terça-feira, 24 de maio de 2011

SUAVIDADE

COMPARTIMENTO C. VAGÃO_EDWARD HOOPER

*****
Ao luar vi os teus olhos
Que de paixão me inflamaram...
Mas foi ao sorrirem tristonhos,
Que, antes de florir, me tocaram!...


Véu de Maya

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AS GRAÇAS NATURAIS


AS GRAÇAS NATURAIS_RENÉ MAGRITTE

*****

" Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti".Ora isto passa por sensatez, por prudência, pelo fundamento da moral, por uma "regra de ouro"! Pelo menos John Stuart Mill e os restantes ingleses acreditam nisso. Contudo, este preceito não resiste ao mais pequeno ataque. Estabelendo que não devemos fazer o que não queremos que nos façam, certas acções ficariam impedidas, com receio das suas consequências; isto, partindo do pressuposto de que todas as acções provocam retribuições...
Que aconteceia se, deitando a mão ao Príncipe se dissesse: "são precisamente tais acções que é preciso praticar, pelo receio de que outros o façam antes e nos impeçam a nós de fazê-lo"...
Pense-se ainda num corso, a quem a honra exige uma vendetta: não é que ele pense apanhar com uma bala na barriga, mas a perspectiva, a probabilidade de apanhar com uma bala não o impedirá de satisfazer a honra...
Em quais acções, dignas de tal nome, seremos nós voluntariamente indiferentes ao resultado que advirá delas? Se evitarmos certas acções porque nos acarretam resultados inconvenientes, então estamos a impedir-nos de qualquer acção digna desse nome.
Em contrapartida, um preceito desses é precioso por revelar um tipo de homens; ele formula o instinto do rebanho, em que todos são iguais, tudo se passa entre iguais: "O que eu te faço, fá-lo ás tu a mim"
Trata-se, positivamente, da crença numa equivalência de acções que nunca acontece e que nunca se verifica em circunstâncias reais. Nem as acções podem esperar reciprocidade! Entre individuos de verdade, não há acções iguais, e retribuições muito menos...
Ao agir, eu sou inteiramente alheio à ideia de que agir do mesmo modo seja possível para qualquer homem: a minha acção diz-me só respeito a mim. Se alguém quiser usar para comigo de retribuição, pode fazê-lo de qualquer outra maneira."  F. Nietzsche

domingo, 22 de maio de 2011

A CULTURA-VALOR EXISTENCIAL DE FUNDO

REMADORES EM CHAMAS_RENOIR

*****
"O que é a cultura, o fim da cultura?
Função da cultura: viver e agir em conformidade com as aspirações mais nobres de um povo.
A cultura é: a imortalidade dos espíritos mais nobres; o reviver um passado exemplar, a fim de ser um exemplo para o futuro.
A cultura consiste em que os mais sublimes momentos de cada geração constituem uma cadeia contínua, no interior da qual  se pode viver. Para o indivíduo, ser culto significa possuir uma tradição contínua de conhecimentos e pensamentos nobres, que ele próprio prolonga"
Nietzsche

sexta-feira, 20 de maio de 2011

OLHAR DE LINCE_NIETZSCHE

 CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
*****
"A facilidade, a segurança, o medo, a preguiça, a cobardia: eis as forças que pretendem privar a vida do seu carácter perigoso e desorganizado.Uma pantominice da ciência económica.
As plantas humanas prosperam mais vigorosamente quando são grandes os perigos e pouco seguras as circunstâncias. Verdade seja que na sua maioria perecem...
A nossa posição no mundo do conhecimento é deveras incerta, e qualquer homem superior dá a impressão de ser um aventureiro"Nietzsche

sábado, 7 de maio de 2011

SONETO À ORGIA DO TEMPO

Photobucket


O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE
*
Hei-de ser, mar e terra e fogo e ar,
quando, por fim, na roda que a tudo sela,
secarem as flores da vida, ao trémulo da vela,
em vestes que só o tempo levará a pratear...
*
E de sublimes versos, saírem cristais,
como fluem das marés, algas e sais;
E de loucas paixões, volúpia e flores,
 em poções felinas, na altivez dos amores...
*
E das fundas dores, cravadas no mundo,
chegarem gritos urgentes, de enlace profundo,
  ao luar da alegria, onde ela nunca vibrou...
*
Até que tudo, por fim, na orgia do tempo,
tal como a vida, ao arder em caos imenso,
volte a ser, no destino, o anel onde brilhou!...

Véu de Maya

quarta-feira, 4 de maio de 2011

VOLÚPIA PURA


SERPENTES DE ÁGUA II_GUSTAV KLIMT

*****
Se a tua volúpia é de espuma,
Mas só flui em meu corpo,
Deixa-a espraiar no meu mar
Que aí serei o teu barco...

Véu de Maya

segunda-feira, 2 de maio de 2011

LONJURA



OS DOIS MISTÉRIOS_RENÉ MAGRITTE
 
*
Não vou por ninguém.
 Vou pela águia que voa
E ao sonhar mais além...
Sou ainda o amor que sopra
E o declínio que vem...
*
Nem vou só por mim
Ou pelo voraz pensamento:
Qual menino na ilusão do momento!
 A cheirar flores no jardim,
sem se lembrar do cinzento.
*
Só vou pela vida
Que é um labirinto sem manto!
E pelos altares da embriaguês
Onde gozo os véus que levanto.
*
Só vou pela vida
Que é o meu mágico encanto!
E pelos voos altos em que a desafio,
Até a fechar no seu último suspiro...
E aí redimí-la de tudo o que é pranto!...

Véu de Maya



segunda-feira, 18 de abril de 2011

INTERVALO...OBRIGADO PELO CARINHO... UMA PÁSCOA FELIZ E DOCINHA...


AS POMBAS_PABLO PICASSO


*****
"Havia um imperador que pensava constantemente na instabilidade de todas as coisas, para que desse modo não pudesse atribuir-lhes demasiada importância e assim ficar em paz. Comigo, a instabilidade produz um efeito bem diferente.Tudo me parece infinitamente mais precioso exactamente porque tudo é fugidio. É como se os vinhos mais preciosos, os manjares mais apetecidos, fossem lançados ao mar" Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O BOSQUE DA PALAVRA

PERSPICÁCIA_RENÉ MAGRITTE

*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
onde o pensamento é como um pássaro longínquo
que mal entardece numa voa logo para outra paragem;
*
A variedade do ser no voo do pensamento
onde a palavra não é só o bosque da realidade
mas o perfume da paixão pela liberdade;
*
a brisa da linguagem nas brechas da realidade
onde o véu enganador do fragmento e da separação
volta a deixar ver inteira e clara a sua primordial união;
*
o espelho do ser e do horizonte
no amor da linguagem e do pensamento
onde ambos se banham na mesma fonte;
*
um raio de luz na névoa do ser
onde a palavra acaricia a frescura dos sentidos
e ao silêncio do pensar os volta a trazer depois de adormecidos;
*
o voo da inspiração e do inefável
onde se aquecem a núvem e o Sol e a promessa
do que no mundo só é real se não se construir à pressa;
*
o amor do pensar na estética da palavra
onde o devir se aquece na lareira do ser
como os foguetes bailam nas horas de festa brava;
*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
e a brisa da linguagem nas brechas da realidade,
onde o véu da aparência mostra agora a claridade;
O espelho do ser e do horizonte
a despertar da soberana fonte
onde todo o sentido é uma ponte;
O voo da inspiração e da aventura
onde todo o sentido já adormecido
volta a voar em filosofia enriquecido!...

Véu de Maya

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ETERNA UTOPIA


A PÁGINA EM BRANCO_RENÉ MAGRITTE

*
É o alvo e a flecha radical
onde o princípio é vencer a preguiça
e a arte é destruir a hidra terrível do mal;
*
O preço do trabalho e o poder da produção
onde se molda a selva feroz dentro do homem
e no mundo os males da escravidão;
*
A criação que traz ao mundo a obra
como a mãe traz à vida a criança
envolta em novelos de esperança;
*
o nó da questão e o cerne da escolha
onde a reflexão se torna profunda
e a vocação se ilumina toda;
*
o apreço à liberdade e o amor ao universal
onde a vida particular só é feliz
se transborda em equilíbrio social;
*
O amor e o ser criativo
onde nascer e participar no mundo
não é coisa apenas de contemplativo;
*
A superação de si e o nobre sacrifício
que arrancam o mundo pela energia da acção
às terríveis correntes da sujeição,
*
É alvo e flecha, ambição e criação,
superação, sacrifício e humanidade;
Luta contra a selva feroz dentro do homem,
e no mundo exterior a si
contra a escravidão e a crueldade;
Amor, justiça, e ser criativo,
não perdido no vapor contemplativo,
e a chama da filosofia ao aquecer o mundo
com obras de fidelidade ao amigo!...

Véu de Maya

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O PERFUME DO ESPÍRITO

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES
*
É o valor da educação na missão das instituições
onde se levanta o contributo e a riqueza de cada geração
para o futuro de todas as gerações;
*
a renovação da herança e o testemunho
onde cada geração honra o tesouro recebido
para o passar com marca original ao futuro enriquecido;
*
a aflição e o incrível vazio
onde as novas gerações se afundam
quando as anteriores perderam o brio;
*
o amor entre as gerações
onde sonham a vida e a felicidade e o futuro
como pilares e orgulho de todas as civilizações;
*
O declínio e o desespero
onde a sociedade e a cultura se desagregam murchas
quando perdem o sal da vida que é o melhor tempero;
*
O sopro da liberdade e as colinas da ambição
onde transbordam no cidadão e nas gerações
o amor pelo universal e o triunfo das realizações;
*
a distância e o choque entre as gerações
onde se separam ou guerreiam sem laços nem sorte
quando a felicidade esmorece e a vida naufraga sem norte;
*
É amor e conflito entre gerações,
atraso e progresso nas civilizações,
herança e testemunho
sobre o que é pobre e valioso e profundo;
Declínio e desespero,
quando na vida e na cultura,
falta a felicidade e o tempero;
Cuidado e realização
na missão de cada geração,
e a filosofia: como amor e libertação!...

Véu de Maya

domingo, 3 de abril de 2011

O LAÇO: VIDA/CULTURA


O BURRO APODRECIDO_S.DALÍ

*
É o apelo da vida à cultura
onde o fluxo criador tanto pode murchar
como renascer e brilhar;
*
O fluido e a seiva criadora
onde se celebram no auge
tempos intensos e uma nova aurora;
*
o declínio e a decadência
onde a vida e a cultura
se esgotam numa pobre doença;
*
o grito e o sono da morte
de Deus, do homem, e da sorte,
quando a vida erra sem arte e sem norte;
*
A luta e o vazio no ser
onde a vida tanto se pode perder
como em novas paixões se acender;
*
o fogo e a chama do viver
onde é impossível deixar de ser
e se prefere o nada ao nada querer;
*
O sonho colectivo e a imaginação
onde a vida e a cultura se fundem
no triunfo de uma alta inspiração;
*
É vida e cultura, luar e seiva criadora,
saúde e doença, declínio e aurora,
morte de Deus, da sorte e do eu;
Vitória sobre si e um novo horizonte,
luta e vazio, paixões novas e os riscos
do nada e até de se perder;
Chama colectiva no fogo do viver,
união frágil da vida e da sabedoria,
na eterna aspiração da filosofia!...

Véu de Maya

quinta-feira, 31 de março de 2011

ALTO INSTANTE


ALUCINAÇÃO PARCIAL_SALVADOR DALÍ

*
É a inocência e o acaso
genéticos no devir do Universo
e selados num cósmico abraço;
*
O abismo e o trágico do Universo
reflectidos no espelho da realidade
como máscaras da sua caprichosa liberdade;
*
A vertigem e a errância da pluralidade
onde todo o equlíbrio é curto e instável
e toda a mediação se revela polaridade;
*
O sonho e a fonte da emoção
onde o prazer do equilíbrio rejubila
na metáfora de uma breve ilusão;
*
O subtil do ser e a sua pluralidade
na roda seminal do Universo,
Onde tudo encobre o verso e o reverso;
*
A luta do nobre e da vilania
no ponto em que se chocam os opostos
como a liberdade e a tirania;
*
O sim pleno e a afirmação criadora
onde a árvore gera os frutos
e o artista cria a obra;
*
É inocência e acaso, jogo e cósmico devir,
 onde tudo o que chega volta a partir;
Rotação na flecha da instabilidade,
o caos cifrado à racionalidade
e os simulacros ao espelho da verdade;
Celebração exaltante e comovente
da liberdade contra a tirania,
e árvore que gera os frutos no solo
    profundo e fértil da filosofia!...

Véu de Maya

segunda-feira, 28 de março de 2011

LOUCO INSTANTE

LIVROS_SANDRO BOTTICELLI

*
É a visão e o olhar
que se fundem com o Mundo
até no seu espelho poder brilhar;
*
O voo e a lonjura
que sublimam na natureza o caos
e na sociedade mobilizam a cultura;
*
A proeza e a emoção da arte
que capturam as borboletas à vida
até as pôr a voar em obra de arte;
*
A coragem e a rebeldia
que se unem à sinceridade
para não dar tréguas à hipocrisia;
*
O mistério e o que nos ultrapassa
no pequeno e grande dos nossos actos
e nos deixa de olhos abertos estupefactos;
*
O rio e o caudal da corrente
que banham tudo o que é espesso e breve
a partir do lugar da nascente;
*
O trágico e o resto da vida que fica
como se fosse uma velha comédia
entre o bucha e o estica;
*
É olhar e visão, espanto e rebeldia,
coragem contra a hipocrisia,
lealdade na vida e na arte;
União viva do todo com a parte,
caminho e superação,
altivez e estrada incerta;
E no efémero que corre à hora certa,
transita inquieta, mas ampla, a filosofia,
 ilha de luz livre, e à vida entreaberta!...

Véu de Maya

quinta-feira, 24 de março de 2011

O INSTANTE ABSOLUTO

*
É a manhã e a alvorada
que arrancam o ser à inércia
até nascer nele uma nova morada;
*
a noite e as portas do labirinto
que rasgam clareiras ao caos
até brilhar nele o infinito;
*
o meio-dia e o zenite solar
que derramam energia sobre as taças
dos amantes da vida e do criar;
*
a meia-noite e os pressentimentos
que festejam a vida aos sons da guitarra
até tudo se afinar em explosão de sentimentos;
*
a chaga infeliz e os desmazelos
em que a vida e a cultura se afundam
até o homem quebrar os medos:
*
a festa e a nascente primordial
onde tudo se canta na música da vida
como num barco ondulante em alto mar;
*
o instante e a luz do pensamento
onde o ser celebra sem arrependimento
o nascer e o morrer do próprio tempo;
*
É expansão e Universo, verso e reverso,
o ser escrito no perfume de um só verso;
A metáfora da vida abundante
mesmo a perdida e a errante;
Os amantes do ser e do pensar
orgulhosos de ser um para o outro
toda a alegria da incerteza
no jogo do seu próprio caminhar!...

Véu de Maya

quinta-feira, 17 de março de 2011

ALTO LUAR...


LEDA E O CISNE_LEONARDO DA VINCI
*****
Do luar que brilha em teus olhos
Já avisto o teu pomar...
Mas é na embriaguês dos meus sonhos,
  Que te mimo, com espelhos de enfeitiçar!...

Véu de Maya

quarta-feira, 16 de março de 2011

BARUCH ESPINOZA...DÁ QUE PENSAR?

CLEÓPATRA E O CAMPONÊS_DELACROIX
*****
Deus dissera:

" Deixa de viver a rezar e a bater no peito! O que quero que faças é que salgues o mundo e desfrutes da tua vida.
Quero que gozes, que cantes, que te divirtas e que desfrutes de tudo o que criei para ti.
Deixa de frequentar esses templos lúgubres, obscuros e frios, que tu mesmo construiste e que dizes que são a minha casa.
A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos ríos, nos lagos, nas praias. Aí é onde eu vivo e expresso o meu amor por ti.
Deixa de me culpar pela tua vida miserável; nunca te acusei de haver mal em ti ou que eras um pecador, ou que a tua sexualidade fosse algo de mal.
O sexo é um regalo que te ofereci e com o qual podes expressar o teu amor,o teu êxtase, a tua alegría. Assim não me culpes a mim por tudo em que te fizeram acreditar.
Deixa de estar a ler supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não não és capaz de ler-me num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos , nos olhos do teu filho, então, não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de pedir-me. Vais-me dizer a mim, como fazer o meu trabalho?
Deixa de ter tanto medo.Eu não te julgo, nem te critico, nem me aborreço, nem me molesto, nem castigo. Eu sou puro amor.
Deixa de pedir-me perdão, não há nada que perdoar. Se te fiz... te cumulei de paixões, de limitacões, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências... do livre arbítrio. Como poderia culpar-te de algo que gravei em ti, se espelhas algo que eu deixei em ti? Cómo posso castigar-te por seres como és, se sou eu quem te fiz? Crês que poderia criar un lugar para queimar todos os meus filhos que se portam mal, para o resto da eternidade. Qué espécie de deus louco pode fazer isso?
Olvída-te de qualquer tipo de mandamentos, de qualquer tipo de leis; elas são artimanhas para manipular-te, para controlar-te, que só injectam culpa em ti. Respeita os teus semelhantes e não faças o que o que não quererias para ti. A única coisa que te peço é que ponhas atenção à tua vida, que o teu estado de alerta seja o teu guia.
Amado meu, esta vida não é uma prova, nem uma escadaria, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio ao paraíso. Esta vida é a unica que há, aquí e agora, e a única de que necessitas.
Fiz-te absolutamente livre, não há prémios nem castigos, não há pecados nem virtudes, nada traz mácula, nada traz un registo.
És absolutamente livre de crer na tua vida, no céu ou no inferno.
Não te posso dizer, si há algo depois da vida, mas posso dar-te um conselho. Vive como se não houvesse. Como se esta fosse a tua única oportunidade de desfrutar, de amar, de existir.
Assim, se não houver nada, terás desfrutado da oportunidade que te dei.
E se houver, toma por certo que não te vou perguntar se te portaste bem ou mal. Vou-te perguntar: gostaste?... divertiste-te?... O que foi que mais desfrutaste? Que aprendeste?...
Deixa de crer em mim; crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que creias em mim, quero que me sintas em ti. Quiero que me sintas em ti quando beijas a tua amada, quando proteges a tua filha, quando acaricias o teu cão, quando te banhas no mar.
Deixa de louvar-me. Que tipo de Deus ególatra acreditas que sou?
Aborrece-me que me adulem, cansa-me que me agradeçam. Sentes-te agradecido? Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tus relacões com o mundo. Sentes-te observado, sobrepensado?..Expressa a tua alegría! Essa é a forma de me louvar.
Deixa de complicar as coisas e de repetir como perigo o que te ensinaram acerca de mim. O único dado seguro é que estás aquí, que estás vivo, que este mundo está cheio de maravilhas. Para que necessitas de mais milagres? Para quê tantas explicacões? Não me procures além, não me encontrarás. Busca-me dentro... aí estou, pulsando em ti.

Baruch Spinoza


domingo, 13 de março de 2011

NÉVOAS DE SOLITÁRIO


DUAS MENINAS AO PIANO_RENOIR
*
Escuto a rebeldia do silêncio
Em sopro de energia cifrada
Que já não é refúgio de nada,
Mas chama pura e sagrada;
*
Vejo a textura do Mundo,
opaca, em voragem acelerada,
Que já não é angústia de nada,
Mas máscara desperdiçada;
*
Tacteio a errância do Universo
Num trotear tão incerto...
Que nem sei se é caos em verso,
Ou trágico puro entreaberto!
*
Mas nesta lupa, pura e obscura,
Rasgo sobre o abismo do Mundo
O véu de um olhar profundo,
Em que a vertigem retorna e perdura:
*
Na roda da multidão, que é tão pobre,
E no silêncio virginal, que é tão profundo...
Até entoar no coração do Mundo
Este fado, cujo destino é ser nobre!...


Véu de Maya

domingo, 6 de março de 2011

RENDAS FINAS

ABELHA NO PÓLEN DA FLOR
*****
Entre o prazer dos beijos,
bordados em volúpia de lábios,
E a renda fina dos folhos,
perdida na ternura dos prados!
Fica a lua-cheia em desejos...
E a felicidade boémia nos olhos,
Que é como a abelha nos favos...

Véu de Maya

quinta-feira, 3 de março de 2011

ESPELHOS POR BEIJOS

CAMPO DE FLORES NA TOSCÂNIA

*****
Em teus olhos brincam sonhos,
E nos meus vibram desejos,
Mas é aos acordes da alma...
Que eles se embriagam risonhos!
E trocam espelhos por beijos...

Véu de Maya