segunda-feira, 20 de junho de 2011

SUBTILEZAS DE ESPÍRITO_NIETZSCHE

LE CHAHUT_GEORGES SEURAT

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"Actualmente, é necessário falar por vezes grosseiramente e agir de igual modo. Ninguém, nem mesmo aqueles que nos são mais chegados, já compreende as delicadezas e os subententendidos.
Aquilo que não for proferido alto, o que não é gritado não existe. A dor, as privações, a vocação, o prolongado dever e o grande triunfo sobre si mesmo...ninguém nota nada, ninguém adivinha nada,
A jovialidade passa por falta de profundidade; ainda que ela seja por vezes a alegria que sucede a uma longa e excessiva tensão, quem detecta isso?
tenho convivido com actores e tenho-me esforçado por mostrar-lhes respeito. Contudo ninguém pode imaginar como é doloroso e penoso viver com comediantes, ou então com qualquer desfrutador fleumático, com espírito que baste"...
Friedrich Nietzsche

sábado, 18 de junho de 2011

PARA ONDE VAIS...EUROPA?


VÉNUS E MARTE-PORMENOR-BOTTICELLI

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Os dois traços que caracterizam os europeus modernos parecem ser contraditórios: o individualismo e o igualitarismo. mas eu acabei por compreender.
Efectivamente, o indivíduo é duma vaidade infinitamente vulnerável: sabendo como essa vaidade é susceptível de sofrer, exige de todos os outros homens o reconhecimento da igualdade, para que possa estar sempre inter pares. É isso que caracteriza uma raça social em que, de facto, os dons e as energias não se mostram sensivelmente diferentes. O orgulho dos poucos que esperam viver em solidão e receber estima não é compreendido por ninguém. Os únicos grandes sucessos são sucessos de massas. Não é sequer entendido que qualquer sucesso de massas só pode ser um pequeno sucesso-pois que pulchrum est paucorum hominum.
Todas as morais ignoram a hierarquia entre os homens. Os juristas ignoram a consciência colectiva. O princípio individualista elimina os grandes homens e exige aos homens aproximadamente iguais que saibam, graças a um mais penetrante olhar, a uma mais viva lucidez, destacar os talentos. Nas civilizações mais recentes e refinadas, qualquer homem que tenha algum talento pode esperar receber parte das honras que lhe são devidas e que sejam exaltados como nunca, os mínimos méritos.
Isto tudo dá ao nosso tempo um verniz de extrema equidade.Um furor sem limites é desenvolvido, não contra a injustiça, contra os tiranos, ou contra os demagogos-o mesmo acontece em relação às artes-mas contra os homens superiores, os quais desprezam os louvores da multidão. A reivindicação de direitos iguais, [por exemplo, o direito de poder julgar seja o que for] é anti-aristocrática...
O tempo ignora igualmente o apagamento voluntário do individuo, a vontade dele em sumir-se no interior dum tipo colectivo, de não representar uma pessoa. Era nisso que outrora consistia o valor e o esforço de tantos grandes espíritos[entre eles os grandes poetas]; a vontade de não ser mais do que a cidade, na Grécia; o jesuitismo, o espírito e corpo dos oficiais e funcionários prussianos; a necessidade de ser o discípulo ou o continuador dos grandes mestres-tudo coisas de que necessita quem vie fora da sociedade e que permanece isento de vaidades mesquinhas"

Nietzsche, Vontade de Poder, vol I, Res Editora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ACERCA DA DECADÊNCIA...NIETZSCHE.

HOMEM E MULHER CONTEMPLANDO A LUA_G.DAVID FRIEDRICH

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1. Não é que a degradação, o declínio, a degenerescência sejam em si condenáveis:são consequências necessárias da vida, do desenvolvimento da vida. O fenómeno decadência é tão necessário como qualquer outro fenómeno de ascensão e progressão da vida, o qual não podemos suprimir; pelo contrário, a razão exige que se lhe preste justça.
É uma vergonha que todos os teóricos socialistas acreditem que venham a existir circunstâncias, conjunturas sociais, em que o vício, a doença, o crime, a prostituição, a miséria deixem de aumentar-o que seria condenar a vida.
Uma sociedade não pode impedir-se de permanecer jovem; na plenitude da sua força, ela produz  necessáriamente podridões e dejectos. Quanto mais energicamente, mais arduamente ela progredir, mais rica se torna em mazelas, em formas monstruosas-mais se aproxima do declínio. Nem a velhice pode ser suprimida à força das insituições...nem a doença...nem o vício.

2.O cepticismo é uma consequência da decadência, bem como a libertinagem do espírito.
A corrupção dos costumes é uma sequência da decadência, por fraqueza da vontade, necessidade de estímulos fortes. As terapêuticas psicológicas e morais não alteram em nada o curso da decadência, nem a param; são fisiologicamente nulas. Há mesmo que compreender a grande nulidade de pretensas soluções-formas de narcose que acarretam consequências fatais e que não expulsam os elementos mórbidos-que não passam de tentativas, muitas vezes heróicas, para neutralizar o homem decadente, para reduzir-lhe, na medida do possível, a nocividade.
O bom e o mau são dois tipos decadentes, solidários em todos os fenómenos fundamentais.
A questão social é uma consequêcia da decadência.
As doenças, sobretudo as doenças nervosas e mentais são um sinal de que falta a força defensiva das naturezas vigorosas; a irritabilidade que faz do prazer e da dor problemas fundamentais, prova isso.

3.Eu destrinço um tipo de vida ascendente e um tipo de vida decadente-de decomposição, de fraqueza.Pelo que me parece a questão de preeminência entre estes dois tipos é ainda imprecisa.

Nietzsche, Vontade de Poder, I, Res Editora.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

PERSPECTIVAS DE NIETZSCHE SOBRE O NIILISMO...VALE A PENA PENSAR.


A CALÚNIA DE APELES_SANDRO BOTTICELLI

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É normal, o niilismo. Pode ser um sinal de força-a força de um espírito pode ter aumentado tanto, que os anteriores fins[convicções, artigos de fé...] não acompanham a sua medida. De facto, uma crença exprime geralmente a força constrangedora de certas condições de existência-a submissão à autoridade, nas circunstâncias únicas em que o ser pode prosperar, crescer, adquirir poder. Mas há também que considerá-lo como sinal de que falta força suficiente para gerar a proposta de um novo fim, de um porquê, de uma fé.
O niilismo atinge o seu máximo de força relativa na forma de força violenta e destrutiva-de niilismo activo. Como seu contrário, terá o niilismo lasso, que não é atacante, e cuja forma mais ilustre é expressa pelo budismo, pelo niilismo passivo-sinal de fraqueza.
O vigor do espírito pode afrouxar, esgotar-se  tal ponto, que os fins e os valores precedentes já não se lhe adequam e nem são acolhidos por nova crença, acontecendo que a síntese de  valores e fins[em que qualquer civilização forte assente] possam dissociar-se, entrar em choque com valores isolados e dar-se assim a decomposição. Então tudo aquilo que reconforta, cura, acalma, anestesia, surge em primeiro plano revestido de disfarces vários: religiosos ou morais, filosóficos, estéticos. Nietzsche, Vontade de Poder, vol I-Res editora

domingo, 12 de junho de 2011

SOBRE O NIILISMO_NIETZSCHE_ MAS QUE REFLEXÃO IMPERDÍVEL!


O  CICERONE_RENÉ MAGRITTE

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O niilismo, enquanto estado psicológico, manifestar-se-á logo que tenhamos procurado nos factos um sentido-que eles não possuem. isso desanimará por completo quem procura esse sentido. O niilismo consiste então num prolongado desgaste de forças, na tortura de se ter actuado em vão, na insegurança, na impossibilidade de refazer forças, de obter um pouco de tranquilidade; na íntima vergonha de demasiado tempo se persistir num engano.
O sentido da vida poderia consistir em descortinar, através do devir a formação de um cánone moral elevado, a ordem moral do universo; ou ao menos um aumento de amor e harmonia entre os seres, ou a aproximação de um estado de felicidade universal; ou então o elã para um nada universal-qualquer que fosse o fim ele significaria um sentido.
Estas e outras que tais concepções têm como traço comum um processo que propende a um fim; entretanto compreende-se actualmente que o devir não propende a nada, não alcança nada. A decepção acerca dum pretenso fim do devir é portanto uma das causas do niilismo; quer se trate da ausência de um fim definido ou, genericamente, da insuficiência de todas as hipóteses finalistas relativas ao conjunto da evolução, o homem em nada influi no devir, e menos ainda é o centro dele.
O niilismo psicológico manifesta-se a seguir, quando é suposta uma totalidade, uma sistematização-ou melhor  uma organização-no interior dos factos e entre todos os factos. Não obstante, uma alma que esteja repleta de admiração e de veneração, delicia-se em imaginar uma forma suprema de domínio e de organização; tratando-se da alma de um homem lógico, bastar-lhe- á a consequência absoluta e a dialéctica precisa para que tudo se concilie imaginando um jeito de unidade, uma qualquer forma de monismo, em consequência de uma crença dessas, o homem é tomado por um sentimento profundo de correlação e de dependência perante um todo que o ultrapassa e em que ele é uma simples manifestação da divindade..." o bem geral exige o devotamento do indivíduo"...mas esse geral não existe!
No fundo o homem perdeu a fé no seu próprio valor, ao não admitir que é por meio dele que uma colectividade preciosa actua. Ele imaginou então essa colectividade, para poder acreditar no seu próprio valor.
O niilismo psicológico apresenta ainda uma última forma.Uma vez admitidos os dois aspectos citados-o de que o devir não tem um fim, e o de que não é dirigido por por qualquer grande unidade, em que o individuo possa mergulhar completamente, como num elemento de supremo valor-deixa apenas uma saída possível: condenar este mundo do devir. como sendo ilusório e inventar um mundo situado no além, o qual seria o mundo verdadeiro. Mas logo que o homem descobre que esse mundo é construído em função das suas próprias necessidades psicológicas e que não é de modo algum de molde a ser credível, começa a destacar-se a última forma de niilismo: a qual implica a negação do mundo metafísico e a recusa em acreditar num mundo verdadeiro.Atingindo nós este último estádio, a realidade do devir aparece-nos como a única realidade, e todos os caminhos contornantes dela-ou conducentes à crença noutros mundos e em falsos deuses, se tornam tão insuportáveis que já nem apetece negá-los.
Que terá acontecido então? Que chegamos ao sentimento do não-valor da existência, por compreendermos que ela não pode ser interpretada em conjunto-nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não atingimos nada: falta a unidade global, na pluralidade do devir; o carácter da existência não está em ser verdadeira mas em ser falsa; não há qualquer razão para nos persuadirmos que existe um mundo verdadeiro.
Em suma: as catgorias fim, unidade, verdade-mercê das quais tem sido atribuído um valor ao mundo-são suprimidas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
Admitindo que tenhamos, a qualquer título, reconhecido o mundo como inexplicável por meio dessas mesmas três categorias e que, após uma tal constatação, ele começa a perder para nós todo o valor, sentimo-nos obrigados a perguntar a nós próprios donde vem a nossa crença nessas três categorias, e procuramos saber se não é possível doravante rejeitar a nossa crença.
Pelo facto de chegarmos a depreciar essas três categorias, como inaplicáveis ao universo, isso não será motivo para depreciarmos o universo.O que resulta sim, é que a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo, pois que temos achado a medida do valor do mundo a partir de categorias aplicáveis somente a um mundo puramente fictício.

como resultado final: todos os valores em que nos temos apoiado até agora para tentarmos atribuir valor ao mundo-e que apenas conseguiram rebaixar-lhe o preço-todos esses valores são, debaixo do ponto de vista psicológico, o resultado de certas perspectivas, bem definidas, de utilidade, destinadas a manter e a fortificar certas formas de domínio humano, errradamente projectadas na essência das coisas. Mais uma vez estamos perante a ingenuidade hiperbólica do Homem-que se toma pelo sentido e pela medida das coisas. Nietzsche-A vontade de Poder-vol I-O niilismo europeu, RES Editora


quinta-feira, 9 de junho de 2011

O SOPRO DE VÉNUS


O NASCIMENTO DE VÉNUS_S. BOTTICELLI

*
É a reflexão e o preço do conhecimento
que quebram na estupidez a ignorância
e a ausência do pensamento;
*
a invenção e a luta contra a doença
que as luzes da razão proporcionam à ciência
para elevar a saúde à sua plena existência;
*
O desejo sem fim e o sopro da perfeição
que emergem do núcleo do mito para o fazer 
 florescer e irradiar até à grande ilusão;
*
a  visão sensível e o cósmico radar
que se libertam entre a imaginação e a realidade
até chegar ao cume duma incontornável verdade;
*
o olhar inquieto e o impulso da criação
que imperam como pássaros longínquos
no cume do ser e da veneração;
*
a nobre causa e a terrível missão
que quebram na vontade as máscaras da ilusão
até bater nela ardente e feliz o coração;
*
a chama do fogo e a roda da invenção
que gravam na cultura da memória
os tesouros e os desvarios da civilização;
*
É reflexão e instinto, lucidez e vontade,
poderes telúricos às portas da verdade
contra as ilusões caprichosas da liberdade,
às voltas no carrossel da vaidade
e para o Mundo mais dor do que felicidade;
É a pergunta subtil e certeira: ser ou não ser,
a vertigem do homem face à realidade
que o engloba e interpela ,
sem jamais poder sair dela!...

Véu de Maya

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O SILÊNCIO E OS VÉUS DA PALAVRA


O VIOLANCELISTA_MODIGLIANI
*
É a invisibilidade na vida dos seres
onde os véus da aparência a escondem na obscuridade
até o vigor do pensamento a transformar em visibilidade;
*
a expansão e o limite de todo o existente
onde cada ser cresce e esmorece mas só a interdependência
domina com força igual à de uma marca consistente;
*
o trágico devir na contradição do ser
onde todo o vivo se afunda no vazio do não ser
e no insondável enigma do que está ainda por acontecer;
*
o jogo das possibilidades infindáveis
no heróico combate frente ao empolgante Universo
onde tudo é igual à relação consigo e com o inverso;
*
o oráculo do futuro e as pontes para lá chegar
onde o jogo da possibilidade cede à roda da realidade
e inverte a enorme contingência em férrea necessidade;
*
O pulsar no caminho invisível dos seres
onde transita a dor e a alegria dos mortais
que o véu da aparência esconde ao revelar os sinais;
*
a sensibilidade e a imaginação
que se fundem no coração da realidade
onde o invisível aspira também a ser visibilidade;

*
É visibilidade e invisibilidade,
ponte entre a obscuridade e a claridade
até chegar a ser chave, morada e liberdade;
Os véus do Universo cifrado e os trajectos humanos,
lá no fundo uma floresta de enganos
só vencida por destinos sobre-humanos;
O silêncio no pulsar íntimo dos seres
selado pelo véu da invisibildade
até a filosofia o trazer à claridade!...

Véu de Maya

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESTRELA DA TARDE_ARY DOS SANTOS

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA
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Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me adormeceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

Ary dos Santos

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PÉROLAS BRILHANTES DE NIETZSCHE

OS EXERCÍCIOS DE ACROBATA_RENÉ MAGRITTE

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Um falso adágio:"Aquele que não pode libertar-se de si não pode libertar os outros"...Se eu tiver a chave que abre a tua cadeia, por que é que as nossas duas cadeias hão-de ter os mesmos aloquetes."


É revoltante a quantidade de seres falhados.Mais revoltante é ainda o seu conformismo beato, a sua segurança, como revoltante é a sua falta de interesse pela evolução colectiva do homem...quando é certo que tudo pode ruir depressa."

As benesses que recebemos são mais perigosas do que as desgraças, porque tendem a exercer sobre nós um poder.Partilhar de benefícios deveria corresponder a privilégio: por isso o sentir grego que só aceitava o que estritamente podia compensar, era tão nobre."

Com que direito vamos vexar os medíocres com sua mediocridade? Por mim, como se vê, faço o contrário: cada passo que dou, conduz-como eu ensino-à imortalidade."

F. Nietzsche-A Vontade de Poder-Vol III

terça-feira, 24 de maio de 2011

SUAVIDADE

COMPARTIMENTO C. VAGÃO_EDWARD HOOPER

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Ao luar vi os teus olhos
Que de paixão me inflamaram...
Mas foi ao sorrirem tristonhos,
Que, antes de florir, me tocaram!...


Véu de Maya

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AS GRAÇAS NATURAIS


AS GRAÇAS NATURAIS_RENÉ MAGRITTE

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" Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti".Ora isto passa por sensatez, por prudência, pelo fundamento da moral, por uma "regra de ouro"! Pelo menos John Stuart Mill e os restantes ingleses acreditam nisso. Contudo, este preceito não resiste ao mais pequeno ataque. Estabelendo que não devemos fazer o que não queremos que nos façam, certas acções ficariam impedidas, com receio das suas consequências; isto, partindo do pressuposto de que todas as acções provocam retribuições...
Que aconteceia se, deitando a mão ao Príncipe se dissesse: "são precisamente tais acções que é preciso praticar, pelo receio de que outros o façam antes e nos impeçam a nós de fazê-lo"...
Pense-se ainda num corso, a quem a honra exige uma vendetta: não é que ele pense apanhar com uma bala na barriga, mas a perspectiva, a probabilidade de apanhar com uma bala não o impedirá de satisfazer a honra...
Em quais acções, dignas de tal nome, seremos nós voluntariamente indiferentes ao resultado que advirá delas? Se evitarmos certas acções porque nos acarretam resultados inconvenientes, então estamos a impedir-nos de qualquer acção digna desse nome.
Em contrapartida, um preceito desses é precioso por revelar um tipo de homens; ele formula o instinto do rebanho, em que todos são iguais, tudo se passa entre iguais: "O que eu te faço, fá-lo ás tu a mim"
Trata-se, positivamente, da crença numa equivalência de acções que nunca acontece e que nunca se verifica em circunstâncias reais. Nem as acções podem esperar reciprocidade! Entre individuos de verdade, não há acções iguais, e retribuições muito menos...
Ao agir, eu sou inteiramente alheio à ideia de que agir do mesmo modo seja possível para qualquer homem: a minha acção diz-me só respeito a mim. Se alguém quiser usar para comigo de retribuição, pode fazê-lo de qualquer outra maneira."  F. Nietzsche

domingo, 22 de maio de 2011

A CULTURA-VALOR EXISTENCIAL DE FUNDO

REMADORES EM CHAMAS_RENOIR

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"O que é a cultura, o fim da cultura?
Função da cultura: viver e agir em conformidade com as aspirações mais nobres de um povo.
A cultura é: a imortalidade dos espíritos mais nobres; o reviver um passado exemplar, a fim de ser um exemplo para o futuro.
A cultura consiste em que os mais sublimes momentos de cada geração constituem uma cadeia contínua, no interior da qual  se pode viver. Para o indivíduo, ser culto significa possuir uma tradição contínua de conhecimentos e pensamentos nobres, que ele próprio prolonga"
Nietzsche

sexta-feira, 20 de maio de 2011

OLHAR DE LINCE_NIETZSCHE

 CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
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"A facilidade, a segurança, o medo, a preguiça, a cobardia: eis as forças que pretendem privar a vida do seu carácter perigoso e desorganizado.Uma pantominice da ciência económica.
As plantas humanas prosperam mais vigorosamente quando são grandes os perigos e pouco seguras as circunstâncias. Verdade seja que na sua maioria perecem...
A nossa posição no mundo do conhecimento é deveras incerta, e qualquer homem superior dá a impressão de ser um aventureiro"Nietzsche

sábado, 7 de maio de 2011

SONETO À ORGIA DO TEMPO

Photobucket


O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE
*
Hei-de ser, mar e terra e fogo e ar,
quando, por fim, na roda que a tudo sela,
secarem as flores da vida, ao trémulo da vela,
em vestes que só o tempo levará a pratear...
*
E de sublimes versos, saírem cristais,
como fluem das marés, algas e sais;
E de loucas paixões, volúpia e flores,
 em poções felinas, na altivez dos amores...
*
E das fundas dores, cravadas no mundo,
chegarem gritos urgentes, de enlace profundo,
  ao luar da alegria, onde ela nunca vibrou...
*
Até que tudo, por fim, na orgia do tempo,
tal como a vida, ao arder em caos imenso,
volte a ser, no destino, o anel onde brilhou!...

Véu de Maya

quarta-feira, 4 de maio de 2011

VOLÚPIA PURA


SERPENTES DE ÁGUA II_GUSTAV KLIMT

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Se a tua volúpia é de espuma,
Mas só flui em meu corpo,
Deixa-a espraiar no meu mar
Que aí serei o teu barco...

Véu de Maya

segunda-feira, 2 de maio de 2011

LONJURA



OS DOIS MISTÉRIOS_RENÉ MAGRITTE
 
*
Não vou por ninguém.
 Vou pela águia que voa
E ao sonhar mais além...
Sou ainda o amor que sopra
E o declínio que vem...
*
Nem vou só por mim
Ou pelo voraz pensamento:
Qual menino na ilusão do momento!
 A cheirar flores no jardim,
sem se lembrar do cinzento.
*
Só vou pela vida
Que é um labirinto sem manto!
E pelos altares da embriaguês
Onde gozo os véus que levanto.
*
Só vou pela vida
Que é o meu mágico encanto!
E pelos voos altos em que a desafio,
Até a fechar no seu último suspiro...
E aí redimí-la de tudo o que é pranto!...

Véu de Maya



segunda-feira, 18 de abril de 2011

INTERVALO...OBRIGADO PELO CARINHO... UMA PÁSCOA FELIZ E DOCINHA...


AS POMBAS_PABLO PICASSO


*****
"Havia um imperador que pensava constantemente na instabilidade de todas as coisas, para que desse modo não pudesse atribuir-lhes demasiada importância e assim ficar em paz. Comigo, a instabilidade produz um efeito bem diferente.Tudo me parece infinitamente mais precioso exactamente porque tudo é fugidio. É como se os vinhos mais preciosos, os manjares mais apetecidos, fossem lançados ao mar" Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O BOSQUE DA PALAVRA

PERSPICÁCIA_RENÉ MAGRITTE

*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
onde o pensamento é como um pássaro longínquo
que mal entardece numa voa logo para outra paragem;
*
A variedade do ser no voo do pensamento
onde a palavra não é só o bosque da realidade
mas o perfume da paixão pela liberdade;
*
a brisa da linguagem nas brechas da realidade
onde o véu enganador do fragmento e da separação
volta a deixar ver inteira e clara a sua primordial união;
*
o espelho do ser e do horizonte
no amor da linguagem e do pensamento
onde ambos se banham na mesma fonte;
*
um raio de luz na névoa do ser
onde a palavra acaricia a frescura dos sentidos
e ao silêncio do pensar os volta a trazer depois de adormecidos;
*
o voo da inspiração e do inefável
onde se aquecem a núvem e o Sol e a promessa
do que no mundo só é real se não se construir à pressa;
*
o amor do pensar na estética da palavra
onde o devir se aquece na lareira do ser
como os foguetes bailam nas horas de festa brava;
*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
e a brisa da linguagem nas brechas da realidade,
onde o véu da aparência mostra agora a claridade;
O espelho do ser e do horizonte
a despertar da soberana fonte
onde todo o sentido é uma ponte;
O voo da inspiração e da aventura
onde todo o sentido já adormecido
volta a voar em filosofia enriquecido!...

Véu de Maya

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ETERNA UTOPIA


A PÁGINA EM BRANCO_RENÉ MAGRITTE

*
É o alvo e a flecha radical
onde o princípio é vencer a preguiça
e a arte é destruir a hidra terrível do mal;
*
O preço do trabalho e o poder da produção
onde se molda a selva feroz dentro do homem
e no mundo os males da escravidão;
*
A criação que traz ao mundo a obra
como a mãe traz à vida a criança
envolta em novelos de esperança;
*
o nó da questão e o cerne da escolha
onde a reflexão se torna profunda
e a vocação se ilumina toda;
*
o apreço à liberdade e o amor ao universal
onde a vida particular só é feliz
se transborda em equilíbrio social;
*
O amor e o ser criativo
onde nascer e participar no mundo
não é coisa apenas de contemplativo;
*
A superação de si e o nobre sacrifício
que arrancam o mundo pela energia da acção
às terríveis correntes da sujeição,
*
É alvo e flecha, ambição e criação,
superação, sacrifício e humanidade;
Luta contra a selva feroz dentro do homem,
e no mundo exterior a si
contra a escravidão e a crueldade;
Amor, justiça, e ser criativo,
não perdido no vapor contemplativo,
e a chama da filosofia ao aquecer o mundo
com obras de fidelidade ao amigo!...

Véu de Maya