sexta-feira, 12 de setembro de 2008

NATUREZA HUMANA

O JÓQUEI PERDIDO_RENÉ MAGRITTE, 1926Este quadro é considerado a primeira obra "surrealista" do pintor

OBEDECER AOS PRÓPRIOS SENTIMENTOS? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso, ou a um impulso de momento, isso não caracteriza um homem; todos são capazes de fazê-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corsário, superam um homem honesto.
O grau de superioridade é vencer em si tal elã e realizar o acto heróico, não por impulso, mas friamente, ponderadamente, sem a expansão do prazer que o acompanha; outro tanto acontece com a piedade: ela há-de ser habitualmente filtrada pela razão, caso contrário, é tão perigosa como qualquer outra emoção. A docilidade cega perante uma emoção-tanto importa que seja generosa ou perigosa como odiosa-é causa dos piores males.
A grandeza de carácter não consiste em não experimentar emoções; pelo contrário, estas são para experimentar no mais elevado grau; a questão é controlá-las, e ainda assim, havendo prazer em modelá-las, em função de algo mais.

Nietzsche, Vontade de Poder vol. II-Res- Editora

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

AFORISMOS DE NIETZSCHE

O LIBERTADOR_RENÉ MAGRITTE, 1947
*

"Escala métrica para todos os dias.-Raramente nos enganaremos se reportarmos as nossas acções extremas à vaidade, as medíocres ao hábito e as mesquinhas ao medo" ;
*
"Subtileza da vergonha.-Os homens têm vergonha não por terem pensamentos vis, mas por imaginarem que os julgam capazes destes pensamentos reles";

*
"Sinal de incompatibilidade.-O índice mais forte de incompatibilidade entre duas pessoas é quando ambas falam reciprocamente com um grãozinho de ironia mas nem uma nem outra sentem esta ironia.";
*
"Ofender e ser ofendido-É mais agradável ofender e pedir perdão em seguida do que ser ser ofendido e ter de perdoar depois. O primeiro deixa uma marca de poder e a seguir de bondade de carácter; o segundo que não quer passar por inumano sente-se obrigado a perdoar; o gozo [reles] de humilhar o outro não tem contrapartida nesta obrigação";


Nietzsche, Humano Demasiado Humano

terça-feira, 9 de setembro de 2008

OLHAR DE LINCE?

O IMPÉRIO DAS LUZES_RENÉ MAGRITTE
***
O narrador -Quem conta uma história deixa facilmente transparecer se a conta porque a acha mesmo interessante ou porque quer ser interessante. No último caso, tende a exagerar, a usar superlativos e outros expedientes similares. Assim sendo, conta-a mal porque sonha menos com a história do que com ele próprio";
***

"O declamador.-O que declama em voz alta poemas dramáticos faz descobertas curiosas sobre o seu carácter: encontra em certas cenas e situações a sua voz mais natural do que noutras, por exemplo, no que é patético e cómico, enquanto na vida comum não teria essa ocasião para a paixão e para a comédia" ;

***
Os Complacentes.-As naturezas complacentes, prontas a todo o instante para socorrer o infortúnio alheio, raramente são fertilizantes : pois perante a felicidade do outro já não têm que fazer, sentem-se supérfluas, deixam de sentir superioridade e facilmente ostentam despeito"

Nietzsche, Humano, Demasiado Humano

domingo, 7 de setembro de 2008

NÃO ME PEÇA DEFINIÇÂO

PLANTA TAILANDESA ...oferecida por Mariz ://www.soupoeluz.blogspot.com


Não me peça definição
se branco ou preto
que eu fico com o arco-iris
se quero ou não
que eu venho com um talvez
*
Minha única certeza
é que tenho dúvidas às dúzias
dos tempos prefiro o indefinido
e dos pontos o de interrogação.
*
Você dirá que sou do contra
e faço tudo de pirraça...
Posso até concordar
de tanto que detesto
discussão e bate-boca
*
Nosso caminho está cheio de escolhas, é certo
e quem for esperto logo acha a saída do labirinto
mas como em outra encarnação
devo ter sido um monge tibetano
não acredito muito em livre-arbítrio
e na capacidade de mudar o mundo
*
Quantas vezes não desviaram o curso dos rios
e veja só o desastre ecológico que deu...
*
No auge da confusão
fico esperando que os rolos mais cabeludos
se resolvam por si
*
obedecendo a não sei que lei
-provavelmente à do acaso, do caos
ou então à anti-lei de Murphy
Em matéria de esperar
como mulher nasci esperando
e se o sinónimo de paciência é Jó
aposto que houve alguma Jóana
que ganhava dele de longe mas
nem a Bíblia nem os historiadores registaram
Que lapso!
*
Estou vendo o dia
em que acabarei como vovó
na cadeira de balanço
enrolada num xale
olhando tranquila a bagunça em volta
como quem nada quer
esperando mais uns séculos
pelo dia em que um homem
-enfim-entenda uma mulher!

POEMA DE RENATA P.M. CORDEIRO

sábado, 6 de setembro de 2008

MULHER

VÉNUS VENCE MARTE_SANDRO BOTTICELLI

Mulher, és lírio do campo;

és ave linda, no céu!

Deus te criou, inspirado,

para o mais lindo papel:

teus perfumes, tantas cores

tu`alma doce, teu véu

de amores tantos, tamanhos,

das paixões, um carrocel;

*

És, mulher, tanta beleza,


és quem traz as novas vidas;


tu és, mulher, natureza,


em emocões coloridas.


És ombro amigo e sincero,


és, do meu leito, o dossel


o fruto que eu amo e quero


és minh`agua, meu farnel

*

Mas és, mulher, muito mais:

espírito sublimado,

coração que se desdobra,

a mãe que ama e não cobra,


a irmã que está do meu lado;


do porto seguro, és cais


alfama da marujada,


a lua, na madrugada.

*

És o bem que Deus criou:


o ventre da natureza ,


a sintaxe da beleza,


a semântica da dor.


Porém, O Pai te outorgou


maturidade e ternura:


és a dádiva mais pura


que Deus ao mundo legou.


POEMA DE JOÃO DA SILVA

em http://wwwrenatacordeiro.blogspot.com/





quinta-feira, 4 de setembro de 2008

É BEM POSSÍVEL

O ESPELHO FALSO_RENÉ MAGRITTE

É bem possível que só eu exista
Na redoma deste mundo
E o resto seja aparição já vista
Ou má pintura de cenário sem fundo

Assim se explicaria não ter eco
A parede sonora que inventei
Nem me reconhecer no rastro seco
Dos gestos e palavras que amei

Duvido
que me seja evidente o ser que sou
Porém pensar em ti é ter seguro
Outro Universo inteiro onde não estou

POEMA DE JOÃO MARTIM





terça-feira, 2 de setembro de 2008

O MEU RIO

O MEU RIO Foto de Ana Rita Seirôco


No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
A lua mergulhada no silêncio
Na paz desta margem junto ao rio...
O tempo está mais além, além de mim
Perdido nas planícies do Oceano profundo...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar supenso no teu Sorriso...
Na luz que brilha do teu rosto
Deixo-o para que também ele possa sorrir...
Deixo-o porque através do seu Sorriso
Ele consegue ver o mundo inteiro
Encontrar um rumo mesmo tendo perdido o Norte...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
Suspenso na imensidão do meu luar
Suspenso na Eternidade!...

POEMA DE ANA RITA SEIRÔCO

domingo, 24 de agosto de 2008

CATARSE GUERREIRA

SOLDADO BEBE_MARC CHAGALL
Big Bang da vida
explosão de contrários
jogo divino em fogo criado
e luta eterna, sem descanso e sem fim
imortal e sem medida!
***a não ser no fulgor do meio-dia
e na explosão festiva da alegria da vida
onde canta a música
e sonha festa e a poesia
***e onde cintilam a arte e a filosofia
que trazem de volta o sal à vida,
como jogos de musas
e mistérios na claridade dos dias!
***Eras festa imensa
e fogos puros de artifícios,
eras nascente de aventura livres,
e berço de viagens sem precipícios !
***Mas vestiste de tragédia,
cega, feia, horrível e real,
as múltiplas vidas que perderam
a fonte dos sonhos vitais
em jogos absurdos
desesperados, fatais!
***

De tragédia bonita e real,
com viagens flutuantes de vida,
e correntes de Sol e fantasia!
caíste, abrupta e absurda, na morte real,
e no caos profundo, vergonhoso e letal,
abriste assim mais um sepulcro
para a poesia!
***E na voragem cega da guerra,
que crianças e jovens,
que mulheres e homens,
que a todos levaste fora do tempo,
como falas agora da sua inocência?
que fechaste em manto tão triste!
***Poderás ainda errância dionisíaca do mundo,
lugar dos sonhos, das dores e das elegias
trazer de volta o fulgor da vida
ao berço das inspirações
e libertá-la com raios profundos
da destruição e das escravas submissões?
***Ai! se tudo isto nada mais fosse
que um sonho!
ainda que o sonho de uma elegia!
Ah! como tudo isto imaginaria
trazer de volta à terra humana
acima do luto e do pesadelo e da dor
a vida, a festa e a poesia!...
Luís Lourenço, em "Verdade e Política" de Hannah Arendt, Lisboa Editora

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

INTERLÚDIO REFLEXIVO

ALEGORIA DA PAZ_RUBENS
Tu que rompes todas as grelhas da palavra
sem moral ou sentimento
Tu que desestabilizas todos os espaços possíveis
e invades as fronteiras de tempos inverosímeis
Tu que destronas monarcas senhores e impérios
e fazes perder a fé nos vitupérios!
Desce à tribuna e frontalmente
sê arrogante intempestivo e frio
Edifica em cada certeza um mistério
Lança em cada palavra um desafio
e diz a cada homem que o silêncio
jamais será vazio!...

Luís Lourenço

segunda-feira, 14 de julho de 2008

FORÇAS ACTIVAS

O CICERONE_RENÉ MAGRITTE, 1947
O guia falador e imperioso estabelece a direcção e o caminho. Uma pausa reflexiva não corresponderia à sua estrutura. Sob o seu domínio, a tecnologia e a política são igualmente caracterizadas pelo mesmo barbarismo absurdo.

*******

"Paixões afirmativas: a altivez, a alegria, a saúde, o amor sexual, a hostilidade e a luta, o respeito, os belos gestos, as boas maneiras, a vontade forte, a disciplina intelectual, a vontade de poder, o reconhecimento para com a terra e a Vida, tudo o que é rico e ofertante, tudo o que faz jus à vida -o que a doura, eterniza e diviniza-todo o poder das virtudes que nos transfiguram; tudo o que aprova, afirma, diz sim em palavras e em actos"

Nietzsche, Vontade de Poder II

terça-feira, 8 de julho de 2008

SELO DE AMIZADE




Tenho o grato prazer de o partilhar/ofereçer aos bloguistas e visitantes que valorizam a qualidade da blogosfera com os seus posts e comentários.

Peço desculpa por não cumprir literalmente o desafio numérico proposto, mas vacilo tanto ainda em procedimentos informáticos que isso implicaria para mim muito desgaste de tempo.

Dêem-lhe o seguimento que acharem oportuno. A amizade, mesmo na blogosfera, nunca será certamente uma palavra vã.




quinta-feira, 3 de julho de 2008

A MORALIDADE ATÉ AOS NOSSOS DIAS?

EXTRACÇÂO DA PEDRA DA LOUCURA_HIERONYMUS BOSCH

Óleo sobre madeira, 48 x 35 cm, Madrid, Museu do Prado
***

"O primeiro signo de que o animal se transformou em humano é quando os seus actos já não se confinam ao bem-estar momentâneo mas elevam-se a coisas duráveis, por conseguinte, o homem procura a utilidade, a apropriação com uma finalidade:é a primeira eclosão do livre governo da razão .Um nível superior é atingido quando age de acordo com o princípio da honra; graças a ele disciplina-se e submete-se aos sentimentos comuns, o que o eleva muito acima da fase em que a utilidade, entendida apenas pessoalmente, era o seu único padrão; ele honra e quer ser honrado, isto é, ele concebe o útil conforme a sua opinião acerca do outro e a opinião do outro acerca dele.Finalmente, age no nível mais elevado da moralidade até aos nossos dias, de acordo com a sua própria medida das coisas e dos homens; quer para ele e para os outros o que é honorável, o que é útil; tornou-se legislador de opiniões, segundo a concepção sempre cada vez mais desenvolvida do útil e do honorável. A ciência torna-o capaz de preferir o mais útil, isto é, a utilidade geral duradoira à utilidade pessoal, a preferência respeitosa de um valor geral duradouro ao do momento: vive e age como indivíduo colectivo.

Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, I

quarta-feira, 2 de julho de 2008

VERDADES DE FACTO: PORQUE SÃO FRÁGEIS?

GUERNICA(PORMENOR)_PABLO PICASSO, 1937
...Como os factos e os acontecimentos [ resultado permanente do convívio e da interacção humana] é que constituem a textura real da esfera política, é das verdades de facto que evidentemente e sobretudo nos ocupamos aqui. A dominação[ para usar a linguagem de Hobbes], quando combate a verdade racional exorbita, por assim dizer, os seus limites, mas quando falsifica ou nega os factos através da simples mentira trava o combate no seu próprio terreno. As possibilidades de sobreviver ao assalto do poder são então para a verdade factual muito escassas ; corre sempre o risco de ficar eliminada do mundo através de manobras e não apenas por algum tempo mas para sempre. Factos e acontecimentos são entidades infinitamente mais frágeis do que axiomas, descobertas e teorias produzidas pelo espírito humano-por mais desvairadas e especulativas que se revelem"...Hannah Arendt, Verdade e Política

segunda-feira, 30 de junho de 2008

VERDADE E POLÍTICA

A CABEÇA DE MEDUSA_ PETER PAUL RUBENS óleo sobre madeira, 68,5 x 118 cm, Viena, Kunsthistorisches Museum

"A marca da verdade de facto, aquela que a torna prioritária para o pensamento político, é a possibilidade de poder ser desvirtuada pela falsidade deliberada ou vulgar mentira, aspecto bem diferente dos erros e das confusões que também podem ocorrer no quadro do seu estabelecimento e registo histórico; e se a vigilância quanto á forma como é estabelecida, em termos da imparcialidade histórica, é lógicamente necessária, torna-se ainda mais difícil e sobretudo perigosa, quando é pervertida ou negada com propósitos esvaziadores da própria essência da actividade política, razão pela qual é imperativo para o pensamento político, mantê-la sob o foco da crítica" Hannah Arendt, Verdade e Política.

domingo, 29 de junho de 2008

QUADRAS DA MINHA MÃE

A SIBILA DE DELFOS DESENROLANDO UM PERGAMINHO_M. ÂNGELO


Já não tenho pai nem mãe

Nem nesta terra parentes

Sou filha das tristes ervas

E neta das águas correntes

****

Quem tem janelas de vidro

Não pode atirar pedradas

Eu fui atirar às vossas

E achei as minhas quebradas

****

Azeitona miudinha

Que azeite podes dar

Homem pobre e sem dinheiro

Que amores hás-de arranjar

****

Mais quero amar uma pedra

Do que amar teu coração

Uma pedra não me foge

E tu foges-me sem razão

Tradição Popular

sábado, 28 de junho de 2008

NIETZSCHE: IDEIAS POLÉMICAS

LEITURA_ÉDOUARD MANET (1865-73?)Óleo sobre tela 61 x 74, Paris Museu de Orsay

"O que eu combato: a excepção que contesta a regra, em lugar de compreender que a manutenção da regra é que dá valor à excepção";

"Neste século de sufrágio universal, em que cada um se sente autorizado a ajuizar de todos os indivíduos e de todas as coisas, sinto-me pressionado para restaurar a hierarquia";

"Há um erro deveras popular: o de ter a coragem das próprias convicções, quando o que importa é ter a coragem de atacar as próprias convicções";

Nietzsche; Vontade de Poder

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Margem Esquerda: O �HOMEM� do s�culo XX

Margem Esquerda: O �HOMEM� do s�culo XX

AGOSTINHO DA SILVA:PENSAMENTOS

NO LAGO_PAUL GAUGIN, 1887Óleo sobre tela, 54 x 65 cm, Amesterdão, Rijksmuseum Vincent Van Gogh

"Se toda a escola devia ter uma biblioteca do que já se sabe, devia ser-lhe paralela outra, ainda mais fecunda, a do que não se sabe";

"Cada um de nós, como Homem, é inteiramente excepcional, simplesmente as condições da sociedade em que vivemos, obriga todos nós, a lentamente irmos parecendo uns com os outros";

"Quando alguma coisa é alguma coisa deixa logo de ser todas as outras, e isso é uma pena. O que é preciso é ser tudo ao mesmo tempo...ser e não ser são a chave do ser";

"Feche as embaixadas que temos e que não servem para nada, e em seu lugar abra tasquinhas com bons petiscos, boa música e gente divertida...foi assim que fizemos ao longo da História":

"O que importa não é educar mas evitar que os homens se deseduquem...porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias...seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo";

"Os homens de acção são os oleiros de Deus e não te esqueças que até pensar é agir...se em Deus, ser e agir são a mesma coisa, no Homem o mesmo deverá proceder-se "AGostinho da Silva, Cadernos biográficos.14.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A ERRÂNCIA E A DÚVIDA LIBERTADORA

NO BARCO Á VELA_GASPAR DAVID FRIEDRICH, 1819
É a errância e a dúvida libertadora
onde desponta uma refrescante aurora
com inéditas questões que varem os dogmas para fora;

***
a ilusão frágil de ser senhor de si e do Universo
onde sobre o real tudo é duvidoso e controverso
menos o que no pensar está inscrito e é o inverso;

***
o espanto frente à imensa natureza
onde a confiança no mecanismo e na ciência
dá lugar aos pilares de tão almejada fortaleza;

***
a humilde sabedoria das metamorfoses
no Universo, múltiplas, errantes e dispersas,
e no homem firmes se as mistura em doses certas;

***
o jogo da dúvida e da certeza
onde cada pergunta desafia a incerteza
e cada dúvida ambiciona por uma nova certeza;

***
o mito da certeza e a ilusão do sujeito
na claridade de uma nova dialéctica
onde a certeza do eu é apenas aspiração frenética;

***
o percurso, a dúvida, e o lugar da verdade
onde a certeza é a bela ilusão em que a dúvida repousa
antes de voar para uma nova imaginação da realidade;

***
É a dúvida e a viagem libertadora,
incerteza e errância no desconhecido;
Humilde sabedoria das metamorfoses,
no Universo e no homem
distantes mas conformes:
Percurso, inquietação e lugar da verdade
onde a dúvida repousa efémera e lúcida
num alegre despertar face à realidade
até subir a uma nova certeza e claridade!...
Luís Lourenço

terça-feira, 24 de junho de 2008

O VEU DA ILUSÂO

PRIMAVERA_SANDRO BOTICELLI
...Neste sentido o homem dionisíaco assemelha-se a Hamlet: ambos penetraram com um olhar profundo na essência das coisas: ambos viram e experimentaram o desencanto da acção, porque a sua acção em nada pode alterar a essência eterna das coisas, e acham ridículo e injurioso que se espere deles a pretensão de endireitar o mundo. O conhecimento mata a acção, para agir é indispensável que sobre o mundo paire o véu da ilusão-tal é a lição de Hamlet e não a lição gratuita de Hans, o sonhador, que de tanto reflectir e por excessivas possibilidades nunca se decide a agir. Não é a reflexão que nos impede de agir mas é o verdadeiro conhecimento e a visão da verdade ameaçadora que anulam todos os impulsos, todos os motivos de agir, tanto em Hamlet como no homem dionisíaco...", Nietzsche, A Origem da Tragédia

segunda-feira, 23 de junho de 2008

DIONYSOS

DOIS SÁTIROS_PETER PAUL RUBENS, 1618-19
Entre as àrvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguem os deuses dos mortais.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 22 de junho de 2008

INTERLÚDIO AMOROSO

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA

As cerejas do teu pomar

Não as ponho nas orelhas

Mas com elas faço o jogo

Que o Mundo no teu olhar

Vem em meus lábios

Beijar...

Luís Lourenço

sábado, 21 de junho de 2008

ESCUTO

POETA DEITADO_MARC CHAGALL



Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus


Escuto sem saber se estou ouvindo

O ressoar das planícies do vazio

Ou a consciência atenta

Que nos confins do universo

Me decifra e fita


Apenas sei que caminho como quem

É olhado amado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho

Solenidade e risco


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MAS QUE RIQUEZA?

PAÍS DA ABUNDÂNCIA_PIETER BRUEGUEL, 1567

Um camponês, um cavaleiro e um letrado descansam de barriga para o ar debaixo the uma árvore que tem uma mesa posta. O escuteiro, à parte, vestido com uma armadura monta guarda e espera que lhe caia algo «no bico».Por trás da fantasia de um país lendário em que o alimento é abundante, existe a dolorosa experiência de fomes crónicas.Tachen Público

***
"A nossa época-que se esforça por socorrer eventuais misérias, por prevení-las, por combater antecipadamente as possibilidades de estorvos-é uma época de pobres. Os nossos ricos são os mais pobres de todos, porque o verdadeiro fim da riqueza é ignorado."Nietzsche, Vontade de Poder I

quarta-feira, 18 de junho de 2008

CARPE DIEM

HOMEM E MULHER CONTEMPLANDO A LUA_GASPAR DAVID FRIEDRICH, c.1824

Óleo sobre tela, 34 x 44 cm, Berlin, Staatliche Museen zu Berlin-Preussischer Kulturbesitz
***
"Havia um imperador que tinha sempre presente a fragilidade de todas as coisas, para impedir-se de atribuir-lhes excessiva importância e poder manter-se em paz com elas.
Eu acho que pelo contrário tudo tem demasiada importância para que possa ser tão fugidio; por isso procuro atribuir a eternidade à mínima coisa.
Serão acaso de lançar ao mar os bálsamos mais preciosos? A minha maior satisfação é que tudo o que foi é eterno, e que o mar o devolve à praia.
Nietzsche, Vontade de Poder, III

terça-feira, 17 de junho de 2008

O PASSEANTE INVISÍVEL

PASSEANTE INVISÍVEL_VIEIRA DA SILVA, 1949-51
Óleo sobre tela, 132x168 cm, São Francisco, Museu de Arte Moderna
***
Actualmente, é necessário falar por vezes grosseiramente e agir de igual modo. Ninguém, nem mesmo aqueles que nos são mais chegados, já compreende as delicadezas e os subentendidos.
Aquilo que não for proferido alto, o que não é gritado, não existe. A dor, as privações, a vocação, o prolongado dever e o grande triunfo sobre si mesmo...ninguém nota nada, ninguém adivinha nada.
A jovialidade passa por falta de profundidade, ainda que ela seja por vezes a alegria que sucede a uma longa e excessiva tensão, quem detecta isso?

Tenho convivido com actores e tenho-me esforçado por mostrar-lhes respeito. Contudo, ninguém pode imaginar como é para mim doloroso e penoso viver com comediantes; ou então com qualquer disfrutador fleumático, com espírito que baste.
Nietzsche, Vontade de Poder, I

domingo, 15 de junho de 2008

O ACTO SOLITÁRIO E A APOSTA DUAL

SONHOS TERNOS_PAUL GAUGUIN , 1894

É o acto solitário e a aposta dual

onde a vida do conceito e o ser da realidade

se fermentam um ao outro por igual;

***

o ser particular e o conceito universal

que se desafiam um ao outro na ilusão

de ser a sua verdade a verdade na palavra final;

***

a liberdade fechada na reconsolação singular

onde o eu sobe ao castelo de si para a reconfirmar

mas fica refém do real onde não a pode reconciliar;

***

o ser na casa de si e a felicidade no Mundo

onde a liberdade se torna viva e concreta

e aspira a ser mais que uma ilusão valiosa e secreta;

***

o ser particular e o conceito universal

onde a liberdade se torna o plasma do Mundo

e a felicidade pode voar em realizações de fundo;

***

a verdade solitária e a coragem colectiva

que se fundem uma na outra

até arrancar novas formas à vida;

***

o sentido da vida e a liberdade sonhada

que se orgulham de ser nos humanos

a utopia desejada e a ambição realizada;

***

É a verdade solitária e a aposta universal,

liberdade plena de si mas vacilante no Mundo,

onde a união entre ambas se converte

no trágico dilema que é a epopeia de fundo;

Procura solitária e coragem colectiva

ancoradas bem uma na outra

até arrancar novas formas à vida;

O poder trágico do elo cósmico-humano

trazido nobremente à filosofia!...


Luís Lourenço

sábado, 14 de junho de 2008

A ENCANTDORA DE SERPENTES?

LA CHARMEUSE DE SERPENTS_HENRI ROUSSEAU, 1907

Óleo sobre tela, 169x 189,5 cm, Paris Musée do`Orsay
  • "Dantes, o eu escondia-se no rebanho, presentemente, o rebanho esconde-se no fundo do eu»;
  • «À altitude conveniente tudo se assemelha e se confunde, os pensamentos do filósofo, as obras do artista e as boas acções»;
  • O que se perde em qualquer especialização, é a forma sintética que, na natureza, é a forma superior»

Nietzsche, Vontade de Poder I

quarta-feira, 11 de junho de 2008

AINDA A QUESTÃO DA JUSTIÇA?

MINERVA E O CENTAURO_SANDRO BOTICELLI; cerca de 1482Nas vestes de Minerva, a deusa da sabedoria, Boticelli colocou o emblema da família

*******

"Admitimos normalmente que uma discussão conduzida de modo ideal entre um grupo de pessoas tem maiores probabiliades de atingir uma conclusão correcta[se necessário mediante uma votação] do que as análises isoladas de cada um dos participantes. Qual a razão deste facto? No quotidiano, a troca de opiniões com outros limita a nossa parcialidade e alarga as nossas perspectivas; somos obrigados a ver a realidade através do ponto de vista dos outros e tomamos consciência da limitação das nossas posições. Mas, num processo ideal, a presença do véu de ignorância signfica que a imparcialidade do legislador é um dado adquirido. Os benefícios da discussão decorrem do facto de que mesmo os legisladores representativos têm conhecimentos e capacidades de raciocínio limitados. Nenhum deles sabe tudo o que os outros sabem ou consegue tirar as conclusões que só em conjunto se torna possível atingir. A discussão é uma forma de combinar a informação e de alargar o alcance dos argumentos. Os efeitos das deliberações em comum parecem melhorar necessáriamente a situação, pelo menos desde que se prolonguem no tempo." JOHN RAWLS; UMA TEORIA DA JUSTIÇA

terça-feira, 10 de junho de 2008

O PODER DA SAGEZA E DA JUSTIÇA

CÍRCULO LIMITE III_M.C.ESCHER
É o poder da sageza e da justiça
onde o humano e o divino se reconciliam
para fortalecer a acção e enobrecer a preguiça;
...
o apreço às partes e a felicidade geral
onde se conjugam múltiplas vontades
na aspiração da medida certa e ideal;
...
a força do igual e a riqueza do diverso
que desabrocham no jardim ético do Mundo
até o ser se ancorar e expulsar o inverso;
...
o sopro do homem e do Universo
onde o relógio da grande inquietação
é enfrentar e subjugar o perverso;
...
a justiça soberana e a sua irradiação nas leis
onde os povos erguem memoráveis instituições
para vencer a violência e não ficar da injustiça reféns;
...
a união pelo costume e a paixão pelo renascer
na vida dos cidadãos e na espontaneidade dos povos
onde o sobre-humano sempre pode reflorescer;
...
o sentido da dor e da grandeza
que aprofundam o coração homens
e neles marcam a tristeza e a fortaleza;
...
É o poder da sageza e da justiça,
combate da energia contra a preguiça,
apreço às partes e a felicidade geral
na aspiração da medida certa e ideal;
Sopro do homem e relógio do Universo
na luta contra o perverso;
Poder, Inocência e Caos,
fonte de toda a dor e alegria
onde mergulha inteira a filosofia!...
Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

DEFINIÇÃO DE DESOBEDIÊCIA CIVIL

GRAVITAÇÃO_M.C. ESCHER
"Começarei por definir a desobediência civil como um acto público, não violento, decidido em consciência mas de natureza política, contrário à lei e usualmente praticado com o objectivo de provocar uma mudança nas leis ou na política seguida pelo governo . Ao agir desta forma apelamos ao sentido de justiça da maioria da comunidade e declaramos que, na nossa opinião moderada e ponderada, os princípios da cooperação social entre homens livres e iguais não estão a ser repeitados...

A desobediência civil -para além de ser um acto político- é também um acto público. Não só apela a princípios públicos como é praticado publicamente.Participa-se nela abertamente, fazendo-a anteceder de um razoável aviso prévio: não é uma acção secreta ou camuflada. Podemos compará-la a um discurso público, e tratando-se de uma forma de apelo público, da afirmação de uma profunda e consciente convicção política, ela tem lugar no forum público. Por esta razão, entre outras, a desobediência civil não é violenta. Tenta evitar o uso da violência, em especial contra as pessoas, não pela recusa de princípio em recorrer à força, mas porque esta constitui a expressão final da sua reinvindicação. Efectuar actos de violência susceptíveis de ferir e de causar mal é incompatível com a desobediência civil enquanto forma de apelo. Na verdade qualquer interferência com as liberdades de outrem tende a esconder a natureza de desobediência civil da acção em causa. Pode acontecer que, se este apelo não for bem sucedido, se recorra posteriormente à resistência pela força. No entanto, a desobediência civil dá voz a convicções de consciência profundamente sentidas: embora possa constituir um aviso e uma admoestação não é em si mesma uma ameaça..." JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA.

domingo, 8 de junho de 2008

JUSTIÇA E POUPANÇA

As CRIANÇAS RICAS_FERNANDO BOTERO, 1968Óleo sobre, 98,1 x1 95,6.Colecção particular.

"Quando a população é pobre e a poupança difícil deve exigir-se uma taxa mais baixa de poupança; enquanto que de uma sociedade mais rica podemos razoavelmente contar com poupanças maiores, dado que o sacrifício real exigido pela poupança é menor. Pode acontecer que quando as instituições justas estiverem solidamente estabelecidas e todas as liberdades básicas efectivamente realizadas, a acumulação líquida exigida desça para zero. Ao atingir este ponto a sociedade satisfaz o seu dever de justiça conservando as instituições justas e salvaguardando a respectiva base material. O princípio da poupança justa aplica-se àquilo que, de acordo com as exigências da justiça, uma sociedade deve poupar. O desejo de os seus membros pouparem por outras razões coloca-se-se-se num plano diferente"

JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA

sábado, 7 de junho de 2008

PERSPICÁCIA

PERSPICÁCIA_RENÉ MAGRITTE
Magritte pinta-se na sua ocupação de pintor. Mais do que isso, transmite a criação inerente a este ofício artístico. O ovo constitui o motivo, mas na configuração artística revela-se na leveza de um pássaro.
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"E quanto a mim que amo a vida, parece-me que os que melhor entendem a felicidade são as borboletas e as bolas de sabão, e todos os que se lhe assemelham"

Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

EQUIDADE E JUSTIÇA?

MENINA COM ARCO_PIERRE AUGUSTE RENOIR,1885Óleo sobre tela, 125x 75 cm, Washington, National Gallery of Art

"Não se pode esquecer que o princípio da equidade tem duas partes, uma que indica como é que contraímos obrigações, ou seja, praticando volutariamente certos actos, e outra que estabelece a condição de que a instituição em causa deve ser justa senão de modo perfeito, pelo menos tão justa quanto é razoável esperar face às circunstâncias concretas. O objectivo desta segunda cláusula é garantir que a obrigação surgirá apenas se certas condições de fundo estiverem cumpridas. A aceitação ou mesmo o consentimento de instituições claramente injustas não dá origem a obrigações. É geralmente aceite que as promessas obtidas por extorsão são nulas ab initio. Da mesma forma, as estruturas sociais injustas constituem, elas próprias, uma espécie de extorsão, ou até de violência, e o consentimento que se lhes preste não é vinculativo. A razão para esta condição está no facto de que as partes na posição original insistirão para que ela seja imposta", JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA,

quinta-feira, 5 de junho de 2008

AVENTURA DO ESPÍRITO[DIA DO AMBIENTE]

VASO DE PEÓNIAS NUM PEDESTAL_EDOUARD MANET,1864Óleo sobre tela, 93,2x 70,2.Paris Museu de Orsay

E aí, nessa extrema solidão, se produz a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão. Decide conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.

Busca um último senhor; ele será o inimigo desse último senhor e do seu derradeiro Deus; ele quer medir-se com o grande dragão, e vencê-lo.

Mas o que é esse grande dragão que, doravante, o espírito recusa chamar seu senhor e seu Deus? o nome do grande dragão é «Tu -deves ». Mas a alma do leão diz: «Eu quero »

«Tu-deves» barra-lhe o caminho, brilhando de oiro, coberto de escamas, e sobre cada uma dessas escamas brilham em letras de oiro, estas palavras: «Tu-deves »

Valores milenários brilham sobre essas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: «Todos os valores das coisas brilham sobre o meu corpo.

Todos os valores foram criados no passado, e a soma de todos os valores criados , sou eu. Em verdade não deverá mais existir qualquer «eu quero»...Assim fala o dragão.

Meus irmãos para que serve ter este dragão no espírito? porque não será suficiente o animal paciente, resignado e respeitoso?

O próprio leão ainda não está preparado para criar novos valores; mas liberta-se a fim de se tornar apto a criar novos valores, eis o que pode a força do leão.

Para conquistar a sua própria liberdade e o direito sagrado de dizer não, mesmo ao dever, para isso meus irmãos é necessário ser leão.

Conquistar o direito a novos valores é para um espírito paciente e laborioso a mais temível das empresas. E por certo que ele vê nela um acto de banditismo e de rapina.

O que ele outrora amava como o seu bem mais sagrado, é o «Tu-deves » Deve agora descobrir a ilusão e a arbitrariedade na própria base do que de mais sagrado existe no mundo, e conquistar assim, pela violência, o direito a libertar-se dessa prisão: para exercer uma tal violência é necessário ser leão.

Mas dizei-me meus irmãos que pode ainda a criança, e de que o próprio leão seria incapaz? Porque deverá ainda o leão roubador tornar-se criança?

É que a criança é inocência e olvido, novo começar, jogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel, afirmação santa." Nietzsche, assim Falava Zaratustra

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DAS TRÊS METAMORFOSES DO ESPÍRITO

O TOCADOR DE LIRA_CARAVAGGIOÓleo sobre tela, 100x126,5 cm, Nova Iorque, colecção particular

« Que há de pesado para transportar? diz o espírito transformado em besta de carga, e logo se ajoelha, tal como o camelo, e deseja ser bem carregado.

«Qual a mais pesada das tarefas, ó heroi, pergunta o espírito tornado besta de carga, eu a quero assumir, a fim de gozar da minha força. " Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A TORRE DE BABEL

A TORRE DE BABEL_PIETER BRUEGEL, 1563

Bruegel coloca a reconstituição da TORRE na paisagem costeira-é graças ao mar que os Holandeses adquirem grande parte da sua riqueza. A TORRE encontra-se por isso à beira de um rio-de facto, o transporte das mercadorias de grande tonelagem, como as pedras e o mármore, fazia-se pelas vias navegáveis e não por terra, onde os caminhos não eram pavimentados. A pintura introduz no episódio bíblico várias referências à realidade, entre outras o panorama da cidade.

Os contemporâneos de Bruegel encontraram explicação para a sua situação pouco babitual[ uma sociedade «multicultural» onde era muito difícil as pessoas entenderem-se-em particular no campo da religião] na Bíblia, no relato da construção da Torre de Babel[Génesis, II]; o rei Nimrod queria construir uma Torre cujo topo chegasse ao céu: Deus, aos olhos de quem este edifício representava o desmesurado orgulho dos homens, castigou-os, introduzindo a diferença de línguas. Vendo-se desde então impossibilitados de se entender, os operários dispersaram-se deixando a obra inacabada. TASCHEN PÚBLICO

terça-feira, 27 de maio de 2008

A eterna criança

A Criança e a Marioneta, cerca de 1903, em pintura de Henri RousseauÓleo sobre tela, 100x 81 cm, Winterthur, Kunstmuseum


"Acreditamos que os contos e os jogos pertencem à infância, míopes que nós somos! Como poderíamos nós viver, não importa em qual idade, sem contos e sem jogos! É verdade que damos outros nomes a isto e lidamos com ele de forma diferente, mas é precisamente uma prova de que se trata da mesma coisa!-Porque a criança, ela mesma, considera o seu jogo um trabalho e os contos a verdade. A brevidade da vida devia guardar-nos contra esta separação pedante por idades-como se cada idade tivesse qualquer coisa de novo-e seria um desafio ao poeta mostrar-nos que o homem- mesmo com duzentos anos de idade- fosse capaz de viver verdadeiramente sem contos e sem jogos"Nietzsche; Opiniões e Sentenças à Mistura

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A arte de raciocinar

Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem(Tampo de Mesa) de H.BoschÓleo sobre madeira, 120x150 cm, Madrid, Museu do Prado.

"O maior progresso que os homens fizeram consiste em terem aprendido a raciocinar de modo correcto . Não é uma coisa tão natural como pensa Schopenhauer quando diz:«Todos estamos aptos a raciocinar mas poucos a julgar», mas aprendemo-la tarde e ainda agora não impera .O raciocínio falacioso foi nos tempos antigos a regra, e as mitologias de todos os povos, a sua magia e suas superstições, o seu culto religioso e o seu direito, são minas inesgotáveis de provas para apoiar esta proposição". Nietzsche, Caracteres da Alta e da Baixa Civilização.

domingo, 25 de maio de 2008

Frases que fazem pensar?

Aracne(uma sibila?), cerca de 1644-1648.Pintura de VelazquezÓleo sobre tela, 64x58 cm, Dallas, Meadows Museum, Southern Methodist University

"As convicções são inimigas da verdade mais perigosas do que as mentiras";

"Ter por princípio não falar de si é uma muito nobre hipocrisia";

"A exigência de ser amado é a maior das presunções"

Nietzsche, o Homem em Sociedade

sábado, 24 de maio de 2008

Paradoxos do autor

Estudo para a cabeça de Apolo em «A Forja de Vulcano » VelazquezÓleo sobre tela, 36,3x25,2 cm, Japão, colecção particular

"Os pretensos paradoxos do autor de que o leitor tantas vezes se choca não estão no livro do autor mas na cabeça do leitor" Nietzsche, da Alma dos Artistas e Escritores.



sexta-feira, 23 de maio de 2008

Dons naturais

A forja de Vulcano em pintura de VelasquezÓleo sobre tela 223,5x290, Museu do Prado em Madrid

"Numa humanidade tão amplamente desenvolvida como a actual, cada um recebe da natureza o acesso a muitos talentos, mas quase sempre tem um talento inato e raros são aqueles a quem é conferido, pela acção fértil da natureza e da educação, o grau de tenacidade, constância e energia necessários para conseguirem realizar esse talento que genuinamente transita através deles como um manancial em obras e actos"Nietzsche, Caracteres da Alta e da Baixa Civilização.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Espírito

Retrato de Mona Lisa de Leonardo da Vinci!
Óleo sobre madeira, 77x53 cm, Museu do Louvre-Paris

"Os artistas mais espirituais são capazes de criar os mais imperceptíveis sorrisos"Nietzsche, da Alma dos Artistas e Escritores

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A importância dos Livros

Simbólica pintura de Sandro Boticelli
Lei draconiana contra os escritores

"Devia considerar-se o escritor como um malfeitor que não merece aceitação e graça a não ser nos casos mais raros: seria um bom antídoto contra a proliferação dos livros"Nietzsche, Da Alma dos Artistas e dos Escritores

terça-feira, 20 de maio de 2008

O que vale mesmo a pena

Senhora de Azul com Guitarra, na pintura de Tamara de Lempicka!Óleo sobre tela, 116x75 cm. Colecção particular

"O que vale mesmo a pena é ter um espírito leve; ou um espírito leve de natureza ou um espírito tornado leve pela arte e pela ciência" Nietzsche, o Homem em Si próprio

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Amor e dualidade.

Idílio amoroso, eternizado na tela, por Tamara de Lempicka!óleo sobre tela, 41x32,5 cm. Colecção particular.

"O que é o amor senão compreender e regozijar-se com que o outro aja e sinta de forma diferente da nossa e até oposta? Para que o amor estimule os contrários na alegria, é necessário que não os suprima e muito menos que os negue...Mesmo o amor-próprio tem por condição uma dualidade irredutível[ou uma multiplicidade] numa só pessoa." Nietzsche, Opiniões e Sentenças à Mistura.


sábado, 17 de maio de 2008

Máscaras

Rapariga de Luvas, 1929.Que famoso quadro de Lempicka!
verdade ou ironia?
"Há mulheres que, seja qual for a pesquisa feita, não têm interior, são puras máscaras.Há que ter pena do homem que se entrega a estes seres quase fantasmáticos, necessariamente incapazes de o satisfazer, mas são justamente elas quem mais é capaz de estimular fortemente o seu desejo. Este bem procura a sua alma mas não tem outro remédio senão continuar sempre a procurar" Nietzsche, Mulher e Criança.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O talento da amizade

Amendoeira em flor. Que Bela pintura de Van Gog!
"Entre os homens que têm um dom particular para a amizade destaco dois tipos: um está em evolução constante e para cada fase do seu desenvolvimento procura o amigo conveniente. A série de amigos que vai fazendo raramente envolve ligações recíprocas entre eles e por vezes há desentendimentos e contradições: muito naturalmente porque as fases ulteriores do seu desenvolvimento anulam ou alteram as fases precedentes. Um homem assim pode com piada chamar-se escala.-o outro tipo é representado por aquele que exerce uma força de atracção sobre caracteres e talentos muito diversos e para além de ganhar um largo círculo de amigos, também entre estes se geram relações de amizade, não obstante todas as diferenças. Podemos chamar-lhe homem-círculo: porque esta convergência de situações e naturezas tão diversas deve ser de qualquer modo uma forma preexistente nele.-De resto o talento de ter bons amigos é, em muita gente, maior do que o talento de ser bom amigo.
Nietzsche, O Homem em Sociedade