terça-feira, 2 de setembro de 2008

O MEU RIO

O MEU RIO Foto de Ana Rita Seirôco


No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
A lua mergulhada no silêncio
Na paz desta margem junto ao rio...
O tempo está mais além, além de mim
Perdido nas planícies do Oceano profundo...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar supenso no teu Sorriso...
Na luz que brilha do teu rosto
Deixo-o para que também ele possa sorrir...
Deixo-o porque através do seu Sorriso
Ele consegue ver o mundo inteiro
Encontrar um rumo mesmo tendo perdido o Norte...

No teu Sorriso...
Deixo o meu olhar suspenso no teu Sorriso...
Suspenso na imensidão do meu luar
Suspenso na Eternidade!...

POEMA DE ANA RITA SEIRÔCO

domingo, 24 de agosto de 2008

CATARSE GUERREIRA

SOLDADO BEBE_MARC CHAGALL
Big Bang da vida
explosão de contrários
jogo divino em fogo criado
e luta eterna, sem descanso e sem fim
imortal e sem medida!
***a não ser no fulgor do meio-dia
e na explosão festiva da alegria da vida
onde canta a música
e sonha festa e a poesia
***e onde cintilam a arte e a filosofia
que trazem de volta o sal à vida,
como jogos de musas
e mistérios na claridade dos dias!
***Eras festa imensa
e fogos puros de artifícios,
eras nascente de aventura livres,
e berço de viagens sem precipícios !
***Mas vestiste de tragédia,
cega, feia, horrível e real,
as múltiplas vidas que perderam
a fonte dos sonhos vitais
em jogos absurdos
desesperados, fatais!
***

De tragédia bonita e real,
com viagens flutuantes de vida,
e correntes de Sol e fantasia!
caíste, abrupta e absurda, na morte real,
e no caos profundo, vergonhoso e letal,
abriste assim mais um sepulcro
para a poesia!
***E na voragem cega da guerra,
que crianças e jovens,
que mulheres e homens,
que a todos levaste fora do tempo,
como falas agora da sua inocência?
que fechaste em manto tão triste!
***Poderás ainda errância dionisíaca do mundo,
lugar dos sonhos, das dores e das elegias
trazer de volta o fulgor da vida
ao berço das inspirações
e libertá-la com raios profundos
da destruição e das escravas submissões?
***Ai! se tudo isto nada mais fosse
que um sonho!
ainda que o sonho de uma elegia!
Ah! como tudo isto imaginaria
trazer de volta à terra humana
acima do luto e do pesadelo e da dor
a vida, a festa e a poesia!...
Luís Lourenço, em "Verdade e Política" de Hannah Arendt, Lisboa Editora

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

INTERLÚDIO REFLEXIVO

ALEGORIA DA PAZ_RUBENS
Tu que rompes todas as grelhas da palavra
sem moral ou sentimento
Tu que desestabilizas todos os espaços possíveis
e invades as fronteiras de tempos inverosímeis
Tu que destronas monarcas senhores e impérios
e fazes perder a fé nos vitupérios!
Desce à tribuna e frontalmente
arrogante intempestivo e frio
Edifica em cada certeza um mistério
Lança em cada palavra um desafio
e diz a cada homem que o silêncio
jamais será vazio!...

Luís Lourenço

segunda-feira, 14 de julho de 2008

FORÇAS ACTIVAS

O CICERONE_RENÉ MAGRITTE, 1947
O guia falador e imperioso estabelece a direcção e o caminho. Uma pausa reflexiva não corresponderia à sua estrutura. Sob o seu domínio, a tecnologia e a política são igualmente caracterizadas pelo mesmo barbarismo absurdo.

*******

"Paixões afirmativas: a altivez, a alegria, a saúde, o amor sexual, a hostilidade e a luta, o respeito, os belos gestos, as boas maneiras, a vontade forte, a disciplina intelectual, a vontade de poder, o reconhecimento para com a terra e a Vida, tudo o que é rico e ofertante, tudo o que faz jus à vida -o que a doura, eterniza e diviniza-todo o poder das virtudes que nos transfiguram; tudo o que aprova, afirma, diz sim em palavras e em actos"

Nietzsche, Vontade de Poder II

terça-feira, 8 de julho de 2008

SELO DE AMIZADE




Tenho o grato prazer de o partilhar/ofereçer aos bloguistas e visitantes que valorizam a qualidade da blogosfera com os seus posts e comentários.

Peço desculpa por não cumprir literalmente o desafio numérico proposto, mas vacilo tanto ainda em procedimentos informáticos que isso implicaria para mim muito desgaste de tempo.

Dêem-lhe o seguimento que acharem oportuno. A amizade, mesmo na blogosfera, nunca será certamente uma palavra vã.




quinta-feira, 3 de julho de 2008

A MORALIDADE ATÉ AOS NOSSOS DIAS?

EXTRACÇÂO DA PEDRA DA LOUCURA_HIERONYMUS BOSCH

Óleo sobre madeira, 48 x 35 cm, Madrid, Museu do Prado
***

"O primeiro signo de que o animal se transformou em humano é quando os seus actos já não se confinam ao bem-estar momentâneo mas elevam-se a coisas duráveis, por conseguinte, o homem procura a utilidade, a apropriação com uma finalidade:é a primeira eclosão do livre governo da razão .Um nível superior é atingido quando age de acordo com o princípio da honra; graças a ele disciplina-se e submete-se aos sentimentos comuns, o que o eleva muito acima da fase em que a utilidade, entendida apenas pessoalmente, era o seu único padrão; ele honra e quer ser honrado, isto é, ele concebe o útil conforme a sua opinião acerca do outro e a opinião do outro acerca dele.Finalmente, age no nível mais elevado da moralidade até aos nossos dias, de acordo com a sua própria medida das coisas e dos homens; quer para ele e para os outros o que é honorável, o que é útil; tornou-se legislador de opiniões, segundo a concepção sempre cada vez mais desenvolvida do útil e do honorável. A ciência torna-o capaz de preferir o mais útil, isto é, a utilidade geral duradoira à utilidade pessoal, a preferência respeitosa de um valor geral duradouro ao do momento: vive e age como indivíduo colectivo.

Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, I

quarta-feira, 2 de julho de 2008

VERDADES DE FACTO: PORQUE SÃO FRÁGEIS?

GUERNICA(PORMENOR)_PABLO PICASSO, 1937
...Como os factos e os acontecimentos [ resultado permanente do convívio e da interacção humana] é que constituem a textura real da esfera política, é das verdades de facto que evidentemente e sobretudo nos ocupamos aqui. A dominação[ para usar a linguagem de Hobbes], quando combate a verdade racional exorbita, por assim dizer, os seus limites, mas quando falsifica ou nega os factos através da simples mentira trava o combate no seu próprio terreno. As possibilidades de sobreviver ao assalto do poder são então para a verdade factual muito escassas ; corre sempre o risco de ficar eliminada do mundo através de manobras e não apenas por algum tempo mas para sempre. Factos e acontecimentos são entidades infinitamente mais frágeis do que axiomas, descobertas e teorias produzidas pelo espírito humano-por mais desvairadas e especulativas que se revelem"...Hannah Arendt, Verdade e Política

segunda-feira, 30 de junho de 2008

VERDADE E POLÍTICA

A CABEÇA DE MEDUSA_ PETER PAUL RUBENS óleo sobre madeira, 68,5 x 118 cm, Viena, Kunsthistorisches Museum

"A marca da verdade de facto, aquela que a torna prioritária para o pensamento político, é a possibilidade de poder ser desvirtuada pela falsidade deliberada ou vulgar mentira, aspecto bem diferente dos erros e das confusões que também podem ocorrer no quadro do seu estabelecimento e registo histórico; e se a vigilância quanto á forma como é estabelecida, em termos da imparcialidade histórica, é lógicamente necessária, torna-se ainda mais difícil e sobretudo perigosa, quando é pervertida ou negada com propósitos esvaziadores da própria essência da actividade política, razão pela qual é imperativo para o pensamento político, mantê-la sob o foco da crítica" Hannah Arendt, Verdade e Política.

domingo, 29 de junho de 2008

QUADRAS DA MINHA MÃE

A SIBILA DE DELFOS DESENROLANDO UM PERGAMINHO_M. ÂNGELO


Já não tenho pai nem mãe

Nem nesta terra parentes

Sou filha das tristes ervas

E neta das águas correntes

****

Quem tem janelas de vidro

Não pode atirar pedradas

Eu fui atirar às vossas

E achei as minhas quebradas

****

Azeitona miudinha

Que azeite podes dar

Homem pobre e sem dinheiro

Que amores hás-de arranjar

****

Mais quero amar uma pedra

Do que amar teu coração

Uma pedra não me foge

E tu foges-me sem razão

Tradição Popular

sábado, 28 de junho de 2008

NIETZSCHE: IDEIAS POLÉMICAS

LEITURA_ÉDOUARD MANET (1865-73?)Óleo sobre tela 61 x 74, Paris Museu de Orsay

"O que eu combato: a excepção que contesta a regra, em lugar de compreender que a manutenção da regra é que dá valor à excepção";

"Neste século de sufrágio universal, em que cada um se sente autorizado a ajuizar de todos os indivíduos e de todas as coisas, sinto-me pressionado para restaurar a hierarquia";

"Há um erro deveras popular: o de ter a coragem das próprias convicções, quando o que importa é ter a coragem de atacar as próprias convicções";

Nietzsche; Vontade de Poder

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Margem Esquerda: O �HOMEM� do s�culo XX

Margem Esquerda: O �HOMEM� do s�culo XX

AGOSTINHO DA SILVA:PENSAMENTOS

NO LAGO_PAUL GAUGIN, 1887Óleo sobre tela, 54 x 65 cm, Amesterdão, Rijksmuseum Vincent Van Gogh

"Se toda a escola devia ter uma biblioteca do que já se sabe, devia ser-lhe paralela outra, ainda mais fecunda, a do que não se sabe";

"Cada um de nós, como Homem, é inteiramente excepcional, simplesmente as condições da sociedade em que vivemos, obriga todos nós, a lentamente irmos parecendo uns com os outros";

"Quando alguma coisa é alguma coisa deixa logo de ser todas as outras, e isso é uma pena. O que é preciso é ser tudo ao mesmo tempo...ser e não ser são a chave do ser";

"Feche as embaixadas que temos e que não servem para nada, e em seu lugar abra tasquinhas com bons petiscos, boa música e gente divertida...foi assim que fizemos ao longo da História":

"O que importa não é educar mas evitar que os homens se deseduquem...porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias...seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo";

"Os homens de acção são os oleiros de Deus e não te esqueças que até pensar é agir...se em Deus, ser e agir são a mesma coisa, no Homem o mesmo deverá proceder-se "AGostinho da Silva, Cadernos biográficos.14.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A ERRÂNCIA E A DÚVIDA LIBERTADORA

NO BARCO Á VELA_GASPAR DAVID FRIEDRICH, 1819
É a errância e a dúvida libertadora
onde desponta uma refrescante aurora
com inéditas questões que varem os dogmas para fora;

***
a ilusão frágil de ser senhor de si e do Universo
onde sobre o real tudo é duvidoso e controverso
menos o que no pensar está inscrito e é o inverso;

***
o espanto frente à imensa natureza
onde a confiança no mecanismo e na ciência
dá lugar aos pilares de tão almejada fortaleza;

***
a humilde sabedoria das metamorfoses
no Universo, múltiplas, errantes e dispersas,
e no homem firmes se as mistura em doses certas;

***
o jogo da dúvida e da certeza
onde cada pergunta desafia a incerteza
e cada dúvida ambiciona por uma nova certeza;

***
o mito da certeza e a ilusão do sujeito
na claridade de uma nova dialéctica
onde a certeza do eu é apenas aspiração frenética;

***
o percurso, a dúvida, e o lugar da verdade
onde a certeza é a bela ilusão em que a dúvida repousa
antes de voar para uma nova imaginação da realidade;

***
É a dúvida e a viagem libertadora,
incerteza e errância no desconhecido;
Humilde sabedoria das metamorfoses,
no Universo e no homem
distantes mas conformes:
Percurso, inquietação e lugar da verdade
onde a dúvida repousa efémera e lúcida
num alegre despertar face à realidade
até subir a uma nova certeza e claridade!...
Luís Lourenço

terça-feira, 24 de junho de 2008

O VEU DA ILUSÂO

PRIMAVERA_SANDRO BOTICELLI
...Neste sentido o homem dionisíaco assemelha-se a Hamlet: ambos penetraram com um olhar profundo na essência das coisas: ambos viram e experimentaram o desencanto da acção, porque a sua acção em nada pode alterar a essência eterna das coisas, e acham ridículo e injurioso que se espere deles a pretensão de endireitar o mundo. O conhecimento mata a acção, para agir é indispensável que sobre o mundo paire o véu da ilusão-tal é a lição de Hamlet e não a lição gratuita de Hans, o sonhador, que de tanto reflectir e por excessivas possibilidades nunca se decide a agir. Não é a reflexão que nos impede de agir mas é o verdadeiro conhecimento e a visão da verdade ameaçadora que anulam todos os impulsos, todos os motivos de agir, tanto em Hamlet como no homem dionisíaco...", Nietzsche, A Origem da Tragédia

segunda-feira, 23 de junho de 2008

DIONYSOS

DOIS SÁTIROS_PETER PAUL RUBENS, 1618-19
Entre as àrvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguem os deuses dos mortais.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 22 de junho de 2008

INTERLÚDIO AMOROSO

AMETISTA_TAMARA DE LEMPICKA

As cerejas do teu pomar

Não as ponho nas orelhas

Mas com elas faço o jogo

Que o Mundo no teu olhar

Vem em meus lábios

Beijar...

Luís Lourenço

sábado, 21 de junho de 2008

ESCUTO

POETA DEITADO_MARC CHAGALL



Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus


Escuto sem saber se estou ouvindo

O ressoar das planícies do vazio

Ou a consciência atenta

Que nos confins do universo

Me decifra e fita


Apenas sei que caminho como quem

É olhado amado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho

Solenidade e risco


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MAS QUE RIQUEZA?

PAÍS DA ABUNDÂNCIA_PIETER BRUEGUEL, 1567

Um camponês, um cavaleiro e um letrado descansam de barriga para o ar debaixo the uma árvore que tem uma mesa posta. O escuteiro, à parte, vestido com uma armadura monta guarda e espera que lhe caia algo «no bico».Por trás da fantasia de um país lendário em que o alimento é abundante, existe a dolorosa experiência de fomes crónicas.Tachen Público

***
"A nossa época-que se esforça por socorrer eventuais misérias, por prevení-las, por combater antecipadamente as possibilidades de estorvos-é uma época de pobres. Os nossos ricos são os mais pobres de todos, porque o verdadeiro fim da riqueza é ignorado."Nietzsche, Vontade de Poder I

quarta-feira, 18 de junho de 2008

CARPE DIEM

HOMEM E MULHER CONTEMPLANDO A LUA_GASPAR DAVID FRIEDRICH, c.1824

Óleo sobre tela, 34 x 44 cm, Berlin, Staatliche Museen zu Berlin-Preussischer Kulturbesitz
***
"Havia um imperador que tinha sempre presente a fragilidade de todas as coisas, para impedir-se de atribuir-lhes excessiva importância e poder manter-se em paz com elas.
Eu acho que pelo contrário tudo tem demasiada importância para que possa ser tão fugidio; por isso procuro atribuir a eternidade à mínima coisa.
Serão acaso de lançar ao mar os bálsamos mais preciosos? A minha maior satisfação é que tudo o que foi é eterno, e que o mar o devolve à praia.
Nietzsche, Vontade de Poder, III

terça-feira, 17 de junho de 2008

O PASSEANTE INVISÍVEL

PASSEANTE INVISÍVEL_VIEIRA DA SILVA, 1949-51
Óleo sobre tela, 132x168 cm, São Francisco, Museu de Arte Moderna
***
Actualmente, é necessário falar por vezes grosseiramente e agir de igual modo. Ninguém, nem mesmo aqueles que nos são mais chegados, já compreende as delicadezas e os subentendidos.
Aquilo que não for proferido alto, o que não é gritado, não existe. A dor, as privações, a vocação, o prolongado dever e o grande triunfo sobre si mesmo...ninguém nota nada, ninguém adivinha nada.
A jovialidade passa por falta de profundidade, ainda que ela seja por vezes a alegria que sucede a uma longa e excessiva tensão, quem detecta isso?

Tenho convivido com actores e tenho-me esforçado por mostrar-lhes respeito. Contudo, ninguém pode imaginar como é para mim doloroso e penoso viver com comediantes; ou então com qualquer disfrutador fleumático, com espírito que baste.
Nietzsche, Vontade de Poder, I

domingo, 15 de junho de 2008

O ACTO SOLITÁRIO E A APOSTA DUAL

SONHOS TERNOS_PAUL GAUGUIN , 1894

É o acto solitário e a aposta dual

onde a vida do conceito e o ser da realidade

se fermentam um ao outro por igual;

***

o ser particular e o conceito universal

que se desafiam um ao outro na ilusão

de ser a sua verdade a verdade na palavra final;

***

a liberdade fechada na reconsolação singular

onde o eu sobe ao castelo de si para a reconfirmar

mas fica refém do real onde não a pode reconciliar;

***

o ser na casa de si e a felicidade no Mundo

onde a liberdade se torna viva e concreta

e aspira a ser mais que uma ilusão valiosa e secreta;

***

o ser particular e o conceito universal

onde a liberdade se torna o plasma do Mundo

e a felicidade pode voar em realizações de fundo;

***

a verdade solitária e a coragem colectiva

que se fundem uma na outra

até arrancar novas formas à vida;

***

o sentido da vida e a liberdade sonhada

que se orgulham de ser nos humanos

a utopia desejada e a ambição realizada;

***

É a verdade solitária e a aposta universal,

liberdade plena de si mas vacilante no Mundo,

onde a união entre ambas se converte

no trágico dilema que é a epopeia de fundo;

Procura solitária e coragem colectiva

ancoradas bem uma na outra

até arrancar novas formas à vida;

O poder trágico do elo cósmico-humano

trazido nobremente à filosofia!...


Luís Lourenço

sábado, 14 de junho de 2008

A ENCANTDORA DE SERPENTES?

LA CHARMEUSE DE SERPENTS_HENRI ROUSSEAU, 1907

Óleo sobre tela, 169x 189,5 cm, Paris Musée do`Orsay
  • "Dantes, o eu escondia-se no rebanho, presentemente, o rebanho esconde-se no fundo do eu»;
  • «À altitude conveniente tudo se assemelha e se confunde, os pensamentos do filósofo, as obras do artista e as boas acções»;
  • O que se perde em qualquer especialização, é a forma sintética que, na natureza, é a forma superior»

Nietzsche, Vontade de Poder I

quarta-feira, 11 de junho de 2008

AINDA A QUESTÃO DA JUSTIÇA?

MINERVA E O CENTAURO_SANDRO BOTICELLI; cerca de 1482Nas vestes de Minerva, a deusa da sabedoria, Boticelli colocou o emblema da família

*******

"Admitimos normalmente que uma discussão conduzida de modo ideal entre um grupo de pessoas tem maiores probabiliades de atingir uma conclusão correcta[se necessário mediante uma votação] do que as análises isoladas de cada um dos participantes. Qual a razão deste facto? No quotidiano, a troca de opiniões com outros limita a nossa parcialidade e alarga as nossas perspectivas; somos obrigados a ver a realidade através do ponto de vista dos outros e tomamos consciência da limitação das nossas posições. Mas, num processo ideal, a presença do véu de ignorância signfica que a imparcialidade do legislador é um dado adquirido. Os benefícios da discussão decorrem do facto de que mesmo os legisladores representativos têm conhecimentos e capacidades de raciocínio limitados. Nenhum deles sabe tudo o que os outros sabem ou consegue tirar as conclusões que só em conjunto se torna possível atingir. A discussão é uma forma de combinar a informação e de alargar o alcance dos argumentos. Os efeitos das deliberações em comum parecem melhorar necessáriamente a situação, pelo menos desde que se prolonguem no tempo." JOHN RAWLS; UMA TEORIA DA JUSTIÇA

terça-feira, 10 de junho de 2008

O PODER DA SAGEZA E DA JUSTIÇA

CÍRCULO LIMITE III_M.C.ESCHER
É o poder da sageza e da justiça
onde o humano e o divino se reconciliam
para fortalecer a acção e enobrecer a preguiça;
...
o apreço às partes e a felicidade geral
onde se conjugam múltiplas vontades
na aspiração da medida certa e ideal;
...
a força do igual e a riqueza do diverso
que desabrocham no jardim ético do Mundo
até o ser se ancorar e expulsar o inverso;
...
o sopro do homem e do Universo
onde o relógio da grande inquietação
é enfrentar e subjugar o perverso;
...
a justiça soberana e a sua irradiação nas leis
onde os povos erguem memoráveis instituições
para vencer a violência e não ficar da injustiça reféns;
...
a união pelo costume e a paixão pelo renascer
na vida dos cidadãos e na espontaneidade dos povos
onde o sobre-humano sempre pode reflorescer;
...
o sentido da dor e da grandeza
que aprofundam o coração homens
e neles marcam a tristeza e a fortaleza;
...
É o poder da sageza e da justiça,
combate da energia contra a preguiça,
apreço às partes e a felicidade geral
na aspiração da medida certa e ideal;
Sopro do homem e relógio do Universo
na luta contra o perverso;
Poder, Inocência e Caos,
fonte de toda a dor e alegria
onde mergulha inteira a filosofia!...
Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

DEFINIÇÃO DE DESOBEDIÊCIA CIVIL

GRAVITAÇÃO_M.C. ESCHER
"Começarei por definir a desobediência civil como um acto público, não violento, decidido em consciência mas de natureza política, contrário à lei e usualmente praticado com o objectivo de provocar uma mudança nas leis ou na política seguida pelo governo . Ao agir desta forma apelamos ao sentido de justiça da maioria da comunidade e declaramos que, na nossa opinião moderada e ponderada, os princípios da cooperação social entre homens livres e iguais não estão a ser repeitados...

A desobediência civil -para além de ser um acto político- é também um acto público. Não só apela a princípios públicos como é praticado publicamente.Participa-se nela abertamente, fazendo-a anteceder de um razoável aviso prévio: não é uma acção secreta ou camuflada. Podemos compará-la a um discurso público, e tratando-se de uma forma de apelo público, da afirmação de uma profunda e consciente convicção política, ela tem lugar no forum público. Por esta razão, entre outras, a desobediência civil não é violenta. Tenta evitar o uso da violência, em especial contra as pessoas, não pela recusa de princípio em recorrer à força, mas porque esta constitui a expressão final da sua reinvindicação. Efectuar actos de violência susceptíveis de ferir e de causar mal é incompatível com a desobediência civil enquanto forma de apelo. Na verdade qualquer interferência com as liberdades de outrem tende a esconder a natureza de desobediência civil da acção em causa. Pode acontecer que, se este apelo não for bem sucedido, se recorra posteriormente à resistência pela força. No entanto, a desobediência civil dá voz a convicções de consciência profundamente sentidas: embora possa constituir um aviso e uma admoestação não é em si mesma uma ameaça..." JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA.

domingo, 8 de junho de 2008

JUSTIÇA E POUPANÇA

As CRIANÇAS RICAS_FERNANDO BOTERO, 1968Óleo sobre, 98,1 x1 95,6.Colecção particular.

"Quando a população é pobre e a poupança difícil deve exigir-se uma taxa mais baixa de poupança; enquanto que de uma sociedade mais rica podemos razoavelmente contar com poupanças maiores, dado que o sacrifício real exigido pela poupança é menor. Pode acontecer que quando as instituições justas estiverem solidamente estabelecidas e todas as liberdades básicas efectivamente realizadas, a acumulação líquida exigida desça para zero. Ao atingir este ponto a sociedade satisfaz o seu dever de justiça conservando as instituições justas e salvaguardando a respectiva base material. O princípio da poupança justa aplica-se àquilo que, de acordo com as exigências da justiça, uma sociedade deve poupar. O desejo de os seus membros pouparem por outras razões coloca-se-se-se num plano diferente"

JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA

sábado, 7 de junho de 2008

PERSPICÁCIA

PERSPICÁCIA_RENÉ MAGRITTE
Magritte pinta-se na sua ocupação de pintor. Mais do que isso, transmite a criação inerente a este ofício artístico. O ovo constitui o motivo, mas na configuração artística revela-se na leveza de um pássaro.
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"E quanto a mim que amo a vida, parece-me que os que melhor entendem a felicidade são as borboletas e as bolas de sabão, e todos os que se lhe assemelham"

Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

EQUIDADE E JUSTIÇA?

MENINA COM ARCO_PIERRE AUGUSTE RENOIR,1885Óleo sobre tela, 125x 75 cm, Washington, National Gallery of Art

"Não se pode esquecer que o princípio da equidade tem duas partes, uma que indica como é que contraímos obrigações, ou seja, praticando volutariamente certos actos, e outra que estabelece a condição de que a instituição em causa deve ser justa senão de modo perfeito, pelo menos tão justa quanto é razoável esperar face às circunstâncias concretas. O objectivo desta segunda cláusula é garantir que a obrigação surgirá apenas se certas condições de fundo estiverem cumpridas. A aceitação ou mesmo o consentimento de instituições claramente injustas não dá origem a obrigações. É geralmente aceite que as promessas obtidas por extorsão são nulas ab initio. Da mesma forma, as estruturas sociais injustas constituem, elas próprias, uma espécie de extorsão, ou até de violência, e o consentimento que se lhes preste não é vinculativo. A razão para esta condição está no facto de que as partes na posição original insistirão para que ela seja imposta", JOHN RAWLS, UMA TEORIA DA JUSTIÇA,

quinta-feira, 5 de junho de 2008

AVENTURA DO ESPÍRITO[DIA DO AMBIENTE]

VASO DE PEÓNIAS NUM PEDESTAL_EDOUARD MANET,1864Óleo sobre tela, 93,2x 70,2.Paris Museu de Orsay

E aí, nessa extrema solidão, se produz a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão. Decide conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.

Busca um último senhor; ele será o inimigo desse último senhor e do seu derradeiro Deus; ele quer medir-se com o grande dragão, e vencê-lo.

Mas o que é esse grande dragão que, doravante, o espírito recusa chamar seu senhor e seu Deus? o nome do grande dragão é «Tu -deves ». Mas a alma do leão diz: «Eu quero »

«Tu-deves» barra-lhe o caminho, brilhando de oiro, coberto de escamas, e sobre cada uma dessas escamas brilham em letras de oiro, estas palavras: «Tu-deves »

Valores milenários brilham sobre essas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: «Todos os valores das coisas brilham sobre o meu corpo.

Todos os valores foram criados no passado, e a soma de todos os valores criados , sou eu. Em verdade não deverá mais existir qualquer «eu quero»...Assim fala o dragão.

Meus irmãos para que serve ter este dragão no espírito? porque não será suficiente o animal paciente, resignado e respeitoso?

O próprio leão ainda não está preparado para criar novos valores; mas liberta-se a fim de se tornar apto a criar novos valores, eis o que pode a força do leão.

Para conquistar a sua própria liberdade e o direito sagrado de dizer não, mesmo ao dever, para isso meus irmãos é necessário ser leão.

Conquistar o direito a novos valores é para um espírito paciente e laborioso a mais temível das empresas. E por certo que ele vê nela um acto de banditismo e de rapina.

O que ele outrora amava como o seu bem mais sagrado, é o «Tu-deves » Deve agora descobrir a ilusão e a arbitrariedade na própria base do que de mais sagrado existe no mundo, e conquistar assim, pela violência, o direito a libertar-se dessa prisão: para exercer uma tal violência é necessário ser leão.

Mas dizei-me meus irmãos que pode ainda a criança, e de que o próprio leão seria incapaz? Porque deverá ainda o leão roubador tornar-se criança?

É que a criança é inocência e olvido, novo começar, jogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel, afirmação santa." Nietzsche, assim Falava Zaratustra

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DAS TRÊS METAMORFOSES DO ESPÍRITO

O TOCADOR DE LIRA_CARAVAGGIOÓleo sobre tela, 100x126,5 cm, Nova Iorque, colecção particular

« Que há de pesado para transportar? diz o espírito transformado em besta de carga, e logo se ajoelha, tal como o camelo, e deseja ser bem carregado.

«Qual a mais pesada das tarefas, ó heroi, pergunta o espírito tornado besta de carga, eu a quero assumir, a fim de gozar da minha força. " Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A TORRE DE BABEL

A TORRE DE BABEL_PIETER BRUEGEL, 1563

Bruegel coloca a reconstituição da TORRE na paisagem costeira-é graças ao mar que os Holandeses adquirem grande parte da sua riqueza. A TORRE encontra-se por isso à beira de um rio-de facto, o transporte das mercadorias de grande tonelagem, como as pedras e o mármore, fazia-se pelas vias navegáveis e não por terra, onde os caminhos não eram pavimentados. A pintura introduz no episódio bíblico várias referências à realidade, entre outras o panorama da cidade.

Os contemporâneos de Bruegel encontraram explicação para a sua situação pouco babitual[ uma sociedade «multicultural» onde era muito difícil as pessoas entenderem-se-em particular no campo da religião] na Bíblia, no relato da construção da Torre de Babel[Génesis, II]; o rei Nimrod queria construir uma Torre cujo topo chegasse ao céu: Deus, aos olhos de quem este edifício representava o desmesurado orgulho dos homens, castigou-os, introduzindo a diferença de línguas. Vendo-se desde então impossibilitados de se entender, os operários dispersaram-se deixando a obra inacabada. TASCHEN PÚBLICO

terça-feira, 27 de maio de 2008

A eterna criança

A Criança e a Marioneta, cerca de 1903, em pintura de Henri RousseauÓleo sobre tela, 100x 81 cm, Winterthur, Kunstmuseum


"Acreditamos que os contos e os jogos pertencem à infância, míopes que nós somos! Como poderíamos nós viver, não importa em qual idade, sem contos e sem jogos! É verdade que damos outros nomes a isto e lidamos com ele de forma diferente, mas é precisamente uma prova de que se trata da mesma coisa!-Porque a criança, ela mesma, considera o seu jogo um trabalho e os contos a verdade. A brevidade da vida devia guardar-nos contra esta separação pedante por idades-como se cada idade tivesse qualquer coisa de novo-e seria um desafio ao poeta mostrar-nos que o homem- mesmo com duzentos anos de idade- fosse capaz de viver verdadeiramente sem contos e sem jogos"Nietzsche; Opiniões e Sentenças à Mistura

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A arte de raciocinar

Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem(Tampo de Mesa) de H.BoschÓleo sobre madeira, 120x150 cm, Madrid, Museu do Prado.

"O maior progresso que os homens fizeram consiste em terem aprendido a raciocinar de modo correcto . Não é uma coisa tão natural como pensa Schopenhauer quando diz:«Todos estamos aptos a raciocinar mas poucos a julgar», mas aprendemo-la tarde e ainda agora não impera .O raciocínio falacioso foi nos tempos antigos a regra, e as mitologias de todos os povos, a sua magia e suas superstições, o seu culto religioso e o seu direito, são minas inesgotáveis de provas para apoiar esta proposição". Nietzsche, Caracteres da Alta e da Baixa Civilização.

domingo, 25 de maio de 2008

Frases que fazem pensar?

Aracne(uma sibila?), cerca de 1644-1648.Pintura de VelazquezÓleo sobre tela, 64x58 cm, Dallas, Meadows Museum, Southern Methodist University

"As convicções são inimigas da verdade mais perigosas do que as mentiras";

"Ter por princípio não falar de si é uma muito nobre hipocrisia";

"A exigência de ser amado é a maior das presunções"

Nietzsche, o Homem em Sociedade

sábado, 24 de maio de 2008

Paradoxos do autor

Estudo para a cabeça de Apolo em «A Forja de Vulcano » VelazquezÓleo sobre tela, 36,3x25,2 cm, Japão, colecção particular

"Os pretensos paradoxos do autor de que o leitor tantas vezes se choca não estão no livro do autor mas na cabeça do leitor" Nietzsche, da Alma dos Artistas e Escritores.



sexta-feira, 23 de maio de 2008

Dons naturais

A forja de Vulcano em pintura de VelasquezÓleo sobre tela 223,5x290, Museu do Prado em Madrid

"Numa humanidade tão amplamente desenvolvida como a actual, cada um recebe da natureza o acesso a muitos talentos, mas quase sempre tem um talento inato e raros são aqueles a quem é conferido, pela acção fértil da natureza e da educação, o grau de tenacidade, constância e energia necessários para conseguirem realizar esse talento que genuinamente transita através deles como um manancial em obras e actos"Nietzsche, Caracteres da Alta e da Baixa Civilização.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Espírito

Retrato de Mona Lisa de Leonardo da Vinci!
Óleo sobre madeira, 77x53 cm, Museu do Louvre-Paris

"Os artistas mais espirituais são capazes de criar os mais imperceptíveis sorrisos"Nietzsche, da Alma dos Artistas e Escritores

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A importância dos Livros

Simbólica pintura de Sandro Boticelli
Lei draconiana contra os escritores

"Devia considerar-se o escritor como um malfeitor que não merece aceitação e graça a não ser nos casos mais raros: seria um bom antídoto contra a proliferação dos livros"Nietzsche, Da Alma dos Artistas e dos Escritores

terça-feira, 20 de maio de 2008

O que vale mesmo a pena

Senhora de Azul com Guitarra, na pintura de Tamara de Lempicka!Óleo sobre tela, 116x75 cm. Colecção particular

"O que vale mesmo a pena é ter um espírito leve; ou um espírito leve de natureza ou um espírito tornado leve pela arte e pela ciência" Nietzsche, o Homem em Si próprio

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Amor e dualidade.

Idílio amoroso, eternizado na tela, por Tamara de Lempicka!óleo sobre tela, 41x32,5 cm. Colecção particular.

"O que é o amor senão compreender e regozijar-se com que o outro aja e sinta de forma diferente da nossa e até oposta? Para que o amor estimule os contrários na alegria, é necessário que não os suprima e muito menos que os negue...Mesmo o amor-próprio tem por condição uma dualidade irredutível[ou uma multiplicidade] numa só pessoa." Nietzsche, Opiniões e Sentenças à Mistura.


sábado, 17 de maio de 2008

Máscaras

Rapariga de Luvas, 1929.Que famoso quadro de Lempicka!
verdade ou ironia?
"Há mulheres que, seja qual for a pesquisa feita, não têm interior, são puras máscaras.Há que ter pena do homem que se entrega a estes seres quase fantasmáticos, necessariamente incapazes de o satisfazer, mas são justamente elas quem mais é capaz de estimular fortemente o seu desejo. Este bem procura a sua alma mas não tem outro remédio senão continuar sempre a procurar" Nietzsche, Mulher e Criança.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O talento da amizade

Amendoeira em flor. Que Bela pintura de Van Gog!
"Entre os homens que têm um dom particular para a amizade destaco dois tipos: um está em evolução constante e para cada fase do seu desenvolvimento procura o amigo conveniente. A série de amigos que vai fazendo raramente envolve ligações recíprocas entre eles e por vezes há desentendimentos e contradições: muito naturalmente porque as fases ulteriores do seu desenvolvimento anulam ou alteram as fases precedentes. Um homem assim pode com piada chamar-se escala.-o outro tipo é representado por aquele que exerce uma força de atracção sobre caracteres e talentos muito diversos e para além de ganhar um largo círculo de amigos, também entre estes se geram relações de amizade, não obstante todas as diferenças. Podemos chamar-lhe homem-círculo: porque esta convergência de situações e naturezas tão diversas deve ser de qualquer modo uma forma preexistente nele.-De resto o talento de ter bons amigos é, em muita gente, maior do que o talento de ser bom amigo.
Nietzsche, O Homem em Sociedade

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Margem Esquerda: Viva Humberto Delgado!

Margem Esquerda: Viva Humberto Delgado!

Deixar-se amar

A Acomodação do Desejo, 1929 .Pintura de Salvador Dali

Dali pintou aqui a forma que tomam, na sua imaginação, as inibições que Gala está em vias de curar.

O VELHO ENREDO ERÓTICO
"Como, entre duas pessoas que se amam, uma é, normalmente, a amante e outra é a amada, acredita-se que, em todo o jogo amoroso, há uma quantidade de amor constante; que quanto mais vivida for por uma delas menos tocará à outra. Excepcionalmente, acontece que a vaidade persuade cada qual a imaginar que é ela que deve ser amada: e assim, ambas desejam deixar-se amar; por isso, acontecem, especialmente no casamento, tantas cenas semi-cómicas e meio-absurdas" .Nietzsche, Mulher e Criança

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O império de Vénus

A força vital da Primavera associada à distribuição da alegria e das flores!

a Primavera, pintura de Boticelli, de cerca de 1482

A composição representa o império de Vénus[no centro da imagem], no qual penetram o Amor e a Primavera com a sua abundância de flores.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Espíritualidade religiosa

A Anunciação a Maria- Sandro Boticelli
As mãos do anjo e de Maria constituem o verdadeiro motivo central da pintura.
A comunicação da mensagem e a sua recepção está aqui expressa de um modo fascinante!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A crença na inspiração.

Contemplando o nascer da lua no mar.

"Os artistas têm interesse em que se acredite nas intuições súbitas, nas repentinas inspirações: como se a ideia de obra de arte, poema, intuição central de uma filosofia, caísse do céu como um raio da graça divina. Na realidade a imaginação do bom artista ou do bom pensador produz constantemente o bom, o medíocre e o mau, mas o seu juízo, extremamente arguto e exercitado, rejeita, escolhe, combina; Podemos dar conta, pelos cadernos de Beethoven, que ele compôs pouco a pouco as suas magníficas melodias a partir de esboços múltiplos. O que discerne com menos severidade e se abandona voluntáriamente à memória reprodutiva poderá em certas condições tornar-se um grande improvisador: mas a improviação artística situa-se a um nível muito inferior em comparação com as ideias do arte escolhidas seriamente e de modo árduo. Todos os grandes artistas são trabalhadores infatigáveis, não apenas a inventar mas sobretudo a rejeitar, a passar pelo crivo, a modificar, a arranjar." Nietzsche, Da Alma dos Artistas e dos Escritores

domingo, 11 de maio de 2008

Enquanto


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio

e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé

para ver como é;

enquanto o sangue gorgulejar das artérias abertas

e correr pelos interstícios das pedras,

pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;

enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,

orfãs de pais e de mães,

andarem acossadas pelas ruas

como matilhas de cães;

enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto

com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,

num silêncio de espanto

rasgado pelo grito da sereia estridente;

enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio

cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas

amassando na mesma lama de extermínio

os ossos dos homens e as traves das suas casas;

enquanto tudo isto acontecer, e o mais que não se pode dizer por ser verdade,

enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,

o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão, OBRA POÉTICA

sábado, 10 de maio de 2008

O excesso de história é hostil à vida?

Que beleza e frescura nesta seara com ciprestes, eternizada na pintura de Van Gog!Que percepção luminosa e colorida da vida na natureza!

Tenha agora a gentileza de ler o texto...olhe os contrastes!
"A saturação de uma época pela história parece-me hostil à vida, de cinco maneiras. Um tal excesso faz crescer o contraste entre o ser interior e o ser exterior, enfraquecendo a personalidade; o excesso faz nascer numa época também a ilusão de que possui a virtude mais rara- a justiça- mais do que qualquer outra época; o excesso enfraquece os instintos do povo e impede os indivíduos tal como a totalidade de atingirem a maturidade; o excesso implanta a crença sempre nociva à velhice da espécie humana de que somos seres tardios, simples epígonos. O excesso dos estudos históricos desenvolve numa época um estado de espírito perigoso, a ironia sobre si própria , e este estado de espírito mais perigoso ainda, o cinismo; e assim essa época encaminha-se rapidamente para uma prática sábia mas egoísta que acaba por paralisar a sua força vital e destruí-la."Nietzsche, Acerca da Utilidade da História para a Vida.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Tudo o que existe faz falta?

Que linda Jarra de aloendro, nesta pintura tão natural de Van Gog! E que preciosidades os livros, em belo plano com a jarra!
Tenha agora a gentileza de ler o texto ...................................
"Que os pontos altos na luta pela existência formam uma corrente; que os picos da humanidade se entrelaçam entre si ao longo de milhares de anos; que na minha óptica o que há de mais elevado em cada um destes raros momentos tão antigos, é que ainda continue vivo, claro e imponente-essa é a ideia fundamental da fé na humanidade, a ideia que se exprime pela exigência de uma história monumental. Mas é precisamente por causa desta reivindicação: o que é grandioso deve ser eterno- que se inflama a luta mais terrível. Porque tudo o resto, tudo o que ainda está vivo grita: não! O que é monumental não deve formar-se:- eis a palavra de ordem contrária. O hábito apático, tudo o que existe de pequeno e vulgar e que se espalha por todos os recantos do mundo, lança a sua atmosfera carregada à volta do que é grande, lança os seus entraves e sombras sobre o caminho que deve ser percorrido pelo sublime para chegar à imortalidade" Nietzsche, Acerca da Utilidade da História para a Vida

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Poema do livre arbítrio

A morte de Sócrates: A sua escolha teria podido ser outra?


Há uma fatalidade intrínseca, insofismável,
inerente a todas as coisas e nelas incrustada,
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderia deixar de ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.


Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.
E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu livre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal।
António Gedeão, OBRA POÉTICA





segunda-feira, 5 de maio de 2008

A história é a dança da vida!

a harmonia da dança contrasta tantas vezes com a confusão da história!
A vida precisa dos serviços da história. Mas é também muito importante estarmos conscientes do que significa a proposição contrária, isto é, que o excesso de história é prejudicial à vida.
A história pertence à vida sob tês aspectos: pertence-lhe porque ela é activa e aspira; porque conserva e venera; porque sofre e tem necessidade de liberdade. A estas três relações correspondem três espécies de história, se me é permitido distinguir, no estudo da história, um ponto de vista monumental; um ponto de vista de antiquário e um ponto de vista crítico.

Nietzsche, Acerca da Utilidade da História para a Vida