sábado, 27 de fevereiro de 2010

NA MINHA BARCA...



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A BARCA DE DANTE
*
Sou a vida que brinca
no efémero que passa,
E a nostalgia que fica
na saudade que grassa;
*
Sou o sonho que acorda
quando o real amanhece,
E a paixão que transborda,
Quando a vida acontece;
*

Sou a noite que escuta
quando o silêncio floresce,
E o rio que se aprofunda,
Quando o caudal endoidece;
*

Sou a aventura que estica
quando o instante brinca,
E a alegria que dói,
Quando a dor constrói;
*
Sou um pássaro que voa,
E até a núvem que destoa,
Mas no que vivo, sou fogo,
E em tudo, nunca ardo à toa!...


Véu de Maya

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

JANELAS À NOITE

JANELAS À NOITE_E.HOPPER
*****
Quero florir no caos do silêncio,
Fazer dele um cristal imenso,
E trazê-lo puro nas dobras do véu,
*
Sei lá se tantos gritos que oiço
são núvens passageiras no céu
ou cruzadas de violência sem fim.
*
Mas sinto que ao clareá-lo assim,
a velha vertigem da angústia,
que fora mais suspiro que jardim,
é agora àguia a voar no céu,
e não o brilho ingénuo do véu.
*
É caos que se fundiu em cristal,
e não bela-alma que já reluziu,
É fogo que cheira à dor da nascente,
E até à alegria do silêncio que a floriu...

Véu de Maya

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NÉVOA DE LUZ...

O NASCIMENTO MÍSTICO_BOTTICELLI
*
É a fonte de luz e a pressão da treva
num frente a frente onde a vitória
é a supressão da névoa;
*
a aspiração do sujeito no objecto
onde a actividade traz riqueza ao mundo
e a afirmação roda no eixo certo;
*
o nó do objecto e a rotação do sujeito
como o enigma da esfinge no trágico herói
cuja sagacidade liberta, mas enfeitiça e dói;
*
o gesto e a metamorfose
que dão novas caras ao mundo e no amor
da fusão aspiram à plena simbiose;
*
a medida certa e a virtude prática
que na escala do amor à vida
são férteis similares à matemática;
*
o espírito e a alienação
que trazem ao mundo devir e contradição
onde toda a vida é dor e riso e transformação;
*
a renovação e o poder de criar
que permitem ao homem viver e sonhar
e na terra os pomares voltar a plantar;
*
É ilha de luz e pressão da treva,
actividade e alienação,
poder de criar e de renovação
na roda sagrada da afirmação;
ilusão e vontade, acto e metamorfose,
onde tudo aspira à plena simbiose;
O enigma da esfinge,
e o destino do edipiano herói,
que vai libertando, mas enfeitiça e dói...



Luís Lourenço, Poética do Instante Filosófico

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

AZAR SAGRADO


APOLO MATANDO A PÍTON_DELACROIX

*

Desprende-te de mim, vertigem tola,
Que soltas gritos às estrelas,
E aos ventos agrestes nas colinas,
*
Já tiraste as amarras ao abismo,
E esvoaçaste no teu ar as suas garras
,
Que é véu redentor pra tantas mágoas,
*
Agora és destino em fuso de parcas,
E roca de linho em sibilinas névoas,
Que antes foram só pesadas trevas,
*
E já te enlevo forte no meu voo,
Como ar puro, pois és vento em fogo,
E sem fúria, pois és vida em brumas,
Como o mar ao suavizar-se nas dunas,
*
Desprende-te de mim, vertigem tola,

Voa alta como pássaro enamorado,
Afaga a minha prece na tua orla louca,
E eu serei, no teu altar, só azar sagrado!




Véu de Maya

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

NIETZSCHE E A ARTE

A TOILETTE_PICASSO

*****
"Os artistas não devem ver as coisas tal como são, mas mais plenamente, mas mais simplesmente, mas mais intensamente:para tanto é preciso que lhes seja própria uma espécie de embriaguês habitual na vida"
"O preço que se paga para se tornar um artista é que tudo o que os não-artistas denominam
forma, seja sentido como conteúdo, como a coisa mesma. Com isso passa-se certamente a fazer parte do mundo às avessas; pois desde então, o conteúdo se torna algo meramente formal-incluindo nesse caso, nossas vidas"

"O grande estilo consiste no desprezo pela beleza pequena e curta, ele se confunde com um sentido para o que é raro e duradouro"



Nietzsche


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

NARCISO EM IDÍLIO


NARCISO_CARAVAGGIO *
Entre a rosa da paixão
e os lírios do teu olhar,
Rasgam-se as bocas,
No desejo tão loucas,
E na volúpia um pomar,
*
Entre as ninfas do luar
e a alquimia dos sábios,
Solta-se um arco-íris,
Que espreita nos teus lábios
como búzios em dunas do mar,
*
Entre jogos de criança
e os azares do Universo,
Corre o mundo em tuas águas,

em brincos de mudança,
Até ser barco profundo,
no rio das tuas mágoas,
*
E é aí que tudo floresce,
É aí que se afagam as bocas,

em faíscas de fogo e de luar,
E é ai, entre a rosa da paixão
e os lírios do teu olhar,
Que todo o idílio acontece!...





Véu de Maya

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

PÉROLAS DE NIETZSCHE

MULHER COM FLOR_PICASSO *****
A arte é um contramovimento insigne contra o niilismo.

O elemento artístico cria e configura. Se ele constitui a actividade metafísica pura e simplesmente, então todo o fazer, sobretudo o fazer supremo, ou seja, mesmo o pensar inerente à filosofia, precisa de ser determinado a partir dele. O conceito de filosofia não pode mais ser determinado, segundo a figura do doutrinador moral, segundo aquele que estabelece que contra este mundo que não vale nada há um outro mais elevado.É preciso muito mais que seja estabelecido contra esse filósofo moral niilista[cujo exemplo mais recente a pairar diante de Nietzsche é Schpenhauer] o filósofo do contramovimento, o "filósofo-artista". Esse filósofo é artista na medida em que configura o ente na totalidade, isto é, na medida em que estabelece formas inicialmente lá onde o ente na totalidade se manifesta, no homem.É preciso ler o nº 795 da Vontade de Poder] no sentido dessa ideia.
" O filósofo artista. Conceito mais elevado de arte. Será que o homem pode colocar-se tão distante de outros homens, a ponto de configurá-los?[exercícios prévios: 1. O que configura a si mesmo, o eremita, 2.o artista até aqui, como o pequeno realizador, trabalhando sempre sobre uma matéria dada]".
A arte, sobretudo em sentido mais restrito, é o dizer sim ao sensível, à aparência, ao que não é "o mundo verdadeiro", ou como Nietzsche diz, de maneira breve, ao que não é a "verdade".
Na arte decide-se o que é a verdade; e isso sempre significa para Nietzsche o seguinte: o que é verdadeiro, ou o que é o ente propriamente dito. isso corresponde àquela concepção necessária entre a pergunta directriz da filosofia e a pergunta fundamental da filosofia, por um lado, e a pergunta sobre o que é a verdade, por outro. A arte é a vontade de aparência como vontade de sensível.No entanto Nietzsche diz dessa vontade[XIV, 369]
"A vontade de aparência, de ilusão, de engano, de devir e de mudança, é mais profunda, mais metafísica do que a vontade de verdade, de realidade, de ser".
O que se tem em vista aqui é o verdadeiro no sentido de Platão, o que é em si, as ideias, o supra-sensível.Para Nietzsche, em contrapartida, a vontade do mundo sensível e de sua riqueza é a vontade do que a metafísica busca.Portanto a vontade do sensível é metafísica.
Essa vontade metafísica é realmente efectiva na arte
Nietzsche diz[XIV, 368]:
"Percebi realmente muito cedo a seriedade da relação entre arte e verdade, e ainda agora experimento um horror sagrado diante dessa disensão.O meu primeiro livro foi dedicado a ela; A Origem da Tragédia acredita na arte sob o pano de fundo de uma outra crença: a de que não é possível viver com a verdade; a de que a própria vontade de verdade é um sintoma de degradação...
A sentença soa monstruosa! Todavia, ainda que não perca o seu peso, ela perde a sua estranheza logo que é lida de forma correcta. Vontade de verdade significa aqui e sempre em Nietzsche, vontade do mundo verdadeiro, no sentido de Platão e do cristianismo, a vontade do supra-sensível, do que é em si. A vontade de um tal " ser verdadeiro" é, com efeito, um dizer não ao nosso mundo aqui, ao mundo justamente no qual a arte está na sua terra natal. Já que este mundo é o propriamente real e o único verdadeiro.. Nietzsche pode esclarecer quanto à relação entre arte e verdade :
que a arte tem" mais valor do que a verdade"[n 853-IV]; isso significa: o sensível encontra-se em uma posição mais elevada e é mais próprio do que o supra-sensível..Por isso Nietzsche diz: Nós temos a arte para não irmos ao fundo, para não perecermos com a verdade"[nº822] Verdade visa uma vez mais ao mundo verdadeiro em sua ligação com o supra-sensível; ela abriga em sim um risco de perecimento da vida, o que sempre significa no sentido de Nietzsche: de perecimento da vida ascendente. O supr-sensível arranca a vida á sensibilidade poderosa, subtrai dela as suas forças e a enfraquece"...Nietzsche, Martin Heidegger, vol 1-Forense Universitária.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

TERNO DUETO


*
És a orquídea encarnada,
E eu o teu cheiro sagrado,
Tu perfume na minha madrugada,
E eu lírio em prazer desflorado,
*
És a volúpia atrevida,
E eu o erotismo em flocos de cetim,
Tu a
ousadia desprevenida,
E eu os toques de harpa sem fim,
*
És o banho em aberto,
E eu o desejo por perto,
Tu a paixão que enfatiza,
E eu o amor que suaviza,
*
És a praia encantada,
E eu a onda até ficar quebrada,
Tu a sedução bailarina no mar,
E eu o navio pró na onda a baloiçar,
*

És brisa na minha liberdade,
E eu Sol na tua volúpia encarnada,
Tu a paixão na minha felicidade,
E eu o luar na tua ilha estrelada...



Véu de Maya

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010