domingo, 26 de junho de 2011

A DANÇA DA VIDA
















MAS QUE BELA ADVERTÊNCIA DE NIETZSCHE?

INTERIOR COM DUAS MENINAS A DESENHAR_PICASSO

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Um artista capaz, ou um sábio, dá uma boa impressão quando exprime a sua altivez na arte e olha a vida com satisfação e segurança. Contrariamente, nada de mais lamentável do que um cordeiro ou um mestre-escola, quando deixam transparecer, com ar doloroso, que nasceram para outros destinos. O óptimo é inimigo do bom, e bom é possuir uma capacidade qualquer e agir em consequência disso: ter uma virtude no sentido renascentista.
Actualmente, onde quer que o Estado tenha uma enorme pança aparecem, em todos os domínios e em todas as especialidades, além dos trabalhadores propriamente ditos, representantes do trabalho-nomeadamente da banda dos sábios e dos literatos. Do lado das classes populares sofredoras estão sempre os inúteis, os palradores e os fanfarrões, em representação de reais sofrimentos; isto sem falar dos políticos profissionais, que dispõem de todas as comodidades, mas que representam todas essas misérias no Parlamento à força de brados.
A nossa vida moderna é extremamente dispendiosa, em virtude da multidão de intermediários. Numa cidade antiga, pelo contrário-e ainda em certas vilas de Espanha ou de Itália-cada um se defendia a si próprio[por vezes a pontapé] e ninguém concedia o menor crédito a este género de representantes e defensores.

Friedrich Nietzsche, Vontade de Poder, Vol I, Res Editora.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

SUBTILEZAS DE ESPÍRITO_NIETZSCHE

LE CHAHUT_GEORGES SEURAT

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"Actualmente, é necessário falar por vezes grosseiramente e agir de igual modo. Ninguém, nem mesmo aqueles que nos são mais chegados, já compreende as delicadezas e os subententendidos.
Aquilo que não for proferido alto, o que não é gritado não existe. A dor, as privações, a vocação, o prolongado dever e o grande triunfo sobre si mesmo...ninguém nota nada, ninguém adivinha nada,
A jovialidade passa por falta de profundidade; ainda que ela seja por vezes a alegria que sucede a uma longa e excessiva tensão, quem detecta isso?
tenho convivido com actores e tenho-me esforçado por mostrar-lhes respeito. Contudo ninguém pode imaginar como é doloroso e penoso viver com comediantes, ou então com qualquer desfrutador fleumático, com espírito que baste"...
Friedrich Nietzsche

sábado, 18 de junho de 2011

PARA ONDE VAIS...EUROPA?


VÉNUS E MARTE-PORMENOR-BOTTICELLI

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Os dois traços que caracterizam os europeus modernos parecem ser contraditórios: o individualismo e o igualitarismo. mas eu acabei por compreender.
Efectivamente, o indivíduo é duma vaidade infinitamente vulnerável: sabendo como essa vaidade é susceptível de sofrer, exige de todos os outros homens o reconhecimento da igualdade, para que possa estar sempre inter pares. É isso que caracteriza uma raça social em que, de facto, os dons e as energias não se mostram sensivelmente diferentes. O orgulho dos poucos que esperam viver em solidão e receber estima não é compreendido por ninguém. Os únicos grandes sucessos são sucessos de massas. Não é sequer entendido que qualquer sucesso de massas só pode ser um pequeno sucesso-pois que pulchrum est paucorum hominum.
Todas as morais ignoram a hierarquia entre os homens. Os juristas ignoram a consciência colectiva. O princípio individualista elimina os grandes homens e exige aos homens aproximadamente iguais que saibam, graças a um mais penetrante olhar, a uma mais viva lucidez, destacar os talentos. Nas civilizações mais recentes e refinadas, qualquer homem que tenha algum talento pode esperar receber parte das honras que lhe são devidas e que sejam exaltados como nunca, os mínimos méritos.
Isto tudo dá ao nosso tempo um verniz de extrema equidade.Um furor sem limites é desenvolvido, não contra a injustiça, contra os tiranos, ou contra os demagogos-o mesmo acontece em relação às artes-mas contra os homens superiores, os quais desprezam os louvores da multidão. A reivindicação de direitos iguais, [por exemplo, o direito de poder julgar seja o que for] é anti-aristocrática...
O tempo ignora igualmente o apagamento voluntário do individuo, a vontade dele em sumir-se no interior dum tipo colectivo, de não representar uma pessoa. Era nisso que outrora consistia o valor e o esforço de tantos grandes espíritos[entre eles os grandes poetas]; a vontade de não ser mais do que a cidade, na Grécia; o jesuitismo, o espírito e corpo dos oficiais e funcionários prussianos; a necessidade de ser o discípulo ou o continuador dos grandes mestres-tudo coisas de que necessita quem vie fora da sociedade e que permanece isento de vaidades mesquinhas"

Nietzsche, Vontade de Poder, vol I, Res Editora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ACERCA DA DECADÊNCIA...NIETZSCHE.

HOMEM E MULHER CONTEMPLANDO A LUA_G.DAVID FRIEDRICH

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1. Não é que a degradação, o declínio, a degenerescência sejam em si condenáveis:são consequências necessárias da vida, do desenvolvimento da vida. O fenómeno decadência é tão necessário como qualquer outro fenómeno de ascensão e progressão da vida, o qual não podemos suprimir; pelo contrário, a razão exige que se lhe preste justça.
É uma vergonha que todos os teóricos socialistas acreditem que venham a existir circunstâncias, conjunturas sociais, em que o vício, a doença, o crime, a prostituição, a miséria deixem de aumentar-o que seria condenar a vida.
Uma sociedade não pode impedir-se de permanecer jovem; na plenitude da sua força, ela produz  necessáriamente podridões e dejectos. Quanto mais energicamente, mais arduamente ela progredir, mais rica se torna em mazelas, em formas monstruosas-mais se aproxima do declínio. Nem a velhice pode ser suprimida à força das insituições...nem a doença...nem o vício.

2.O cepticismo é uma consequência da decadência, bem como a libertinagem do espírito.
A corrupção dos costumes é uma sequência da decadência, por fraqueza da vontade, necessidade de estímulos fortes. As terapêuticas psicológicas e morais não alteram em nada o curso da decadência, nem a param; são fisiologicamente nulas. Há mesmo que compreender a grande nulidade de pretensas soluções-formas de narcose que acarretam consequências fatais e que não expulsam os elementos mórbidos-que não passam de tentativas, muitas vezes heróicas, para neutralizar o homem decadente, para reduzir-lhe, na medida do possível, a nocividade.
O bom e o mau são dois tipos decadentes, solidários em todos os fenómenos fundamentais.
A questão social é uma consequêcia da decadência.
As doenças, sobretudo as doenças nervosas e mentais são um sinal de que falta a força defensiva das naturezas vigorosas; a irritabilidade que faz do prazer e da dor problemas fundamentais, prova isso.

3.Eu destrinço um tipo de vida ascendente e um tipo de vida decadente-de decomposição, de fraqueza.Pelo que me parece a questão de preeminência entre estes dois tipos é ainda imprecisa.

Nietzsche, Vontade de Poder, I, Res Editora.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

PERSPECTIVAS DE NIETZSCHE SOBRE O NIILISMO...VALE A PENA PENSAR.


A CALÚNIA DE APELES_SANDRO BOTTICELLI

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É normal, o niilismo. Pode ser um sinal de força-a força de um espírito pode ter aumentado tanto, que os anteriores fins[convicções, artigos de fé...] não acompanham a sua medida. De facto, uma crença exprime geralmente a força constrangedora de certas condições de existência-a submissão à autoridade, nas circunstâncias únicas em que o ser pode prosperar, crescer, adquirir poder. Mas há também que considerá-lo como sinal de que falta força suficiente para gerar a proposta de um novo fim, de um porquê, de uma fé.
O niilismo atinge o seu máximo de força relativa na forma de força violenta e destrutiva-de niilismo activo. Como seu contrário, terá o niilismo lasso, que não é atacante, e cuja forma mais ilustre é expressa pelo budismo, pelo niilismo passivo-sinal de fraqueza.
O vigor do espírito pode afrouxar, esgotar-se  tal ponto, que os fins e os valores precedentes já não se lhe adequam e nem são acolhidos por nova crença, acontecendo que a síntese de  valores e fins[em que qualquer civilização forte assente] possam dissociar-se, entrar em choque com valores isolados e dar-se assim a decomposição. Então tudo aquilo que reconforta, cura, acalma, anestesia, surge em primeiro plano revestido de disfarces vários: religiosos ou morais, filosóficos, estéticos. Nietzsche, Vontade de Poder, vol I-Res editora

domingo, 12 de junho de 2011

SOBRE O NIILISMO_NIETZSCHE_ MAS QUE REFLEXÃO IMPERDÍVEL!


O  CICERONE_RENÉ MAGRITTE

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O niilismo, enquanto estado psicológico, manifestar-se-á logo que tenhamos procurado nos factos um sentido-que eles não possuem. isso desanimará por completo quem procura esse sentido. O niilismo consiste então num prolongado desgaste de forças, na tortura de se ter actuado em vão, na insegurança, na impossibilidade de refazer forças, de obter um pouco de tranquilidade; na íntima vergonha de demasiado tempo se persistir num engano.
O sentido da vida poderia consistir em descortinar, através do devir a formação de um cánone moral elevado, a ordem moral do universo; ou ao menos um aumento de amor e harmonia entre os seres, ou a aproximação de um estado de felicidade universal; ou então o elã para um nada universal-qualquer que fosse o fim ele significaria um sentido.
Estas e outras que tais concepções têm como traço comum um processo que propende a um fim; entretanto compreende-se actualmente que o devir não propende a nada, não alcança nada. A decepção acerca dum pretenso fim do devir é portanto uma das causas do niilismo; quer se trate da ausência de um fim definido ou, genericamente, da insuficiência de todas as hipóteses finalistas relativas ao conjunto da evolução, o homem em nada influi no devir, e menos ainda é o centro dele.
O niilismo psicológico manifesta-se a seguir, quando é suposta uma totalidade, uma sistematização-ou melhor  uma organização-no interior dos factos e entre todos os factos. Não obstante, uma alma que esteja repleta de admiração e de veneração, delicia-se em imaginar uma forma suprema de domínio e de organização; tratando-se da alma de um homem lógico, bastar-lhe- á a consequência absoluta e a dialéctica precisa para que tudo se concilie imaginando um jeito de unidade, uma qualquer forma de monismo, em consequência de uma crença dessas, o homem é tomado por um sentimento profundo de correlação e de dependência perante um todo que o ultrapassa e em que ele é uma simples manifestação da divindade..." o bem geral exige o devotamento do indivíduo"...mas esse geral não existe!
No fundo o homem perdeu a fé no seu próprio valor, ao não admitir que é por meio dele que uma colectividade preciosa actua. Ele imaginou então essa colectividade, para poder acreditar no seu próprio valor.
O niilismo psicológico apresenta ainda uma última forma.Uma vez admitidos os dois aspectos citados-o de que o devir não tem um fim, e o de que não é dirigido por por qualquer grande unidade, em que o individuo possa mergulhar completamente, como num elemento de supremo valor-deixa apenas uma saída possível: condenar este mundo do devir. como sendo ilusório e inventar um mundo situado no além, o qual seria o mundo verdadeiro. Mas logo que o homem descobre que esse mundo é construído em função das suas próprias necessidades psicológicas e que não é de modo algum de molde a ser credível, começa a destacar-se a última forma de niilismo: a qual implica a negação do mundo metafísico e a recusa em acreditar num mundo verdadeiro.Atingindo nós este último estádio, a realidade do devir aparece-nos como a única realidade, e todos os caminhos contornantes dela-ou conducentes à crença noutros mundos e em falsos deuses, se tornam tão insuportáveis que já nem apetece negá-los.
Que terá acontecido então? Que chegamos ao sentimento do não-valor da existência, por compreendermos que ela não pode ser interpretada em conjunto-nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não atingimos nada: falta a unidade global, na pluralidade do devir; o carácter da existência não está em ser verdadeira mas em ser falsa; não há qualquer razão para nos persuadirmos que existe um mundo verdadeiro.
Em suma: as catgorias fim, unidade, verdade-mercê das quais tem sido atribuído um valor ao mundo-são suprimidas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
Admitindo que tenhamos, a qualquer título, reconhecido o mundo como inexplicável por meio dessas mesmas três categorias e que, após uma tal constatação, ele começa a perder para nós todo o valor, sentimo-nos obrigados a perguntar a nós próprios donde vem a nossa crença nessas três categorias, e procuramos saber se não é possível doravante rejeitar a nossa crença.
Pelo facto de chegarmos a depreciar essas três categorias, como inaplicáveis ao universo, isso não será motivo para depreciarmos o universo.O que resulta sim, é que a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo, pois que temos achado a medida do valor do mundo a partir de categorias aplicáveis somente a um mundo puramente fictício.

como resultado final: todos os valores em que nos temos apoiado até agora para tentarmos atribuir valor ao mundo-e que apenas conseguiram rebaixar-lhe o preço-todos esses valores são, debaixo do ponto de vista psicológico, o resultado de certas perspectivas, bem definidas, de utilidade, destinadas a manter e a fortificar certas formas de domínio humano, errradamente projectadas na essência das coisas. Mais uma vez estamos perante a ingenuidade hiperbólica do Homem-que se toma pelo sentido e pela medida das coisas. Nietzsche-A vontade de Poder-vol I-O niilismo europeu, RES Editora


quinta-feira, 9 de junho de 2011

O SOPRO DE VÉNUS


O NASCIMENTO DE VÉNUS_S. BOTTICELLI

*
É a reflexão e o preço do conhecimento
que quebram na estupidez a ignorância
e a ausência do pensamento;
*
a invenção e a luta contra a doença
que as luzes da razão proporcionam à ciência
para elevar a saúde à sua plena existência;
*
O desejo sem fim e o sopro da perfeição
que emergem do núcleo do mito para o fazer 
 florescer e irradiar até à grande ilusão;
*
a  visão sensível e o cósmico radar
que se libertam entre a imaginação e a realidade
até chegar ao cume duma incontornável verdade;
*
o olhar inquieto e o impulso da criação
que imperam como pássaros longínquos
no cume do ser e da veneração;
*
a nobre causa e a terrível missão
que quebram na vontade as máscaras da ilusão
até bater nela ardente e feliz o coração;
*
a chama do fogo e a roda da invenção
que gravam na cultura da memória
os tesouros e os desvarios da civilização;
*
É reflexão e instinto, lucidez e vontade,
poderes telúricos às portas da verdade
contra as ilusões caprichosas da liberdade,
às voltas no carrossel da vaidade
e para o Mundo mais dor do que felicidade;
É a pergunta subtil e certeira: ser ou não ser,
a vertigem do homem face à realidade
que o engloba e interpela ,
sem jamais poder sair dela!...

Véu de Maya

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O SILÊNCIO E OS VÉUS DA PALAVRA


O VIOLANCELISTA_MODIGLIANI
*
É a invisibilidade na vida dos seres
onde os véus da aparência a escondem na obscuridade
até o vigor do pensamento a transformar em visibilidade;
*
a expansão e o limite de todo o existente
onde cada ser cresce e esmorece mas só a interdependência
domina com força igual à de uma marca consistente;
*
o trágico devir na contradição do ser
onde todo o vivo se afunda no vazio do não ser
e no insondável enigma do que está ainda por acontecer;
*
o jogo das possibilidades infindáveis
no heróico combate frente ao empolgante Universo
onde tudo é igual à relação consigo e com o inverso;
*
o oráculo do futuro e as pontes para lá chegar
onde o jogo da possibilidade cede à roda da realidade
e inverte a enorme contingência em férrea necessidade;
*
O pulsar no caminho invisível dos seres
onde transita a dor e a alegria dos mortais
que o véu da aparência esconde ao revelar os sinais;
*
a sensibilidade e a imaginação
que se fundem no coração da realidade
onde o invisível aspira também a ser visibilidade;

*
É visibilidade e invisibilidade,
ponte entre a obscuridade e a claridade
até chegar a ser chave, morada e liberdade;
Os véus do Universo cifrado e os trajectos humanos,
lá no fundo uma floresta de enganos
só vencida por destinos sobre-humanos;
O silêncio no pulsar íntimo dos seres
selado pelo véu da invisibildade
até a filosofia o trazer à claridade!...

Véu de Maya