domingo, 12 de junho de 2011

SOBRE O NIILISMO_NIETZSCHE_ MAS QUE REFLEXÃO IMPERDÍVEL!


O  CICERONE_RENÉ MAGRITTE

*****
O niilismo, enquanto estado psicológico, manifestar-se-á logo que tenhamos procurado nos factos um sentido-que eles não possuem. isso desanimará por completo quem procura esse sentido. O niilismo consiste então num prolongado desgaste de forças, na tortura de se ter actuado em vão, na insegurança, na impossibilidade de refazer forças, de obter um pouco de tranquilidade; na íntima vergonha de demasiado tempo se persistir num engano.
O sentido da vida poderia consistir em descortinar, através do devir a formação de um cánone moral elevado, a ordem moral do universo; ou ao menos um aumento de amor e harmonia entre os seres, ou a aproximação de um estado de felicidade universal; ou então o elã para um nada universal-qualquer que fosse o fim ele significaria um sentido.
Estas e outras que tais concepções têm como traço comum um processo que propende a um fim; entretanto compreende-se actualmente que o devir não propende a nada, não alcança nada. A decepção acerca dum pretenso fim do devir é portanto uma das causas do niilismo; quer se trate da ausência de um fim definido ou, genericamente, da insuficiência de todas as hipóteses finalistas relativas ao conjunto da evolução, o homem em nada influi no devir, e menos ainda é o centro dele.
O niilismo psicológico manifesta-se a seguir, quando é suposta uma totalidade, uma sistematização-ou melhor  uma organização-no interior dos factos e entre todos os factos. Não obstante, uma alma que esteja repleta de admiração e de veneração, delicia-se em imaginar uma forma suprema de domínio e de organização; tratando-se da alma de um homem lógico, bastar-lhe- á a consequência absoluta e a dialéctica precisa para que tudo se concilie imaginando um jeito de unidade, uma qualquer forma de monismo, em consequência de uma crença dessas, o homem é tomado por um sentimento profundo de correlação e de dependência perante um todo que o ultrapassa e em que ele é uma simples manifestação da divindade..." o bem geral exige o devotamento do indivíduo"...mas esse geral não existe!
No fundo o homem perdeu a fé no seu próprio valor, ao não admitir que é por meio dele que uma colectividade preciosa actua. Ele imaginou então essa colectividade, para poder acreditar no seu próprio valor.
O niilismo psicológico apresenta ainda uma última forma.Uma vez admitidos os dois aspectos citados-o de que o devir não tem um fim, e o de que não é dirigido por por qualquer grande unidade, em que o individuo possa mergulhar completamente, como num elemento de supremo valor-deixa apenas uma saída possível: condenar este mundo do devir. como sendo ilusório e inventar um mundo situado no além, o qual seria o mundo verdadeiro. Mas logo que o homem descobre que esse mundo é construído em função das suas próprias necessidades psicológicas e que não é de modo algum de molde a ser credível, começa a destacar-se a última forma de niilismo: a qual implica a negação do mundo metafísico e a recusa em acreditar num mundo verdadeiro.Atingindo nós este último estádio, a realidade do devir aparece-nos como a única realidade, e todos os caminhos contornantes dela-ou conducentes à crença noutros mundos e em falsos deuses, se tornam tão insuportáveis que já nem apetece negá-los.
Que terá acontecido então? Que chegamos ao sentimento do não-valor da existência, por compreendermos que ela não pode ser interpretada em conjunto-nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não atingimos nada: falta a unidade global, na pluralidade do devir; o carácter da existência não está em ser verdadeira mas em ser falsa; não há qualquer razão para nos persuadirmos que existe um mundo verdadeiro.
Em suma: as catgorias fim, unidade, verdade-mercê das quais tem sido atribuído um valor ao mundo-são suprimidas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
Admitindo que tenhamos, a qualquer título, reconhecido o mundo como inexplicável por meio dessas mesmas três categorias e que, após uma tal constatação, ele começa a perder para nós todo o valor, sentimo-nos obrigados a perguntar a nós próprios donde vem a nossa crença nessas três categorias, e procuramos saber se não é possível doravante rejeitar a nossa crença.
Pelo facto de chegarmos a depreciar essas três categorias, como inaplicáveis ao universo, isso não será motivo para depreciarmos o universo.O que resulta sim, é que a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo, pois que temos achado a medida do valor do mundo a partir de categorias aplicáveis somente a um mundo puramente fictício.

como resultado final: todos os valores em que nos temos apoiado até agora para tentarmos atribuir valor ao mundo-e que apenas conseguiram rebaixar-lhe o preço-todos esses valores são, debaixo do ponto de vista psicológico, o resultado de certas perspectivas, bem definidas, de utilidade, destinadas a manter e a fortificar certas formas de domínio humano, errradamente projectadas na essência das coisas. Mais uma vez estamos perante a ingenuidade hiperbólica do Homem-que se toma pelo sentido e pela medida das coisas. Nietzsche-A vontade de Poder-vol I-O niilismo europeu, RES Editora


quinta-feira, 9 de junho de 2011

O SOPRO DE VÉNUS


O NASCIMENTO DE VÉNUS_S. BOTTICELLI

*
É a reflexão e o preço do conhecimento
que quebram na estupidez a ignorância
e a ausência do pensamento;
*
a invenção e a luta contra a doença
que as luzes da razão proporcionam à ciência
para elevar a saúde à sua plena existência;
*
O desejo sem fim e o sopro da perfeição
que emergem do núcleo do mito para o fazer 
 florescer e irradiar até à grande ilusão;
*
a  visão sensível e o cósmico radar
que se libertam entre a imaginação e a realidade
até chegar ao cume duma incontornável verdade;
*
o olhar inquieto e o impulso da criação
que imperam como pássaros longínquos
no cume do ser e da veneração;
*
a nobre causa e a terrível missão
que quebram na vontade as máscaras da ilusão
até bater nela ardente e feliz o coração;
*
a chama do fogo e a roda da invenção
que gravam na cultura da memória
os tesouros e os desvarios da civilização;
*
É reflexão e instinto, lucidez e vontade,
poderes telúricos às portas da verdade
contra as ilusões caprichosas da liberdade,
às voltas no carrossel da vaidade
e para o Mundo mais dor do que felicidade;
É a pergunta subtil e certeira: ser ou não ser,
a vertigem do homem face à realidade
que o engloba e interpela ,
sem jamais poder sair dela!...

Véu de Maya

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O SILÊNCIO E OS VÉUS DA PALAVRA


O VIOLANCELISTA_MODIGLIANI
*
É a invisibilidade na vida dos seres
onde os véus da aparência a escondem na obscuridade
até o vigor do pensamento a transformar em visibilidade;
*
a expansão e o limite de todo o existente
onde cada ser cresce e esmorece mas só a interdependência
domina com força igual à de uma marca consistente;
*
o trágico devir na contradição do ser
onde todo o vivo se afunda no vazio do não ser
e no insondável enigma do que está ainda por acontecer;
*
o jogo das possibilidades infindáveis
no heróico combate frente ao empolgante Universo
onde tudo é igual à relação consigo e com o inverso;
*
o oráculo do futuro e as pontes para lá chegar
onde o jogo da possibilidade cede à roda da realidade
e inverte a enorme contingência em férrea necessidade;
*
O pulsar no caminho invisível dos seres
onde transita a dor e a alegria dos mortais
que o véu da aparência esconde ao revelar os sinais;
*
a sensibilidade e a imaginação
que se fundem no coração da realidade
onde o invisível aspira também a ser visibilidade;

*
É visibilidade e invisibilidade,
ponte entre a obscuridade e a claridade
até chegar a ser chave, morada e liberdade;
Os véus do Universo cifrado e os trajectos humanos,
lá no fundo uma floresta de enganos
só vencida por destinos sobre-humanos;
O silêncio no pulsar íntimo dos seres
selado pelo véu da invisibildade
até a filosofia o trazer à claridade!...

Véu de Maya

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESTRELA DA TARDE_ARY DOS SANTOS

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA
*******
Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me adormeceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

Ary dos Santos

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PÉROLAS BRILHANTES DE NIETZSCHE

OS EXERCÍCIOS DE ACROBATA_RENÉ MAGRITTE

*****
Um falso adágio:"Aquele que não pode libertar-se de si não pode libertar os outros"...Se eu tiver a chave que abre a tua cadeia, por que é que as nossas duas cadeias hão-de ter os mesmos aloquetes."


É revoltante a quantidade de seres falhados.Mais revoltante é ainda o seu conformismo beato, a sua segurança, como revoltante é a sua falta de interesse pela evolução colectiva do homem...quando é certo que tudo pode ruir depressa."

As benesses que recebemos são mais perigosas do que as desgraças, porque tendem a exercer sobre nós um poder.Partilhar de benefícios deveria corresponder a privilégio: por isso o sentir grego que só aceitava o que estritamente podia compensar, era tão nobre."

Com que direito vamos vexar os medíocres com sua mediocridade? Por mim, como se vê, faço o contrário: cada passo que dou, conduz-como eu ensino-à imortalidade."

F. Nietzsche-A Vontade de Poder-Vol III

terça-feira, 24 de maio de 2011

SUAVIDADE

COMPARTIMENTO C. VAGÃO_EDWARD HOOPER

*****
Ao luar vi os teus olhos
Que de paixão me inflamaram...
Mas foi ao sorrirem tristonhos,
Que, antes de florir, me tocaram!...


Véu de Maya

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AS GRAÇAS NATURAIS


AS GRAÇAS NATURAIS_RENÉ MAGRITTE

*****

" Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti".Ora isto passa por sensatez, por prudência, pelo fundamento da moral, por uma "regra de ouro"! Pelo menos John Stuart Mill e os restantes ingleses acreditam nisso. Contudo, este preceito não resiste ao mais pequeno ataque. Estabelendo que não devemos fazer o que não queremos que nos façam, certas acções ficariam impedidas, com receio das suas consequências; isto, partindo do pressuposto de que todas as acções provocam retribuições...
Que aconteceia se, deitando a mão ao Príncipe se dissesse: "são precisamente tais acções que é preciso praticar, pelo receio de que outros o façam antes e nos impeçam a nós de fazê-lo"...
Pense-se ainda num corso, a quem a honra exige uma vendetta: não é que ele pense apanhar com uma bala na barriga, mas a perspectiva, a probabilidade de apanhar com uma bala não o impedirá de satisfazer a honra...
Em quais acções, dignas de tal nome, seremos nós voluntariamente indiferentes ao resultado que advirá delas? Se evitarmos certas acções porque nos acarretam resultados inconvenientes, então estamos a impedir-nos de qualquer acção digna desse nome.
Em contrapartida, um preceito desses é precioso por revelar um tipo de homens; ele formula o instinto do rebanho, em que todos são iguais, tudo se passa entre iguais: "O que eu te faço, fá-lo ás tu a mim"
Trata-se, positivamente, da crença numa equivalência de acções que nunca acontece e que nunca se verifica em circunstâncias reais. Nem as acções podem esperar reciprocidade! Entre individuos de verdade, não há acções iguais, e retribuições muito menos...
Ao agir, eu sou inteiramente alheio à ideia de que agir do mesmo modo seja possível para qualquer homem: a minha acção diz-me só respeito a mim. Se alguém quiser usar para comigo de retribuição, pode fazê-lo de qualquer outra maneira."  F. Nietzsche

domingo, 22 de maio de 2011

A CULTURA-VALOR EXISTENCIAL DE FUNDO

REMADORES EM CHAMAS_RENOIR

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"O que é a cultura, o fim da cultura?
Função da cultura: viver e agir em conformidade com as aspirações mais nobres de um povo.
A cultura é: a imortalidade dos espíritos mais nobres; o reviver um passado exemplar, a fim de ser um exemplo para o futuro.
A cultura consiste em que os mais sublimes momentos de cada geração constituem uma cadeia contínua, no interior da qual  se pode viver. Para o indivíduo, ser culto significa possuir uma tradição contínua de conhecimentos e pensamentos nobres, que ele próprio prolonga"
Nietzsche

sexta-feira, 20 de maio de 2011

OLHAR DE LINCE_NIETZSCHE

 CARTA BRANCA_RENÉ MAGRITTE
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"A facilidade, a segurança, o medo, a preguiça, a cobardia: eis as forças que pretendem privar a vida do seu carácter perigoso e desorganizado.Uma pantominice da ciência económica.
As plantas humanas prosperam mais vigorosamente quando são grandes os perigos e pouco seguras as circunstâncias. Verdade seja que na sua maioria perecem...
A nossa posição no mundo do conhecimento é deveras incerta, e qualquer homem superior dá a impressão de ser um aventureiro"Nietzsche

sábado, 7 de maio de 2011

SONETO À ORGIA DO TEMPO

Photobucket


O REGRESSO DA CHAMA_RENÉ MAGRITTE
*
Hei-de ser, mar e terra e fogo e ar,
quando, por fim, na roda que a tudo sela,
secarem as flores da vida, ao trémulo da vela,
em vestes que só o tempo levará a pratear...
*
E de sublimes versos, saírem cristais,
como fluem das marés, algas e sais;
E de loucas paixões, volúpia e flores,
 em poções felinas, na altivez dos amores...
*
E das fundas dores, cravadas no mundo,
chegarem gritos urgentes, de enlace profundo,
  ao luar da alegria, onde ela nunca vibrou...
*
Até que tudo, por fim, na orgia do tempo,
tal como a vida, ao arder em caos imenso,
volte a ser, no destino, o anel onde brilhou!...

Véu de Maya

quarta-feira, 4 de maio de 2011

VOLÚPIA PURA


SERPENTES DE ÁGUA II_GUSTAV KLIMT

*****
Se a tua volúpia é de espuma,
Mas só flui em meu corpo,
Deixa-a espraiar no meu mar
Que aí serei o teu barco...

Véu de Maya

segunda-feira, 2 de maio de 2011

LONJURA



OS DOIS MISTÉRIOS_RENÉ MAGRITTE
 
*
Não vou por ninguém.
 Vou pela águia que voa
E ao sonhar mais além...
Sou ainda o amor que sopra
E o declínio que vem...
*
Nem vou só por mim
Ou pelo voraz pensamento:
Qual menino na ilusão do momento!
 A cheirar flores no jardim,
sem se lembrar do cinzento.
*
Só vou pela vida
Que é um labirinto sem manto!
E pelos altares da embriaguês
Onde gozo os véus que levanto.
*
Só vou pela vida
Que é o meu mágico encanto!
E pelos voos altos em que a desafio,
Até a fechar no seu último suspiro...
E aí redimí-la de tudo o que é pranto!...

Véu de Maya



segunda-feira, 18 de abril de 2011

INTERVALO...OBRIGADO PELO CARINHO... UMA PÁSCOA FELIZ E DOCINHA...


AS POMBAS_PABLO PICASSO


*****
"Havia um imperador que pensava constantemente na instabilidade de todas as coisas, para que desse modo não pudesse atribuir-lhes demasiada importância e assim ficar em paz. Comigo, a instabilidade produz um efeito bem diferente.Tudo me parece infinitamente mais precioso exactamente porque tudo é fugidio. É como se os vinhos mais preciosos, os manjares mais apetecidos, fossem lançados ao mar" Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O BOSQUE DA PALAVRA

PERSPICÁCIA_RENÉ MAGRITTE

*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
onde o pensamento é como um pássaro longínquo
que mal entardece numa voa logo para outra paragem;
*
A variedade do ser no voo do pensamento
onde a palavra não é só o bosque da realidade
mas o perfume da paixão pela liberdade;
*
a brisa da linguagem nas brechas da realidade
onde o véu enganador do fragmento e da separação
volta a deixar ver inteira e clara a sua primordial união;
*
o espelho do ser e do horizonte
no amor da linguagem e do pensamento
onde ambos se banham na mesma fonte;
*
um raio de luz na névoa do ser
onde a palavra acaricia a frescura dos sentidos
e ao silêncio do pensar os volta a trazer depois de adormecidos;
*
o voo da inspiração e do inefável
onde se aquecem a núvem e o Sol e a promessa
do que no mundo só é real se não se construir à pressa;
*
o amor do pensar na estética da palavra
onde o devir se aquece na lareira do ser
como os foguetes bailam nas horas de festa brava;
*
É a vida do Mundo no sopro da linguagem
e a brisa da linguagem nas brechas da realidade,
onde o véu da aparência mostra agora a claridade;
O espelho do ser e do horizonte
a despertar da soberana fonte
onde todo o sentido é uma ponte;
O voo da inspiração e da aventura
onde todo o sentido já adormecido
volta a voar em filosofia enriquecido!...

Véu de Maya

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ETERNA UTOPIA


A PÁGINA EM BRANCO_RENÉ MAGRITTE

*
É o alvo e a flecha radical
onde o princípio é vencer a preguiça
e a arte é destruir a hidra terrível do mal;
*
O preço do trabalho e o poder da produção
onde se molda a selva feroz dentro do homem
e no mundo os males da escravidão;
*
A criação que traz ao mundo a obra
como a mãe traz à vida a criança
envolta em novelos de esperança;
*
o nó da questão e o cerne da escolha
onde a reflexão se torna profunda
e a vocação se ilumina toda;
*
o apreço à liberdade e o amor ao universal
onde a vida particular só é feliz
se transborda em equilíbrio social;
*
O amor e o ser criativo
onde nascer e participar no mundo
não é coisa apenas de contemplativo;
*
A superação de si e o nobre sacrifício
que arrancam o mundo pela energia da acção
às terríveis correntes da sujeição,
*
É alvo e flecha, ambição e criação,
superação, sacrifício e humanidade;
Luta contra a selva feroz dentro do homem,
e no mundo exterior a si
contra a escravidão e a crueldade;
Amor, justiça, e ser criativo,
não perdido no vapor contemplativo,
e a chama da filosofia ao aquecer o mundo
com obras de fidelidade ao amigo!...

Véu de Maya

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O PERFUME DO ESPÍRITO

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES
*
É o valor da educação na missão das instituições
onde se levanta o contributo e a riqueza de cada geração
para o futuro de todas as gerações;
*
a renovação da herança e o testemunho
onde cada geração honra o tesouro recebido
para o passar com marca original ao futuro enriquecido;
*
a aflição e o incrível vazio
onde as novas gerações se afundam
quando as anteriores perderam o brio;
*
o amor entre as gerações
onde sonham a vida e a felicidade e o futuro
como pilares e orgulho de todas as civilizações;
*
O declínio e o desespero
onde a sociedade e a cultura se desagregam murchas
quando perdem o sal da vida que é o melhor tempero;
*
O sopro da liberdade e as colinas da ambição
onde transbordam no cidadão e nas gerações
o amor pelo universal e o triunfo das realizações;
*
a distância e o choque entre as gerações
onde se separam ou guerreiam sem laços nem sorte
quando a felicidade esmorece e a vida naufraga sem norte;
*
É amor e conflito entre gerações,
atraso e progresso nas civilizações,
herança e testemunho
sobre o que é pobre e valioso e profundo;
Declínio e desespero,
quando na vida e na cultura,
falta a felicidade e o tempero;
Cuidado e realização
na missão de cada geração,
e a filosofia: como amor e libertação!...

Véu de Maya

domingo, 3 de abril de 2011

O LAÇO: VIDA/CULTURA


O BURRO APODRECIDO_S.DALÍ

*
É o apelo da vida à cultura
onde o fluxo criador tanto pode murchar
como renascer e brilhar;
*
O fluido e a seiva criadora
onde se celebram no auge
tempos intensos e uma nova aurora;
*
o declínio e a decadência
onde a vida e a cultura
se esgotam numa pobre doença;
*
o grito e o sono da morte
de Deus, do homem, e da sorte,
quando a vida erra sem arte e sem norte;
*
A luta e o vazio no ser
onde a vida tanto se pode perder
como em novas paixões se acender;
*
o fogo e a chama do viver
onde é impossível deixar de ser
e se prefere o nada ao nada querer;
*
O sonho colectivo e a imaginação
onde a vida e a cultura se fundem
no triunfo de uma alta inspiração;
*
É vida e cultura, luar e seiva criadora,
saúde e doença, declínio e aurora,
morte de Deus, da sorte e do eu;
Vitória sobre si e um novo horizonte,
luta e vazio, paixões novas e os riscos
do nada e até de se perder;
Chama colectiva no fogo do viver,
união frágil da vida e da sabedoria,
na eterna aspiração da filosofia!...

Véu de Maya

quinta-feira, 31 de março de 2011

ALTO INSTANTE


ALUCINAÇÃO PARCIAL_SALVADOR DALÍ

*
É a inocência e o acaso
genéticos no devir do Universo
e selados num cósmico abraço;
*
O abismo e o trágico do Universo
reflectidos no espelho da realidade
como máscaras da sua caprichosa liberdade;
*
A vertigem e a errância da pluralidade
onde todo o equlíbrio é curto e instável
e toda a mediação se revela polaridade;
*
O sonho e a fonte da emoção
onde o prazer do equilíbrio rejubila
na metáfora de uma breve ilusão;
*
O subtil do ser e a sua pluralidade
na roda seminal do Universo,
Onde tudo encobre o verso e o reverso;
*
A luta do nobre e da vilania
no ponto em que se chocam os opostos
como a liberdade e a tirania;
*
O sim pleno e a afirmação criadora
onde a árvore gera os frutos
e o artista cria a obra;
*
É inocência e acaso, jogo e cósmico devir,
 onde tudo o que chega volta a partir;
Rotação na flecha da instabilidade,
o caos cifrado à racionalidade
e os simulacros ao espelho da verdade;
Celebração exaltante e comovente
da liberdade contra a tirania,
e árvore que gera os frutos no solo
    profundo e fértil da filosofia!...

Véu de Maya

segunda-feira, 28 de março de 2011

LOUCO INSTANTE

LIVROS_SANDRO BOTTICELLI

*
É a visão e o olhar
que se fundem com o Mundo
até no seu espelho poder brilhar;
*
O voo e a lonjura
que sublimam na natureza o caos
e na sociedade mobilizam a cultura;
*
A proeza e a emoção da arte
que capturam as borboletas à vida
até as pôr a voar em obra de arte;
*
A coragem e a rebeldia
que se unem à sinceridade
para não dar tréguas à hipocrisia;
*
O mistério e o que nos ultrapassa
no pequeno e grande dos nossos actos
e nos deixa de olhos abertos estupefactos;
*
O rio e o caudal da corrente
que banham tudo o que é espesso e breve
a partir do lugar da nascente;
*
O trágico e o resto da vida que fica
como se fosse uma velha comédia
entre o bucha e o estica;
*
É olhar e visão, espanto e rebeldia,
coragem contra a hipocrisia,
lealdade na vida e na arte;
União viva do todo com a parte,
caminho e superação,
altivez e estrada incerta;
E no efémero que corre à hora certa,
transita inquieta, mas ampla, a filosofia,
 ilha de luz livre, e à vida entreaberta!...

Véu de Maya

quinta-feira, 24 de março de 2011

O INSTANTE ABSOLUTO

*
É a manhã e a alvorada
que arrancam o ser à inércia
até nascer nele uma nova morada;
*
a noite e as portas do labirinto
que rasgam clareiras ao caos
até brilhar nele o infinito;
*
o meio-dia e o zenite solar
que derramam energia sobre as taças
dos amantes da vida e do criar;
*
a meia-noite e os pressentimentos
que festejam a vida aos sons da guitarra
até tudo se afinar em explosão de sentimentos;
*
a chaga infeliz e os desmazelos
em que a vida e a cultura se afundam
até o homem quebrar os medos:
*
a festa e a nascente primordial
onde tudo se canta na música da vida
como num barco ondulante em alto mar;
*
o instante e a luz do pensamento
onde o ser celebra sem arrependimento
o nascer e o morrer do próprio tempo;
*
É expansão e Universo, verso e reverso,
o ser escrito no perfume de um só verso;
A metáfora da vida abundante
mesmo a perdida e a errante;
Os amantes do ser e do pensar
orgulhosos de ser um para o outro
toda a alegria da incerteza
no jogo do seu próprio caminhar!...

Véu de Maya

quinta-feira, 17 de março de 2011

ALTO LUAR...


LEDA E O CISNE_LEONARDO DA VINCI
*****
Do luar que brilha em teus olhos
Já avisto o teu pomar...
Mas é na embriaguês dos meus sonhos,
  Que te mimo, com espelhos de enfeitiçar!...

Véu de Maya

quarta-feira, 16 de março de 2011

BARUCH ESPINOZA...DÁ QUE PENSAR?

CLEÓPATRA E O CAMPONÊS_DELACROIX
*****
Deus dissera:

" Deixa de viver a rezar e a bater no peito! O que quero que faças é que salgues o mundo e desfrutes da tua vida.
Quero que gozes, que cantes, que te divirtas e que desfrutes de tudo o que criei para ti.
Deixa de frequentar esses templos lúgubres, obscuros e frios, que tu mesmo construiste e que dizes que são a minha casa.
A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos ríos, nos lagos, nas praias. Aí é onde eu vivo e expresso o meu amor por ti.
Deixa de me culpar pela tua vida miserável; nunca te acusei de haver mal em ti ou que eras um pecador, ou que a tua sexualidade fosse algo de mal.
O sexo é um regalo que te ofereci e com o qual podes expressar o teu amor,o teu êxtase, a tua alegría. Assim não me culpes a mim por tudo em que te fizeram acreditar.
Deixa de estar a ler supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não não és capaz de ler-me num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos , nos olhos do teu filho, então, não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de pedir-me. Vais-me dizer a mim, como fazer o meu trabalho?
Deixa de ter tanto medo.Eu não te julgo, nem te critico, nem me aborreço, nem me molesto, nem castigo. Eu sou puro amor.
Deixa de pedir-me perdão, não há nada que perdoar. Se te fiz... te cumulei de paixões, de limitacões, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências... do livre arbítrio. Como poderia culpar-te de algo que gravei em ti, se espelhas algo que eu deixei em ti? Cómo posso castigar-te por seres como és, se sou eu quem te fiz? Crês que poderia criar un lugar para queimar todos os meus filhos que se portam mal, para o resto da eternidade. Qué espécie de deus louco pode fazer isso?
Olvída-te de qualquer tipo de mandamentos, de qualquer tipo de leis; elas são artimanhas para manipular-te, para controlar-te, que só injectam culpa em ti. Respeita os teus semelhantes e não faças o que o que não quererias para ti. A única coisa que te peço é que ponhas atenção à tua vida, que o teu estado de alerta seja o teu guia.
Amado meu, esta vida não é uma prova, nem uma escadaria, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio ao paraíso. Esta vida é a unica que há, aquí e agora, e a única de que necessitas.
Fiz-te absolutamente livre, não há prémios nem castigos, não há pecados nem virtudes, nada traz mácula, nada traz un registo.
És absolutamente livre de crer na tua vida, no céu ou no inferno.
Não te posso dizer, si há algo depois da vida, mas posso dar-te um conselho. Vive como se não houvesse. Como se esta fosse a tua única oportunidade de desfrutar, de amar, de existir.
Assim, se não houver nada, terás desfrutado da oportunidade que te dei.
E se houver, toma por certo que não te vou perguntar se te portaste bem ou mal. Vou-te perguntar: gostaste?... divertiste-te?... O que foi que mais desfrutaste? Que aprendeste?...
Deixa de crer em mim; crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que creias em mim, quero que me sintas em ti. Quiero que me sintas em ti quando beijas a tua amada, quando proteges a tua filha, quando acaricias o teu cão, quando te banhas no mar.
Deixa de louvar-me. Que tipo de Deus ególatra acreditas que sou?
Aborrece-me que me adulem, cansa-me que me agradeçam. Sentes-te agradecido? Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tus relacões com o mundo. Sentes-te observado, sobrepensado?..Expressa a tua alegría! Essa é a forma de me louvar.
Deixa de complicar as coisas e de repetir como perigo o que te ensinaram acerca de mim. O único dado seguro é que estás aquí, que estás vivo, que este mundo está cheio de maravilhas. Para que necessitas de mais milagres? Para quê tantas explicacões? Não me procures além, não me encontrarás. Busca-me dentro... aí estou, pulsando em ti.

Baruch Spinoza


domingo, 13 de março de 2011

NÉVOAS DE SOLITÁRIO


DUAS MENINAS AO PIANO_RENOIR
*
Escuto a rebeldia do silêncio
Em sopro de energia cifrada
Que já não é refúgio de nada,
Mas chama pura e sagrada;
*
Vejo a textura do Mundo,
opaca, em voragem acelerada,
Que já não é angústia de nada,
Mas máscara desperdiçada;
*
Tacteio a errância do Universo
Num trotear tão incerto...
Que nem sei se é caos em verso,
Ou trágico puro entreaberto!
*
Mas nesta lupa, pura e obscura,
Rasgo sobre o abismo do Mundo
O véu de um olhar profundo,
Em que a vertigem retorna e perdura:
*
Na roda da multidão, que é tão pobre,
E no silêncio virginal, que é tão profundo...
Até entoar no coração do Mundo
Este fado, cujo destino é ser nobre!...


Véu de Maya

domingo, 6 de março de 2011

RENDAS FINAS

ABELHA NO PÓLEN DA FLOR
*****
Entre o prazer dos beijos,
bordados em volúpia de lábios,
E a renda fina dos folhos,
perdida na ternura dos prados!
Fica a lua-cheia em desejos...
E a felicidade boémia nos olhos,
Que é como a abelha nos favos...

Véu de Maya

quinta-feira, 3 de março de 2011

ESPELHOS POR BEIJOS

CAMPO DE FLORES NA TOSCÂNIA

*****
Em teus olhos brincam sonhos,
E nos meus vibram desejos,
Mas é aos acordes da alma...
Que eles se embriagam risonhos!
E trocam espelhos por beijos...

Véu de Maya