

que na textura do mundo são tão antigas

como a própria eternidade;

*

o cárcer da dor e da tristeza

que se espalham pelo mundo

quando nos seres vagueia a fraqueza;

*

o poder da alegria e da felicidade

cujos eflúvios no mundo jamais se esgotam

mesmo quando deles só resta a saudade;

*

o desejo do mais e a bela espontaneidade

que aspiram em pleno ao triunfo no ser

como as fontes da própria liberdade;

*

o medo e as pressões glaciares

que fecham de súbito a existência

no escuro dos pesadelos polares;

*

o movimento e a expansão

que erram caóticos na cósmica energia

e em cuja órbita vagueia a dor e a alegria;

*

É sopro e distância, ser e transbordância

desejo de querer mais até à última distância;

energia e expansão,

vontade e libertação

saudade, nostalgia e realização;

Movimento e espontaneidade

ponte para a eternidade

e no caminho que é a aventura

a poesia como canto à imortalidade!...


Luís Lourenço

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

INTERLÚDIO ERÓTICO

O MODELO_TAMARA DE LEMPICKA
[dedicado à mulher: eternaapaixonada]

*

a tua paixão é volúpia

e na minha vida é prazer

adoro misturar os frutos

até a sua polpa expremer;


*

os véus do teu erotismo

são rouxinóis sensuais

adoro brincar com os véus

e brindar aos acordes finais...

*

Luís Lourenço

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O HOMEM INVISÍVEL

O HOMEM INVISÍVEL_SALVADOR DALÍ
Somos o mar e a corrente,
A plantação e a semente,
O ar e a liberdade premente
o fogo do amor puro, inocente;
*
Somos o labirinto trágico,
E a medida do conflito,
onde balança no Universo,
Tudo o que é belo e perverso!
*
Somos o navio e os faróis,
As vagas e a aventura,
A lentidão dos caracóis,
E a leveza das gaivotas!
*
Somos os acordes e os ouvidos,
A música e os gemidos,
O eco dos mundos perdidos
Na noite abissal dos conflitos!
*
Somos a liberdade incarnada,
A vida nos riscos do nada,
a aventura que é vertigem
na colina e na mirada!
*
Somos o tudo e o nada,
A vida no sim celebrada
E a afirmação renegada
da liberdade sagrada;
Somos o silêncio profundo
E a palavra metáfora sibilina,
O paraíso dos sons,
E esta música abismada,
Na mais perfeita surdina!...

Luís Lourenço

sábado, 27 de setembro de 2008

O JOGO LÚGUBRE

O JOGO LÚGUBRE_SALVADOR DALÍ

Marionetas inquietas e até invisíveis

no caos do Universo estranho e secreto.

Baile trágico de máscaras sublimes

e comediantes que dançam à cabra cega!

*

Queremos ser a liberdade no Mundo,

E em cada encosta terrestre

o sonho de uma morada afirmada,

*

Mas sobra ainda quanta escravidão?

Que congela na aranha que nos aperta

e no deserto que avança e que nos cerca!

*

Dados inocentes jogados

sobre o cenário da vida

procuram plantações férteis,

Mas rolam farsantes

nesta aventura incerta! ...

Luís Lourenço

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA_SALVADOR DALÍ

É a reflexão e o preço do conhecimento

que quebram na estupidez a ignorância

e a ausência do pensamento;

*

a acção e a luta contra a doença

que as luzes da razão proporcionam à ciência

para elevar a saúde à sua plena existência;

*

o desejo sem fim e o sonho da perfeição

que irradiam do núcleo do mito para o fazer

florescer e brilhar até à grande ilusão;

*

a visão sensível e o cósmico radar

que se libertam entre o pensamento e a realidade

até chegar ao cume de uma incontornável verdade;

*

o olhar inquieto e o impulso da criação

que imperam como pássaros longínquos

no cume do ser e da veneração;

*

a nobre causa e a terrível missão

que quebram na vontade as máscaras da ilusão

até bater nela ardente e feliz o coração;

*

a chama do fogo e a roda da invenção

que gravam na cultura da memória

os tesouros e os desvarios da civilização;

*

É vida e instinto, celebração e vontade,

poderes telúricos nos cumes da verdade,

e só fantasias dos caprichos da liberdade

às voltas no carrocel da vaidade

e para o Mundo mais dor do que felicidade;

É a pergunta subtil e certeira: ser ou não ser,

a vertigem do homem face à realidade

que o engloba e interpela

sem jamais poder sair dela!...

Luís Lourenço



terça-feira, 23 de setembro de 2008

AS FLORES DO MAL

AS FLORES DO MAL_RENÉ MAGRITTE
É o apelo da vida à cultura
onde o fluxo criador tanto pode murchar
como renascer e brilhar;
*
o fluido e a seiva criadora
onde se celebram no auge
tempos intensos e uma nova aurora;
*
o declínio e a decadência
onde a vida e a cultura
se esgotam numa pobre doença;
*
o grito e o sono da morte
de Deus do homem e da sorte
quando a vida erra sem arte e sem norte;
*
a luta e o vazio no ser
onde a vida tanto se pode perder
como em novas paixões se acender;
*
o fogo e a chama do viver
onde é impossível deixar de ser
e se prefere o nada ao nada querer;
*
o sonho colectivo e a imaginação
onde a vida e a cultura se fundem
no triunfo de uma fresca inspiração;
*
É vida e cultura, impulso e seiva criadora,
saúde e doença, declínio e aurora,
morte de Deus, da sorte, e do eu;
Vitória sobre si e um novo horizonte,
luta e vazio, paixões novas e os riscos
do nada e até de se perder;
chama colectiva no fogo do viver,
união frágil da vida e da sabedoria
na eterna aspiração da filosofia!...
Luís Lourenço

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O AMOR

RETRATO DA SENHORA M_TAMARA DE LEMPICKA
A sensualidade feminina ornamenta-se com vários disfarces: o idealismo platónico, tão caro à juventude, que gera a miragem da bem-amada como sendo um caso à parte; uma incrustação, uma elevação, uma transfiguração aureolada de infinito; a religião do amor em que participam "um belo moço e uma bela rapariga"-é, de certo modo, divinizada num noivado da alma; a arte--com todo o prazer ornamental com que presenteia a mulher; o que leva o homem a ver nela todas as perfeições, e a sensibilidade do artista concentra no objecto amado tudo quanto idealiza.
Consciente desses sentimentos do homem, a mulher esforça-se por ir ao encontro da idealização que a cerca; enfeita-se, cuida da aparência, do modo como dança, do modo como há-de exprimir o que pensa em termos delicados; é ainda em função disso que mantém o pudor, o recato, a distância, porquanto sabe, instintivamente, que assim estimula a faculdade de idealização do homem.
A causa da extraordinária acuidade dos instintos femininos, como o pudor, não provém, de modo algum, de uma hipocrisia consciente: a mulher adivinha que é precisamente o pudor real e ingénuo aquilo que mais seduz o homem e o leva a sobrestimá-la. Por isso, é ingénua: por astúcia instintiva, a qual lhe sugere a utilidade da inocência. Ela fecha voluntariamente os olhos, de tal modo que, nos casos em que a dissimulação aumenta inconscientemente, esta acaba por tornar-se mesmo inconsciente

"Nietzsche, Vontade de Poder II

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PERSONALIDADE E AUTO-ESTIMA

A MEMÓRIA _RENÉ MAGRITTE
MODOS DE CONSTRUIR UMA PERSONALIDADE, ou os oito problemas principais:
Queremos simplificar-nos , ou diversificar-nos?
Queremos ser mais felizes, ou mais indiferentes à infelicidade e à desgraça?
Queremos ficar mais satisfeitos connosco, ou mais exigentes e mais impiedosos?
Queremos tornar-nos mais amigáveis, mais indulgentes, mais humanos, ou mais desumanos?
Queremos ser mais prudentes ou mais impulsivos?
Queremos atingir um fim, ou evitar todos os fins-como, por exemplo, faz o filósofo para o qual toda a espécie de fins tresanda, despropositadamente, a limites impostos, mesquinhez, prisão, toleima?
Queremos ser mais respeitados e mais importantes, ou mais desconsiderados?
Queremos tornar-nos tiranos ou impostores? Pastores ou carneiros?

Nietzsche, Vontade de Poder II

domingo, 14 de setembro de 2008

PSICOLOGIA DA NATUREZA HUMANA?

O JOGADOR SECRETO_RENÉ MAGRITTE

Nós só sentimos agrado para com os semelhantes-ou seja, pelas imagens de nós próprios-quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.

Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.

Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.

Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então recebemos uma grande alegria: afinal estamos na mesma situação.

E tal como nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.

Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.

Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efecivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que "no fundo, são uns pobres homens"

Nietzsche, Vontade de Poder II

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

NATUREZA HUMANA

O JÓQUEI PERDIDO_RENÉ MAGRITTE, 1926Este quadro é considerado a primeira obra "surrealista" do pintor

OBEDECER AOS PRÓPRIOS SENTIMENTOS? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso, ou a um impulso de momento, isso não caracteriza um homem; todos são capazes de fazê-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corsário, superam um homem honesto.
O grau de superioridade é vencer em si tal elã e realizar o acto heróico, não por impulso, mas friamente, ponderadamente, sem a expansão do prazer que o acompanha; outro tanto acontece com a piedade: ela há-de ser habitualmente filtrada pela razão, caso contrário, é tão perigosa como qualquer outra emoção. A docilidade cega perante uma emoção-tanto importa que seja generosa ou perigosa como odiosa-é causa dos piores males.
A grandeza de carácter não consiste em não experimentar emoções; pelo contrário, estas são para experimentar no mais elevado grau; a questão é controlá-las, e ainda assim, havendo prazer em modelá-las, em função de algo mais.

Nietzsche, Vontade de Poder vol. II-Res- Editora